terça-feira, 13 de outubro de 2009

Pé de Meia Literário (2)
Por Edson Gabriel Garcia



Os brasileiros quase anônimos e a formação de leitores


Dia desses, no mês passado, estive, como em anos anteriores, participando de um evento literário da Escola Municipal de Ensino Fundamental Mauro F. Gonçalves – Zacarias. Lá reencontrei o Wagner Carbonari, diretor da escola e a Olgair Gomes Garcia, coordenadora pedagógica. Não vi, desta vez, a professora Socorro de Lacerda, grande e sensível comandante da Sala de Leitura, ela mesma uma leitora de enorme sensibilidade. Mas sei que ela sabe das coisas da leitura.

Como sempre, apesar de todas as dificuldade que uma escola pública brasileira tem, o projeto pedagógico que o “pessoal do Zacarias” desenvolve é de primeira. Principalmente no que diz respeito à formação de leitores e escritores, no sentido amplo desses conceitos. Não é de hoje que a escola é referência no quesito formação de educadores, com projeto próprio, junto a outro grupo de escolas, em que pesem as dificuldades administrativas que as sucessivas gestões municipais apresentam.

Desta vez fui vestido de dublê de escritor e jurado de concurso de poesias.

Como escritor, fui entrevistado pelos alunos do quarto ano. Experiência conhecida de todos nós, mas sempre renovada quando se encontra um bom grupo de leitores. Como jurado do concurso de poesias, já na sua quarta edição, me coube a tarefa de indicar dez poemas feitos pelos alunos participantes. Junto com a escolha de outros jurados, escritores e educadores, alguns desses poemas seriam escolhidos para leitura pública e premiação. Até aí nada de muito novo, a não ser o compromisso com a leitura e a escrita, na sofrida periferia paulistana. O novo é o encontro desses escritores iniciantes, de idades as mais variadas possíveis, dos 9 aos quase sessenta anos, numa tarde de sábado, num auditório improvisado, para a leitura dos poemas e para aplaudirem a sua superação e participação no evento. São vitoriosos porque conseguem fazer poemas, depois de muita leitura de outros poetas, sobre coisas corriqueiras do seu cotidiano. E gostam de escrever, de ler e de ouvir.

Esse relato pode parecer bem simples e comum – e na verdade é – mas vale o registro por uma razão também muito simples: é por aí que dará (ou não) a formação de leitores e escritores no país.

É na distância do cotidiano dos milhares de brasileiros – e não nos eventos midiáticos, badalados e sobejamente dispendiosos – que nos tornaremos uma nação de leitores.

Parabéns aos brasileiros da escola municipal Zacarias, periferia de São Paulo, esquecidos da grande mídia e da badalação, pelo trabalho bonito com o qual vão construindo a sua identidade.

É gente como o Wagner, a Olgair e a Socorro e o trabalho que levam adiante na escola que vão fazendo o nosso pé de meia literário.


Sampa, outubro de 2009


EDSON GABRIEL GARCIA

(Educador e escritor)



quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Vice-Versa de Outubro de 2009




O Vice-Versa de Outubro traz para o blog Paulista, as entrevistas de César Obeid e Regina Gulla.


César Obeid entrevista Regina Gulla:

César Obeid: Cara Regina, agora é a minha vez! Tem gente que acredita que a habilidade para escrever é um dom e que isso não se aprende...
Eu e você somos pessoas que ministramos oficinas de criação literária. Eu mesmo já vi muita gente fazer belos textos. Então nos conte da sua Biblioteca de “inventação” interativa on line, Biliga!

Regina Gulla: César, eu penso que os dons dons, se é que os temos, quando não desenvolvidos, trabalhados, exercitados, para quê carregá-los?
E se não for por eles, por que não desenvolvermos a capacidade criativa da nossa inteligência? A minha experiência com a oficina literária de adultos nasceu de alguns anos com oficina de arte com crianças, e com elas aprendi que criar histórias e poemas dependia mais de motivação, de vontade, do que de dom.
A Biliga, é o resultado dessa experiência de abrir as portas para o exercício criativo de escrever, de conduzir a imaginação através das palavras, ou as palavras através da imaginação, dá no mesmo, não é?

César Obeid: Durante 23 anos você trabalhou com atendimentos psicológicos em clínica. Como essa experiência, de troca com seus pacientes, influencia a sua escrita?

Regina Gulla: Olha, César, eu não sei quem foi o ovo, quem foi a galinha, na minha história, se a clinica ou a literatura. Veja bem, a minha geração cresceu lendo Dostoievski, Tolstoy, Cronin, eram os livros que havia em casa, e de certa forma nos levaram a uma certa compreensão humana. Acho que daí, desse mundo de vidas escritas tão densamente (junto com a percepção das minhas próprias angústias), é que eu fui atraída pela clínica. Depois me voltei definitivamente para a literatura, onde tudo que vivemos, cá e lá, penso eu, é fonte de onde surge essa preciosa matéria imaginativa para nossa escrita... E do nosso canto, não é mesmo, César?

César Obeid: Vamos falar de um assunto que eu gosto muito também; transcrição de texto literário em teatro. O que um texto precisa ter para ser possível esta transcrição? E mais, quais são os textos que não servem para serem encenados?

Regina Gulla: Pois é, o teatro não é muito minha praia, embora eu tenha feito minha tentativas dramatúrgicas, sabe, César. Mas eu penso que se o dramaturgo consegue fazer viver a história que foi narrada em livro, se a história se sustenta com a ausência do narrador, então o dramaturgo e a história têm alguma chance. Veja, difícil encenar qualquer texto em que a história esteja circunscrita à linguagem literária. Até hoje eu não entendo, por exemplo, que passe de mágica foi dado para que um diretor de cinema conseguisse trazer o Lavoura Arcaica, do Raduan Nassar para as telas, por exemplo.
César Obeid: O seu ateliê literário e artístico, Gato de Máscara, funciona na Vila Madalena, região de grande diversidade cultural da capital paulista. É dali que saem suas obras visuais e escritas ou são das lembranças guardadas bem no fundo do coração? Aproveite a última pergunta para falar o que tiver vontade, até fazer uma rima para Biliga! Foi um prazer prosear contigo.

Regina Gulla: O prazer é meu, César, de poder levar uma conversa espontânea, por esse meio viceversado do querido Vice-Versa, com a mediação da Regina. É uma comunicação eletrônica? Puxa, parece até uma salinha com tapete de crochê e café fresco, numa vila encrustada nas ruas de nossa memória.
Não é não? A gente que é escritor, tem hora que chega a não saber em qual endereço a gente mora, e a Vila Madalena me dá essa chance de matizar a vila da imaginação, da memória, com o lugar onde moro. Sabe, uma lembrança a que essa conversa com você me leva a pescar – nesse mar de tumultos que é o coração– é a do meu vizinho, amigo na adolescência, que me chamava no muro para fazer rimas e estudar tabuada. Era o melhor jeito de fazer o muro entre as nossas casas cair por terra.
Valeu, César.




Regina Gulla entrevista César Obeid

Oi, César, acabo de começar uma conversinha com você, depois de assistir seus vídeos ( que amei, passei os endereços para meus netos e outros amigos) e quero te passar o que me ocorre, nesta tarde de sábado em que o sol surge todo alegre, depois das fortes chuvas.

Regina Gula: César, levei um tempo para compreender que a escrita poética é música letrada, palavreada, que anda de mãos dadas com as imaginação. E, assistindo seus vídeos, eu vi um homem que resolveu morar nesse mundo poético, seja expresso na voz falada, cantada, seja na escrita. E que resolveu professá-lo.
Me diz, poema, para você, é palavra cantada?

César Obeid: Olha, Regina, imagino o poema como sendo a palavra dita, bem pronunciada, com pausas, intenções e respirações. Pode ser palavra cantada também, mas precisa de pausas, sempre. Poesia sem pausa perde a graça.
Eu utilizo o canto improvisado, feito ao som da viola repentista, são poucos acordes que dão suporte ao calor e a rapidez da improvisação. O humor e a brincadeira são meus vizinhos que me visitam nessa hora, é um barato.
O improviso e a escrita, mesmo oral, são formas de expressão poéticas bem distintas, como não consigo ter preferência por uma delas, eu fico com as duas.

Regina Gula: *Ao observar seu noivado com o cordel, fico me perguntando o que será que a íntima relação com essa linguagem veio trazendo para sua experiência pessoal, seu modo de experimentar a vida, a comunicação com as pessoas ... Me conta?

Ótima pergunta! Eu diria que, o meu caso com o cordel, já deu até em casamento com dez filhos. Até o final de 2009, serão 10 livros publicados em versos de cordel. Foram mais de doze anos exclusivos dedicados ao estudo, à pesquisa e à difusão da poesia popular. Há dois anos, senti necessidade de experimentar a escrita em outros gêneros e também estou encantado com essas novas descobertas literárias.
O cordel, na minha vida pessoal, só me trouxe alegrias. Comecei o trabalho com o cordel e o repente em uma época em que as pessoas nem sabiam direito o que eram essas manifestações. Acho que nem eu sabia bem o que era, mas sentia que precisava trabalhar com isso. Insisti, aprendi, ensinei, escrevi, contei e cantei essas rimas com o coração aberto e só tive ótimos retornos; financeiros, emocionais e pessoais. Sou eternamente grato ao cordel, ao repente e, principalmente, aos poetas populares, meus verdadeiros mestres.

Regina Gulla: E, ainda, uma curiosidade me fica: como é que é que a experiência com o cordel foi afetando sua expressão, como autor? (Sim, pois me parece que se trata de afeto, a relação do cordel com você e sua com ele... Muito próxima do casamento.)

César Obeid: Eu vejo o cordel como uma forma de expressão oral e literária, mas o que motiva o conteúdo da minha produção são as minhas vontades, meus anseios e desejos. Observando tudo o que escrevi, claramente, eu vejo fases da minha vida. Não posso deixar de citar o teatro como outra influência na minha obra. Acho também que o cordel, como gênero, me motiva a buscar rimas sonoras para os poemas e brincadeiras com as palavras.

Regina Gulla: Observo, aqui na oficina literária que oriento, um certo preconceito com as RIMAS, essas incríveis analogias sonoras. E, Ufa!, como me custa reintroduzir a repetição do som na escrita das pessoas, no poema. É como se, a partir da proposta libertária em relação às formas anteriores, pelo Movimento dos Modernistas, lá por 1922, a rima, a métrica, a forma (fôrma) fossem vistas como uma espécie de prisão para a criatividade que se almeja no fazer poético, como um impedimento para as descobertas que emergem no meio (midium) do poema.
Minha pergunta é: é possível relegar a RIMA e a Métrica ao limbo e se obter (ou para se obter), das palavras, boa poesia?

César Obeid: Claro que sim, basta olhar a obra de grandes poetas que fizeram lindos poemas sem rimas, para crianças ou adultos. Deve ser muito mais difícil fazer um bom poema sem rima...
Mas, por outro lado, o uso da rima não é um fator decisivo para classificar um bom poema ou não. O mais importante é a veracidade com que o autor nos conduz, quais são as imagens que ele constrói, qual é o ritmo e a música que ele nos oferta.
O cordel, como um gênero literário, que leva a utilização da rima ao extremo, me deu várias possibilidades para aprofundar e experimentar o seu uso. Eu, particularmente, gosto de rimar, acho que a combinação do som oferece um bom apoio seja à narrativa ou ao poema.
Nos meus primeiros cordéis escritos, eu busquei rimas bem complexas, rimas em substantivos, em adjetivos, rimas em plural, etc. Eu achava que valorizaria muito mais o texto. Mas, depois de um tempo, vi que não faz tanta diferença a complexidade das rimas e sim, se ela é o apoio ideal para a mensagem do poema, que é mais importante.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

PALAVRA FIANDEIRA INTERNACIONAL

ALENTEJO PROFUNDO - Estação de Funcheira nos anos 80 - JOTA ENE - PORTUGAL

PALAVRA FIANDEIRA INTERNACIONAL

PÁGINA DE MARCIANO VASQUES

ANO 1 - Nº1 - 25 DE SETEMBRO DE 2009


Sonhares e dizeres. Aqui é um espaço da Palavra, dos que a têm como construção do mundo, dos que ofertam uma razão poética para contribuir com a edificação de uma vivência onde possa vigorar com mais autenticidade a vida. Um artista circense? Um escritor de Literatura Infantil? Um artesão das cores? Um músico?

Quem ouviremos por aqui? Iniciamos uma jornada de tons e verbos, onde encontraremos os que zelam pelo fazer e pelo ser, através da invenção que nomeia o mundo: a palavra.

***

PALAVRA FIANDEIRA INTERNACIONAL? Sim, sabemos que a alma da poesia nos acolhe e nos protege, que a Literatura Infantil encanta os olhos da criança, conhecemos a valentia dos que tecem histórias para os pequenos, e compreendemos que era necessário um espaço que atendesse ao coração do mais exigente leitor . Eis que aqui surge uma palavra límpida, onde o entrevistado é laçado numa busca dos corações que vagam e se "arriscam a vingar na cidade grande". Se busca um espaço onde o mais importante não é apenas os "prêmios e concursos que ganhei", dê uma parada aqui e acione o olhar necessário para que sejamos mais fortes. Com você, a primeira edição de Palavra Fiandeira Internacional!


***


Mitinha Gaitera ou Carmen Ezequiel? Quem afinal foi a escolhida para abrir a PALAVRA FIANDEIRA INTERNACIONAL? Sim, entrevistei a Carmen Ezequiel. E que entrevista saborosa!, parecendo em certos momentos com o "bolo acabado de fazer saindo do forno". Conhecer mais da alma portuguesa sempre foi uma vontade feliz. E aqui Carmen se expõe, lindamente, atendendo da foma mais natural o cerne da Palavra Fiandeira. E falamos de Educação, de crianças, da tecnologia, e ela citou Drummond, nunca é demais lembrar que ele está a nos educar com seu jeito mineiro do mundo.

Criada nas mágicas planícies do Alto Alentejo, a entrevistada nos oferta a generosidade do olhar de quem está com sua presença contribuindo para o aperfeiçoamento do humano coração. Gaitera de poemas, de ternura, de força suave e determinada, a falar dos que escrevem em Portugal e das coisas profundas que nos levam para a vida mais autêntica, almejada pela alma. Para você, entrelaçada nas palavras, Carmen Ezequiel.


PALAVRA FIANDEIRA INTERNACIONAL



EDIÇÃO 1 - CARMEN EZEQUIEL



1. Quem é Carmen Ezequiel e quem é Mitinha Gaiteira?

Carmen Ezequiel sou eu. Sou o que vêem. Esta presença física que se vai construindo emocionalmente, na esperança de chegar a outros. Como tem sido difícil, Mitinha Gaiteira surge para me ajudar. Assim, como Renata Oblié.

A Mitinha é uma sonhadora, pode-se dizer que é o meu eu mais alegre, brincalhão, que gosta da rima e de trocadilhos. Mas, que fala de coisas muito sérias.

Já a Renata é mais crítica, mais impulsiva, emotiva nas palavras, provocadora; sempre com a intenção de criar reação nos outros. Renata também pinta de vez em quando.

Pode-se dizer que são personagens que foram ganhando vida nas vidas de quem as acompanha.

2. "Nos meandros da tecnologia, colhemos pessoas fantásticas", assim você me disse. Fale-nos desse mundo tecnológico que também aproxima os poetas e as pessoas com a alma encharcada de arte.

Como boa amante do livro, do papel e da caneta, somente na necessidade é que me vi forçada a ingressar neste mundo das novas tecnologias. Reconheço, em demasia, a sua utilidade e hoje já não dispenso o meu portátil. Também, todo o meu trabalho profissional gira em torno do online e dos ficheiros, compatados e descompatados, de forma a utilizarmos a informação mais adequada e atempadamente.

Mas, como em tudo na vida, há que impôr limites e há que saber parar, evitando a tão famosa condição de dependente. Isso deveria funcionar para tudo o que se passa ao nosso redor.

Surpreende-me que os jovens de hoje não respeitem coisa alguma e façam da internet e jogos de computador a sua vivência natural. A meu ver virtual! E, sem a orientação dos mais velhos; porque infelizmente há muita maldade nestes meandros das tecnologias; que se desresponsabilizam com a falta de tempo ou outra desculpa qualquer. (mas, fiquemos por aqui, porque este tema tem pano para mangas)

Pessoalmente, tenho-me deparado com pessoas fantásticas e criado boas amizades. Claro que, tenho sempre algum cuidado, pois já me aconteceu, por diversas vezes, encontrar pessoas possessivas, carentes, com necessidades em tudo diferentes das minhas.

Necessito de estar actualizada e as novas tecnologias são-me muito úteis. Apesar disso, não vivo em função delas… para mim é sempre mais importante o alguém que criou, para outro alguém que o utiliza; e que somos nós, as pessoas, que importam mais. As novas tecnologias ajudam, o curioso é que ainda necessito de um bloco ou caderno na minha mala para uma eventualidade. E, em casa, apraz-me registar os meus apontamentos com a minha pena tingida de preto…

Por vezes, sinto saudades de receber uma carta…

3. Você quer com a palavra mudar o pensar do mundo. Como vê a força da poesia no mundo atual?


Esta afirmação foi uma promessa que fiz a mim própria. Algures, numa altura da minha vida em que o significado tinha uma conotação muito mais agressiva, e que, ao longo dos anos foi lapidado para melhor.

Penso que a poesia podem ser todas as formas de que, cada pessoa, em seu tempo, em seu lugar, utiliza para fazer o bem; sem nada esperar receber; que tenha fé ou esperança num mundo melhor.

Quando me esqueço da força que a poesia tem, cito Drummond: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra.”

4. O que é Chirimóia?

Chirimóia é um indivíduo sem importância.

Os portugueses; povo que outrora foi vencedor e conquistador de terras; necessita a meu ver, mas tampouco sem entender, de dar relevância a estatutos e cargos profissionais. Todos são doutores e engenheiros. E fazem questão de relembrar quem não o é…

Irrita-me solenemente! Na sua maioria, todos padecem de humildade, pelo tal desrespeito para com a pessoa em si.

5. Você é guardadora de estrelas. O que faz uma guardadora de estrelas?

Lamento, mas não sou guardadora de estrelas. Acredito, porém, que tenho uma estrela que me guarda e me alenta sempre que necessito.

6. Suas músicas favoritas são: o canto dos passarinhos, o silêncio da brisa, o poder e a força das águas. isso quer dizer que você tem um profundo envolvimento com a natureza. De onde vem essa forma de ser no mundo?

Do fato de ter sido criada nas mágicas planícies do Alto Alentejo. Isso permitiu-me contactar com a natureza, respeitá-la e enaltecê-la. Foi e tem sido uma aprendizagem.

7. As cores da ternura dão esperanças aos homens. A ternura tem força no mundo hoje? Ela ainda é necessária como uma força no universo?

Então não? Mais do que tudo. Comportamento gera comportamento. É curioso observarmos que, se respondermos a um comportamento agressivo, de forma calma e dócil (assertiva, por assim dizer); o outro ficam sem saber como reagir. A nossa natureza inata, a de criar conflitos…

Pelo menos, funciona comigo que, de quando em vez, tenho alguns ímpetos de agressividade. É algo que trabalho diariamente para contrariar.

8. Seu poema "Cuidados Paliativos" foi utilizado numa exposição de postais no hospital onde trabalha. Fale desse brotar da poesia e como concilia esses dois universos?

Tudo o que é feito com amor é poesia.

Esses dois universos são paralelos; que se cruzam todos os dias, em determinado momento.

Quando entro no hospital deixo as minhas preocupações pessoais de lado; assim como, quando chego a casa; é como se existisse uma barreira que me impede de levar as situações que me perturbaram no local de trabalho, protegendo-me, para que não interfiram com o meu bem-estar pessoal e familiar.

9. Você quer chegar com a poesia àqueles que muitas vezes se esquecem de olhar o outro como ser humano. Essa sua contribuição poética pode ajudar na mudança do olhar?

Quero acreditar que sim. Sei que tento, e tenho tido algumas críticas, bem positivas, relativamente à emotividade dos meus textos. Se chorarem, ou rirem, ou… nada sentirem… o que importa é que há sempre uma reação que inevitavelmente leva a refletirem e, já tenho visto algumas alterações de comportamento.

10. Também fala das asneiras que temos feito ao mundo, e acredita que investir na criança pode ser o caminho para a construção de um mundo melhor. Diante dessa perspectiva, como vê a Educação em seu país atualmente? Ela contempla essa sua crença?

Infelizmente não. E correndo o riso de ofender quem é pai e mãe; considero que a tal desresponsabilização que falei antes começa se encontra no seio familiar. O conceito de família evoluiu, e colocou a responsabilização dos pais e educadores, a transmissão de valores e o conceito de partilha e respeito pelos outros, num grande baú fechado a sete chaves para que as crianças não lhe mexam. As crianças de hoje! Os adultos de amanhã!

São claras as falhas no sistema educacional em Portugal. Essa é uma realidade que conheço cara a cara, com três docentes na família. Mas é premente que a educação (re)nasça no seio familiar.

Recuando no tempo, não tão longe assim, recordo-me de que eu nunca faltei ao respeito a ninguém e que, nunca uma palmada ou açoite, me tenham ferido o ego. Muito pelo contrário…

Quem deve orientar… quem deve incutir valores… quem se deve responsabilizar o não faz… vamos, depois culpar quem? (pois, porque o português tem sempre de culpar alguém)

Vamos culpar as crianças? De amanhã? Que nos esquecemos de educar ontem?

11. Seus textos encantam os que têm o tórax em poesia e os que amam a palavra. Mas a palavra está no mundo. O encantamento é ainda uma poderosa força no mundo?

Enquanto crianças sim. Depois o encantamento passa a ter outro nome: provocação. Esse encantamento que falas dos meus textos há quem os considere de provocação. Daí que o encantamento e simplicidade das crianças passem para a complexidade e mesquinhez dos adultos.

Nós complicamos muito.

12. Literatura Infantil é coisa apenas para crianças?

Nãaaaoooooo! Acho que todos aqueles que se acham maduros e adultos deveriam, na sua agenda, programar um tempo para relembrar o ser criança.

13. A vida é também amiga do artista? Para você, quais são os grandes obstáculos hoje para o artista ou o que vive em condição de poesia?

Eu vivo em estado de poesia… não em condição dela. Talvez, porque, provavelmente, nunca me sustentaria só dela. Isto em Portugal! Poucas são as pessoas que lêem e compram livros de poesia. Até eu, que adoro, sou muito seletiva nas minhas escolhas e entre dois livros prefiro um romance.

Até compreendo o porquê. Somos obrigados nas escolas a estudar textos complexos de poesia. Que ninguém percebe. Difíceis de ler. E sempre que há obrigatoriedade, criam-se alguns dissabores e desenvolvem-se barreiras neste campo literário. Depois, quem quer saber dos desamores de outros?

Aqui, e atualmente, todos escrevem, mesmo que não tenham nada para dizer. Somente porque fazem programas de televisão, ou cantam umas músicas, ou são VIP’s ou, sei lá o quê; publicam e dão o nome em livros e mais edições de livros, vazios, sem conteúdo, sem assunto ou teor; numa banalização tal; mas que toda a gente compra. Poesia, isso é complicado e, mais ainda, muito caro!

Já participei em antologia, em colectânea e, muito recentemente, num livro da minha autoria (tudo poesia, claro!.) Em todos eles tive que comparticipar e investir monetariamente. Sem quase retorno, satisfaço-me com o simples reconhecimento.

Não há valorização do trabalho daqueles que se iniciam neste mundo da poesia. Os concursos são pouco divulgados e extremamente exigentes.

14. Autor e cidadão são personagens diferentes? Ou um texto sempre traz alguma revelação da pessoa que escreve?

Depende. Se o autor assim o quiser.

15. Qual a importância da Língua na unidade de um povo, na sua própria identidade?

A língua é a identidade de um povo. O português, poliglota por natureza, perdeu um pouco essa noção. Em qualquer local a que vamos, esforçamo-nos para falar a língua desse país e, até mesmo no nosso próprio país, fazemos o mesmo.

Recebemos muito bem e somos extremamente acolhedores… para o turista… de fora.

16. Quando sentiu pela primeira vez a presença da poesia em sua vida?

Há muito tempo atrás. Quando era uma jovem inexperiente e me refugiava dos meus problemas e frustrações de adolescente.

17. Como a Literatura pode aperfeiçoar alguém? Estou me referindo à Literatura, ao grandes romances, à Poesia...

O meu livro SER – sobreviver em ruptura é o resultado desse aperfeiçoamento.

Florbela Espanca foi a minha grande mentora.

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!”

Em determinada altura, identifiquei-me bastante com ela. A partir daí, Isabel Allende e Paulo Coelho moldaram-me a mente.

18. Qual o significado real da Poesia hoje, num mundo de tantas inversões de valores, tanta confusão, tanto avanço tecnológico, etc... Ou seja, a Poesia ainda é necessária?

A poesia é sempre necessária. Independentemente da evolução dos tempos e da forma como ela é passada.

A mudança faz bem, temos de a aceitar e contemplá-la também.

19. A velocidade da tecnologia está abalando conceitos como Direitos Autorais, e até interferindo na emoção, visto que, por exemplo, pode se conseguir em minutos qualquer música que se queira. Fale-nos sobre isso.

Isso é a consequência da evolução dos tempos. Se as pessoas passam todos o tempo em torno do que consideramos tecnologia (quer seja a internet, o IPOD, o telemóvel e notebook, o computador, a TV interativa,…) há que chegar perto dessas pessoas. E, se Maomé não vai à montanha, vai a montanha a Maomé.

20. Pode nos falar de pelo menos uma obra que tenha influenciado a sua vida e o seu Ser?

Tenho várias que me têm influenciado ao longo da vida.

Verónica decide morrer”, de Paulo Coelho, deu-me um grande impulso para ir de encontro às minhas ideologias, numa altura em que arrisquei vingar na cidade grande.

O Principezinho”, de Saint-Exupéry, lido em idade já adulta, mas que me permitiu manter a simplicidade que nós, em crianças, entendemos do mundo que nos rodeia.

Muitos outros…

21. O que é para você a felicidade?

A felicidade é um conceito tão complexo aos olhos da humanidade. Quase que foi criado pelos homens, como mais um problema, para que estejamos sempre em conflito interior.

Não entendemos que a felicidade não existe nos outros, ou nos bens que adquirimos; mas no nosso íntimo, no nosso ser. E, felicidade, pode ser qualquer coisa…um sorriso, uma breve brisa do mar, ou o cheiro dos bolos acabados de fazer, que saiam do forno da nossa cozinha…

Felicidade do prazer de dar esta entrevista e falar contigo, que lês.

22. Fale aos leitores de Palavra Fiandeira sobre o que é para você a paixão.

É um amar com muita força! (sim, é uma piada minha com os meus irmãos!)

23. Confidencie-nos algo que muito a entristece.

O egoísmo da humanidade!

24. Na década de 80, o movimento literário alternativo explodiu no mundo. Poetas de todos os lugares publicaram e divulgaram a poesia em folhetos, revistas xerocadas e até mimeografadas. Hoje surge um novo fenômeno, que são os blogueiros. Como vê a ocorrência desse fenômeno e a sua validade enquanto movimento de divulgação poética?

Marciano Vasques, conhecemo-nos por acaso? A importância é aquela que se dá a quem está a ver, ouvir ou sentir e a validade só depende do sentimento mútuo.

Se não tivesse criado os meus blogues; se outros não me tivessem convidado para os seus blogues; se tu não tivesses entrado nesses mesmos blogues; esta entrevista não aconteceria.

Qual é a importância disso?

25. Deixe uma mensagem para o leitor de Palavra Fiandeira.

As pessoas que singram neste mundo são as que procuram as circunstâncias de que precisam e, quando não as encontram, as criam.” George Bernard Shaw.

Nestes últimos tempos esta é uma frase que me acompanha sempre. Obrigada.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Canto & Encanto da Poesia


Página da escritora Regina Sormani dedicada à Poesia e seus Poetas.

De acordo com Nelly Novaes Coelho: "Poesia alegre e lúdica que visa estimular a criançada a brincar, seja com as palavras, com os ritmos ou com as brincadeiras de rua".


Quem sou eu?

Ando de roda em roda,
Estou na última moda.
Vermelho, branco ou marinho,
Quase que ando sozinho,
De tanto que sou usado!
Vivo sempre esparramado,
Por baixo, beijando o chão...
Mas, perto do coração!
Todo mundo me conhece.
Quem me usa, nunca esquece.
— Você! Quer me conhecer?
— Sou o tênis! Muito prazer.

Poesia de Regina Sormani
Livro de poesia infantil: Rebenta Pipoca.
Ilustração: Marchi
Editora: Pioneira
(Todos os direitos reservados à autora)


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

PALAVRA FIANDEIRA



PALAVRA FIANDEIRA




Entre vistas, entre linhas, por aqui perambulam conversas e com versos. A intenção é revelar ao leitor o poeta, o escritor, o portador da palavra, aquele de vida dedicada ao livro, ao do profundo amor pela escrita, e os fragmentos da riqueza de sua alma. São entrevistas conceituais, onde o entrevistado vive a experiência de falar sobre o seu estar no mundo, o seu fazer e o seu querer. Em Palavra Fiandeira, o participante tem um encontro marcado com a sua maior cortesia, o seu maior tesouro. Não se resvala em vaidades, mas sim em alma exposta, na insondável força da palavra: a que move, a que traça caminhos destinantes. Com vocês, Palavra Fiandeira Segunda Edição!



MARCIANO VASQUES



Num Belo Horizonte desponta Bartolomeu Campos de Queirós, que viveu a infância numa cidadezinha antes de se mudar para a capital de Minas. Seu acervo poético é uma mina de palavras, viagens, memórias e magia.

Seu primeiro livro foi publicado em 1974, "O Peixe e o Pássaro". Com ele começou a sua caravana encantada, uma esmerada prosa: todas as cores, a esmeralda, o miosótis..., tudo que é poesia o invade, e ele despeja sobre o leitor a mais trançada, o mais delicadamente tecer: fortaleza em versos. Qualidade de ourives, já recebeu muitos prêmios, mas nenhum se compara aos que recebem os seus leitores, exigentes de uma prosa e uma poesia ímpares.

Enlaçado por uma timidez e uma persistente inflorescência, o poeta participa da segunda Palavra Fiandeira, que fica mais bonita e importante. PALAVRA FIANDEIRA orgulhosamente apresenta!: Bartolomeu Campos de Queirós.



2ª EDIÇÃO

ENTREVISTA

BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS



1. PALAVRA FIANDEIRA: Quem é Bartolomeu Campos de Queirós?

BARTOLOMEU: Sou um mineiro tímido, que vivo em Belo Horizonte. Faço do silêncio um companheiro definitivo. Escrevo para dividir minhas dúvidas e meus espantos diante da fragilidade que é viver. Surpreendido pelo tanto que não sei vivo cheio de perguntas. Na literatura eu posso indagar, conjecturar, questionar, tendo como caminho a busca da poesia.


2.PALAVRA: Seus livros produzem o imediato efeito de encantamento para os que amam a palavra. Mas a palavra está no mundo. Sendo assim, é necessário atualmente investir no encantamento, não apenas na literatura, mas na vida? Por quê?

BARTOLOMEU: A gente nasce sem ser ser consultado. Cai no mundo, se surpreende com a sua beleza, e já estamos condenados a morrer. Esse escândalo nos faz levar tudo para o campo da beleza. Sempre desconfio se de fato existe um objeto estético que promove um olhar estético, ou se sensivelmente somos capazes de promover a vida como uma inteira obra estética. A busca do encantamento é inerente ao ser humano.


3.PALAVRA: Literatura Infantil é coisa apenas para crianças?

BARTOLOMEU: Não penso em criança quando escrevo. Faço apenas o melhor de mim. É meu estilo frases curtas e em ordem direta. Isto facilita a leitura de meus textos pelos mais jovens. Sempre que você se propõe a escrever com destinatário o texto fica enfraquecido. Depois, literatura é para todos. É preciso falar à infância e acordar a criança que dorme no adulto.


4.PALAVRA: É visível a lapidação da palavra, o esmero, o cuidado, o zelo e o primor em seus escritos. Na vida, devemos imitar a sua obra e também nos aprimorar cada vez mais?

BARTOLOMEU: Não basta ter um bom assunto para fazer um livro. É preciso também uma forma original, capaz de romper com o cotidiano da linguagem. A unidade de um texto reside em sua forma e conteúdo. Aprimorar a linguagem é lapidar a vida. O homem tem o tamanho da palavra que ele sabe dizer.


5.PALAVRA: O escritor deve viver de acordo com a sua literatura? Ou seja, por exemplo, viver de uma maneira ética, ou, viver em retidão, se por acaso escreve para crianças, ou é possível e até aceitável a separação entre o cidadão (autor) e a sua obra?

BARTOLOMEU: A literatura é feita de fantasia. Fantasiamos o que não temos. Literatura, para mim, é feita de falta. Mas existem valores que são encarnados em você e que se estendem na obra. Não há como se afastar do que se é. Podemos perceber nas entrelinhas de um escritor muito do que ainda está por dizer.


6.PALAVRA: A Língua é a morada, é onde habita a identidade do homem, do ser, de uma gente. Qual a importância da Literatura no contexto da preservação da identidade de um povo?

BARTOLOMEU: A língua é o nosso maior veículo de comunicação. É com ela que nos expressamos, amamos, acusamos, difamamos, perdoamos, construímos. Por ela tapeamos a solidão. Ela nos aproxima ou nos afasta. Nossas diferenças são reconhecidas pela unidade da língua. Preservá-la é nos aproximar.


7.PALAVRA: Quando você sentiu, pela primeira vez, a força e a necessidade da Poesia (e ser poeta)?

BARTOLOMEU: Desde sempre a poesia me surpreendeu por dizer tanto em poucas palavras. Pela sua densidade, a poesia confirma melhor a capacidade inventiva do leitor. A poesia deixa mais abertura para o fruidor fazer as sua viagens. A poesia reconhece que também o leitor tem o que dizer. Dai reconhecer de que a poesia é surpreendentemente democrática. Todos encontram seu lugar.


8.PALAVRA. De que forma a Literatura pode melhorar a pessoa? Refiro-me à Literatura, aos grandes romances, aos poemas.

BARTOLOMEU: Sempre que lemos nos somamos aos fatos, personagens, histórias do autor. Para mim, ler é um processo de soma. Se lemos somos mais ricos. Nosso acervo aumenta. Se nos tornamos melhores eu não sei. Todo sujeito é também soma de hereditariedade e ambiente. Se soubéssemos quem é o outro a literatura também seria desnecessária. O bom texto literário deixa vir à tona a fantasia íntima do leitor e essa fantasia desconhecemos. Mas creio que a literatura sempre faz bem.

9. PALAVRA: Se tivesse que falar de um de seus livros, embora, claro, para o autor, todos eles sejam importantes, mas, se tivesse que escolher, de qual deles falaria? Por quê?

BARTOLOMEU: Hoje falaria do "Tempo de Voo" — Edições SM. É um texto em que aproximo minha infância da minha velhice. Deixo conversar os meus diversos momentos. Sou proprietário de um longo fragmento do tempo. Sei que nada somei, apenas subtrai. Pode ser uma conversa de peso, mas é uma conversa maior. Meu eu real conversa com o eu ideal.


10. PALAVRA: Globalização, informática, tecnologia, mídia... E a Poesia? Qual o seu significado hoje?

BARTOLOMEU: O Futuro a Deus pertence. A poesia permanecerá sempre. Talvez o mundo seja uma poesia do Criador. Depois, enquanto houver mistério, enquanto desejarmos milagres, a poesia estará presente. Os mistérios jamais esgotarão. Cada vez que a ciência desvenda um mistério mais outros nos surpreendem.


11.PALAVRA: Como vê a questão das mudanças em alguns paradigmas atualmente, entre os quais, a noção de Direitos Autorais (A Internet, a Criação Coletiva de um texto, A terra de Ninguém...)?

BARTOLOMEU: O maior prêmio de um escritor é ser lido. Ter sua obra circulando é um privilégio. Em livros, internet, é importante um leitor. Mas os direitos devem ser respeitados. É preciso, ao lado de tudo, possuir uma vida vivida com princípios éticos. Não podemos avançar somente tecnologicamente. É preciso também prosperar com ética.

12. PALAVRA: Você, obviamente, é um grande leitor. Poderia falar de uma ou duas obras que foram marcantes em sua vida, em sua formação? Na edificação da pessoa e do escritor que você é?

BARTOLOMEU: Tenho meus livros preferidos e não são literários. São livros de teoria. Digo três que me acompanham a vida toda: “ O Mito de Sísifo” de Albert Camus; “Fenômeno Humano” de Teillard de Chardin: “Obra Criadora” de Henry Bergson. São livros que me ajudam em cada nova leitura. Eles em fazem prestar mais atenção à vida. Mas leio muita literatura e de preferência poesias. Quando o tempo é pouco, você lê uma poesia pela manhã e ela dura o dia inteiro.


13.PALAVRA: Erich Fromm, Espinosa, filósofos, poetas. O poeta é como o filósofo. Às vezes pensa na vida e na felicidade. O que é para você a felicidade?

BARTOLOMEU: Eu vejo uma grande fraternidade entre a poesia e a filosofia. São reflexões que surgem sempre diante de um incômodo em responder as questões que a vida nos coloca. Surgem de indagações antigas, desde que o matéria tomou consciência de si mesmo. Nos modernizamos em determinados aspectos, mas continuamos antigos tanto quanto nossas dúvidas.


14.PALAVRA: O que é ser poeta?

BARTOLOMEU: Poeta é suspeitar. É ignorar a verdade. É apropriar-se do seu não-saber. É necessitar do outro para confirmar a sua fragilidade diante dos enigmas que a existência nos apresenta. Ser poeta é não ter vergonha de perguntar.


15. PALAVRA: As palavras alteram sentidos através dos tempos, e de tanto uso, também se desgastam. Nos grandes romances, nas grandes histórias (Tristão e Isolda, etc), vive-se intensamente a paixão. E alguns dizem que sentem paixão pelo que fazem. Poderia definir o que é paixão, para Bartolomeu?

BARTOLOMEU: Ter paixão, para mim, é um estado de liberdade tão amplo que você se abandona para viver o desejo do outro. Você ama tanto que se escraviza em liberdade. É exercer a generosidade exageradamente e com prazer absoluto.


16. PALAVRA: Falamos de felicidade, de poesia, mas, para terminar, diga algo ou algumas coisas que o deixam deprimido ou pelo menos muito triste.

BARTOLOMEU: Tenho cá minhas tristezas. Mas a maior é saber que somos capazes de realizar a Paz, somos capazes de democratizar a razão e não operamos neste sentido. Daí a minha confiança na literatura. Ela nos torna mais flexíveis e quem sabe perceberemos, uma dia, que a beleza pode nos arrebatar e viveremos em um mundo em que a única palavra necessária será silêncio.

UM NOVO BLOG

Flores de Sampa - Danilo Vasques

A alma é imensa e supera o cotidiano das coisas que passam. A poesia rompe barreiras como a flor ou o fiapo de capim que brotam nas fendas do concreto.
Um dia vi publicações alternativas percorrerem através dos correios diversos lugares, recolhendo e transportando em folhas xerocadas a palavra do poeta.
Hoje vejo surgir um novo blog nesta infinita biblioteca (imaginada por Jorge Luiz Borges?), neste espetacular labirinto, neste insondável espaço.
AEILIJ PAULISTA. Sim, das ladeiras, dos cantos e recantos de Sampa, Sampália, das calçadas e dos paralelepípedos, das praças onde os namorados e os poetas resistem, do cinema que ressurge, dos sebos e das galerias, da escassa garoa, das livrarias onde a Literatura Infantil encontra um seguro cais em cada tórax azul, vejo erguer as páginas de um novo blog.
E cá estou, ao lado dos que velam pela beleza e pela palavra. Os que têm coração de criança e olhar de poeta.

Marciano Vasques

domingo, 13 de setembro de 2009

Como tudo começou...

Caros associados,

Transcrevo aqui texto importado do meu blog http://vivaolivroinfantil.blogspot.com, explicando como surgiu a idéia da formação do 1º blog. Neste momento, estamos inaugurando o 2º, o AEILIJ PAULISTA, que pretende ser mais ágil, com novas páginas e muito mais informação. Quero agradecer a participação de todos que colaboraram e solicitar que continuem nos prestigiando.

Um grande abraço a todos,
Regina Sormani
coordenadora AEILIJ SP


Terça-feira, 18 de Março de 2008
Convite aos associados AEI-LIJ SP
Convido os associados da AEI~LIJ SP para um encontro dia 02 de abril de 2008 a partir das 17,30hs, na Assembléia Legislativa, entrada pela rua Sgtº Mario Kosel primeiro andar, auditório Teotônio Vilela, Ibirapuera.
Durante o encontro, serão abordados os seguintes temas:
- como reativar o programa - O escritor nas bibliotecas
- ítens contratuais tais como a venda especial de livros infantis
- escolha de um(a) escritor(a) ou ilustrador(a) para ser homenageado(a) em 2008
- estudar a viabilidade de formatar um blog que divulgue os associados SP
- outros assuntos oportunos

Aguardo a presença de todos!
Abraço grande da Regina
Postado por Regina Sormani às 12:32