domingo, 30 de maio de 2010

Francisco Marins


Olá, pessoal!
Francisco Marins foi um dos indicados para ser homenageado em 2010 pela AEILIJ regional São Paulo. As informações abaixo foram enviadas pelo escritor Manuel Filho.
Grande abraço,
Regina Sormani


Escritor da Terra e da Juventude
Os livros do escritor Francisco Marins, traduzidos em doze línguas levam as histórias típicas de nossa terra a vários países do mundo.
É o único escritor do país a figurar na famosa coleção Européia "Delphin", que reúne os clássicos de literatura juvenil de todo o mundo!
Quem é o escritor Francisco Marins?

Francisco Marins passou sua juventude em uma típica propriedade rural que ele havia de imortalizar com o nome de Taquara-Póca e em uma vila. Formulou a idéia de contar em seus livros sobre a vida do interior e, também, sobre a epopéia de integrar o território, as passadas sertanistas, as bandeiras, a lenda dos Martírios, bandeirismo, bandeiras fluviais, Expedição Langsdorff, etc.
Também é conhecida a campanha do escritor como ex-Presidente da Câmara Brasileira do Livro e Academia Paulista de Letras para a divulgação do hábito de ler e formação de bibliotecas em todo país.

Bibliografia
Livros infanto-juvenis

Nas Terras do Rei Café (série Taquara-Póca)
Os Segredos de Taquara-Póca (série Taquara-Póca)
O Coleira Preta (série Taquara-Póca)
Gafanhotos em Taquara-Póca (série Taquara-Póca)
Viagem ao Mundo Desconhecido
A Aldeia Sagrada (série Vagalume)
O Mistério dos Morros Dourados (série Vagalume)
A Montanha das Duas Cabeças (série Vagalume)
Em Busca do Diamante (série Vagalume)
Canudos (série Vagalume)
O Sótão da Múmia (série Vagalume)
Expedição aos Martírios (série Roteiro dos Martírios)
Volta à Serra Misteriosa (série Roteiro dos Martírios)
O Bugre Chapéu de Anta (série Roeteiro dos Martírios)
Verde era o Coração da Montanha
Território dos Bravos

Romances

Clarão na Serra
Grotão do Café Amarelo
... E a Porteira Bateu!
Atalho Sem Fim

quarta-feira, 26 de maio de 2010

QUINTAS - 9

Marciano Vasques
  


APRENDIZADO 
E DESENVOLVIMENTO 
DO SER
 
 

“Não há uma polegada do meu caminho que não passe pelo caminho do outro”
Simone de Beauvoir

 




Somos palimpsestos de nossa própria história, resultados de camadas sobrepostas, vamos nos escrevendo a partir da vivência com o outro, e o outro é um processo histórico e social, a nos moldar, a interagir em nosso Ser, naquilo que somos, que podemos potencialmente ser.
Um só corpo, uma só mente. O que nos torna universo é a oportunidade de sermos uno, a unidade nos simboliza. Ser uno é uma vertente humana que nos remete a cientistas do pensamento, como Vigotsky, para quem o homem é um ser biológico e social: as duas fontes de ser se entrecruzam, sendo que o ambiente social transforma o imperativo biológico.
Sou como sou porque convivo, porque estou entre eles, porque me faço com o outro, porque não poderei me desenvolver sem a aprendizagem mediada pela convivência com o outro.
As funções psicológicas sofrem uma influência gigantesca do social. Esse é o suporte biológico, a forma de desenvolvimento do Ser, passando pelo outro. Em mim há uma multidão! Mesmo quando estou só, quando me ponho na solidão escolhida, quando acredito na ilusão da solidão, como se em mim não colidissem milhares de gestos, palavras ouvidas, olhares, iniciativas do outro. Aquele que me questiona é o que me fortalece, me aponta a minha própria essência, o que temos em nós que se entrelaça, que nasce na história que construímos, num processo interativo em que prevalece a influência do meio.
Nascido no mesmo ano em que Piaget, Vigotsky deixou-nos uma reflexão de importância ainda considerável em modelos pedagógicos que têm como base a idéia de que o funcionamento psicológico fundamenta-se nas relações sociais e desenvolvem-se num processo histórico.
  Sou o resultado do que a história humana me fez,  produto inacabado que surge da interatividade social. Um processo histórico em ebulição agita - me as águas interiores nas quais navega o ser biológico altamente influenciado e construído pelo fator social: a convivência é o tesouro inseparável da mente humana.
O social que me enquadra, que modela a força da natureza que rege a minha originalidade, prática biológica enquadrada pelo social, eis me diante da multidão, a edificar a criatura que se molda. Qualquer inadequação favorece a indisciplina universal e desarticula as órbitas internas do meu universo.
Mas não sou passivo, um recipiente, assim como um vaso no qual se possa socar a terra até que fique cheio (educar uma criança não é como encher um vaso, mas como acender uma fogueira, Montaigne) . Não sou o vaso solitário, passivo, que aglutina em silêncio as forças que interagem em mim. Sou, ao contrário, aquele que reage e participa do processo que em mim se instala. As forças sociais, a história na qual eu me deixo construir, não são ramificações que me atravessam em vão, não representam forças que atuam sobre uma indefesa vontade, mas eu as construo: sou o que sintetiza o processo de crescimento, que se dá de fora para dentro, não de uma forma passiva, mas com o consentimento meu, e a interação se completa porque eu sou aquele que ousa crescer em conjunto, o que vale dizer, permito – me ao atrevimento de participar da minha própria construção.
Como anterozóides que se lançam em várias direções após a chuva, as matérias das quais me nutro, a vida social em mim, a construção histórica na qual eu me movimento, isso tudo é um processo dinâmico de interação entre o mundo cultural e o subjetivo: mundos que na colisão chamada vida, constroem o Ser.
Todo aprendizado, a cada manhã, olhando entre as frestas do sol, as nódoas entre os verdes das folhas nas quais deslizam vidas reluzentes, fibras num rosto, as maravilhas que o cérebro humano cria, o menino que cruza varetas e salta valetas, os trens, os espantalhos, força da natureza nas águas que se atiram contra os rochedos, os saberes que o acadêmico ergueu, a multidão desprovida que luta ferrenhamente pela vida nas ruas do meu país, os que aparentemente sabem menos, mas enriquecem a vida com suas histórias e seu afazeres delicados; todo aprendizado impulsionando o meu desenvolvimento!
Desenvolvo-me porque aprendo, como sempre aprendi, desde que no cimento frio e liso de uma varanda antiga estendi o roxo de um papel de seda que influenciou para sempre o meu sentido da visão, e com a cola arábica fiz o primeiro balão, que alguém chamou de pião de bico torto, e então a tocha molhada de querosene, e o breu em minhas mãos, sendo por mim socado, enrolado por um pedaço de saco de estopa, e aprendi quando atirava as mamonas e sentia a aspereza numa forma verde, e ganhava a consciência do tato, e quando observava uma joaninha nos verdes que se foram, e como abraçava a felicidade mirando o vermelho das telhas num contraste com um azul confortante, num triângulo que o mesmo telhado já em sombras no final do dia transformava numa das visões gigantescas e indissolúveis do meu desenvolvimento.

Aprendi quando imitava o outro, não mecanicamente, mas assim num processo lúdico de crescimento, na criação de algo novo além de mim, da minha capacidade de compreensão naqueles momentos. Imitava porque crescia e o outro já me fornecia a proximidade com o aprendizado, numa zona de interferência que o meu Ser acatava. O processo de imitação nunca foi algo banalizado em meu desenvolvimento, mas uma força ativa, na qual eu reproduzia para crescer, imitava para ser.
A presença do outro em minha vida deu-se através da história social na qual sempre me movi, o movimento social que interagiu com o meu querer, o aparato social que enquadrou minhas necessidades mais intimas. Ambientes que originalmente transformaram o imperativo biológico que me foi presenteado pela natureza.
Crescer é compartilhar. Léguas e polegadas, distâncias infinitas, uma estrada que termina no horizonte, mas o horizonte é uma ilusão, porque além dele o mundo continua, e a alegria de desenvolver-se com o outro, passando pelos caminhos do outro, há de se tornar sempre a mágica da vida.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

QUINTAS - 8

Marciano Vasques
  

NO DIA EM QUE O ENCONTREI
 
 



Estava vindo quando o encontrei. Dei uma parada e me pus na calçada pra ver a banda e lá estava ele. Num andaime, naquela construção antes da estação do metrô. Colocava, umas sobre as outras, as proparoxítonas.
Estava lá. Nunca pensei que pudesse encontrá-lo assim tão cedo. Aliás, nunca pensei que pudesse mesmo encontrá-lo. Foi um encontro saudável, a melhor coisa que me aconteceu.
Então a vi. Ela também estava lá, na mesma calçada e eu a chamei. Claro que pelo primeiro nome que me veio à mente. Pelo menos pensei que pudesse ser esse o seu nome: Carolina.
Talvez fosse Januária ou Iracema. Cecília? Angélica? Sou meio devagar para guardar nomes.
Já a encontrara antes, pelo menos duas vezes.
Na primeira ela era assim meio bobinha. Ia por uma floresta. Depois de um bom tempo reapareceu com uma fita verde no cabelo. Já estava bem crescida.
E finalmente me apareceu comendo um bolo de chocolate. Quis perguntar o que fazia ali, mas ela responderia o óbvio. Também estava esperando pela banda, ou então o carnaval chegar. Tinha perdido o medo de tudo, e não comia qualquer bolo. Ofereceu-me um pedaço.
Alguma coisa me distraiu, uma ostra, o vento, um zepelim, uma moça com uma tatuagem...

Foi só me distrair e, cadê a menina?
Num instante desapareceu. Tentei segui-la para perguntar um monte de coisas, mas no meio da multidão não encontrei mais nenhuma menina com chapeuzinho.
Não tinha reparado, mas havia uma multidão. Gente de todo tipo, uns lendo um almanaque, outros pelas tabelas, ainda esperando, esperando, esperando...
Perguntei inutilmente para uns curiosos se algum deles tinha visto uma menina assim, mas eles disseram que não tinham tempo para reparar em meninas com chapéus amarelos, mas eu argumentei também inutilmente que essa menina era muito importante e todos precisavam conhecê-la.
Ninguém queria saber, aliás, ninguém prestava atenção em mim. Um sujeito ouvia um rádio de pilha, colado ao ouvido. Do jeito que se movimentava, pareceu-me que ouvia uma dessas músicas assim com éguas.
Acho que essa multidão sempre esteve presente. Comecei a ficar sufocado, querendo sair do meio da multidão, quis gritar que a banda já havia passado, mas senti que ninguém estava esperando pela banda, talvez o sinal ainda estivesse fechado ou estavam esperando acontecer alguma coisa com ele, que continuava pendurado na construção.
Parece que a multidão gosta de ficar olhando para os andaimes lá no alto. O que sei é que a multidão não é muito chegada em olhar para o céu, assim contemplativamente. Isso é fácil de resolver, pensei, bastaria alguém espalhar o boato de que de algumas nuvens jorram moedas.
Achei melhor seguir em frente, para não chegar atrasado. Olhando as vitrines mas procurando não me distrair para não perder a hora.

Passou por mim um sujeito com tipo de malandro oficial e, como se fosse num sonho, quatro animais, cantando...
Era um sonho, sim, só podia ser, mas eu estava com tanta pressa que achei melhor nem pensar nisso. Sonhos ficam pra depois.
Passou uma morena por mim. Outra que está correndo. E olhe só o tamanho da fila do metrô! Perdi a morena de vista. É a coisa mais fácil perder alguém de vista em São Paulo. As pessoas entram nos labirintos e desaparecem. Adeus, morena. De Angola?
Meus caros amigos: sinto que estou ocupando demais o tempo de vocês, mas não podia deixar de contar esse encontro com ele, e com ela, a menina que perdeu os medos, e com as mulheres, todas: a morena, a noiva da cidade, aquela mulher, a Teresina, e outras.
Elas estão em nossas vidas, uma aparece como se fosse a primavera, outra, sob medida, uma nos oferece um amor barato, outra nos deixa injuriado. É assim, compadre, o que seria do seu cotidiano sem a presença da mulher? Mesmo que apenas em sonhos...
Mas, trocando em miúdos, está na hora da gente se despedir, o dia vai começar. Parece que tudo está do mesmo jeito. A gente continua lutando, lutando... e uma dor sempre querendo se hospedar.
No fundo mesmo o que eu queria era contar esse encontro que tive com ele. Um encontro desses faz um bem danado.


segunda-feira, 17 de maio de 2010

PÉ DE MEIA LITERÁRIO 9

PÉ DE MEIA LITERÁRIO 9

(Edson Gabriel Garcia)

Andando por aí, conversando com professores, alunos dos cursos de Pedagogia e Letras, mediadores de leitura e pais e mães, uma pergunta é costumeira e sempre presente: o que fazer para uma pessoa gostar e ler.

Costumo responder primeiramente que as pessoas próximas dessa que queremos fazer leitor ou leitora também têm que gostar e ler. Elementar. E aí, para não provocar os ânimos dos que me ouvem, sugiro a eles que leiam e comunguem os itens da lista que desenvolvi para esses casos. Serve para todo mundo, por que é simples, indolor, fácil, maneira, leve, suave e...permite adaptações e recriações.

Vamos a ela.


DICAS CONTRA O ESTRESSE NA VIDA MODERNA

1. Tenha livros, jornais e revistas por perto

Livros, jornais e revistas matam a sede de água e acalmam a fome de comida. Não cobram pedágio nem imposto de circulação de idéias. Leitura não é tarifada, não mede pulsos, não mexe no seu bolso. O acesso é ilimitado. O diálogo também.

2.Escolha uma pessoa por semana para conversar

Conversar sobre leituras. Sobre suas opiniões, suas interpretações e entendimentos. Sem medo, com prazer. Fale o que pensou sobre o que foi lido. Descarrega as energias ruins e prepara o coração sentimentos bonitos. A pessoa? Ah! Nesse caso não importa muito, desde que ela queira ouvir você.

3.Escolha uma pessoa por semana para ouvir o que ela tem a dizer

Ouça. Ouvir faz bem. Você aprende com os outros. Ouvindo, você descansa e oferece aos outros oportunidade de falar. Há poucas coisas tão gostosas na vida quanto ouvir alguém que quer falar. AH! Se a pessoa quiser falar sobre o que leu no jornal ou no último livro, estimule-a. De repente, aí pode estar uma dica para sua próxima leitura.

4.Escolha momentos na vida para sumir desse mundo

Calma, calma, calma. Não é nada do que você está pensando. Afaste esse pensamento ruim. A proposta é a seguinte: dedique parte do seu tempo diário para ler. Escolha um lugar gostoso (sua cama, o sofá da sala, a cadeira do almoxarifado, o banco do ônibus, o banco da praça) e desligue-se. Entre de cabeça na leitura: saia desse mundo e entre em outro possível.

5.Viaje sem sair do lugar

Foque sua leitura. Entre no clima. Solte a imaginação. Pergunte-se e pergunte ao texto. Encha-o de porquês estranhos, diferentes, curiosos, gozados, interessantes, incomuns. Viaje na possibilidade. Tente adivinhar o que virá pela frente. Teste sua capacidade de levantar hipóteses. Jogue com o texto. E ganhe. Sempre.

6.Dê livros de presentes

Faça uma festa com isso. Mande bilhetes, insinue, atice a curiosidade do futuro presenteado. Convença-o da gostosura que vai receber. Explique ao homenageado que um livro é para ser lido, amado, saboreado, comido com os olhos, acariciado com as mãos, apertado no peito. Ensine o amigo presenteado, se ele ainda não souber, que um livro faz carinhos no cérebro.

7.Seja curioso/a

Acredite: a curiosidade desloca o ar dos pulmões, abaixa a pressão, faz o sangue circular mais vertiginosamente, acalma os nervos. Seja curioso, pelo menos duas vezes ao dia. Visite novos objetos de leitura, descubra seções interessantes nos jornais, procure entender o que está por trás do que você leu, pergunte o que seus amigos, colegas de trabalho e chefes estão lendo.

8.Passeie com livros

Há gente que gosta de passear com cães, outros com gatos. Há os que adoram passear de carro. Outros de bicicleta. Seja você um sujeito alternativo, uma pessoa diferente: passeie com livros. Os livros não podem gasolina nem coleira nem gastam sola de sapato. Livro é dócil e aceita ser levado a todo lugar. Não pede consumação, não pede sorvete. Só pede atenção e companhia. E retribui em triplo.

9.Leia poemas

Escolha poemas novos, espere o relógio anunciar vinte horas e dezesseis minutos, e ponha-se a ler poemas especiais ao som de todos os barulhos que compõem sua vida. Procure encontrar o tom exato para cada verso. Os versos agradecerão e sua emoção também.

10.Não acredite em listas de dicas contra estresse.

Não acredite mesmo. Principalmente porque a gente é diferente de tudo o que as listas pregam. Mas... se for uma lista contra o estresse da vida moderna que dá dicas sobre livros, leitura e quetais, pode acreditar que dá certo.

(Material inicialmente escrito para a Agenda do Educador, do Programa Prazer em Ler, do Cenpec e Instituto C &A)

São Paulo, maio de 2010

Um livro do qual gostei muito

Queridos aeilijianos,

Edson Gabriel Garcia comenta o livro de Pedro Bandeira: "Descanse em paz, meu amor".
Ambos são escritores associados da regional SP.
Agradeço a participação.
Abração,
Regina Sormani





UM LIVRO DO QUAL GOSTEI MUITO
(Edson Gabriel Garcia)

Eu gosto muito do gênero terror. Histórias de terror, ou “causos de medo”, como dizíamos, na minha terra natal, quando nos reuníamos na calçada da casa do “seo” Zequinha para ouvi-lo, entre um cigarro de palha e outro, contar suas histórias. E como era gostoso: início da noite, um certo escurinho causado pela fraca luminosidade das lâmpadas da iluminação pública da época, frio, e nossa curiosidade de moleques. Não fazia muita importância se depois da sessão de histórias, íamos para a cama com medo de qualquer folha de árvore que se movimentasse por força do vento, trazendo aos nossos ouvidos estranheza causadas pela audição das histórias.
Esse tipo de história, do gênero de terror, faz parte da literatura mundial como um dos ramos mais saborosos. O medo do desconhecido, do inusitado, do surpreendente, do mágico e do além, nos pega por aquilo que sempre nos incomoda: o que não conhecemos e não dominamos causa sensação de medo. Por isso, o medo, uma das mais fortes emoções do ser humano, é matéria nobre da literatura. Assim como o amor, o ódio, a ira. São gigantes guardados em nossa alma. Infelizmente no Brasil, embora na tradição oral o gênero seja bem presente, a publicação de histórias de medo, de terror, de desconhecidos e do além, não é comum. Basta uma breve vista d’olhos nos catálogos das editoras para constatarmos o que acabei de escrever. Fato que é altamente contraditório com a prática de leitura nas salas de leitura ou bibliotecas escolares. Comprovadamente, qualquer mediador de leitura pode afirmar isso.
É o que acontece, por exemplo, com um livro de que eu gosto muito, escrito pelo PEDRO BANDEIRA, chamado DESCANSE EM PAZ, MEU AMOR (Ática, 2009, 6ª edição, 12ª impressão), campeão de leitura, um dos livros mais retirados por empréstimos para leitura.
No livro, um grupo de jovens amigos, de férias, aventuram-se em uma casa solitária e antiga. Um cenário bonito, mas isolado, parecido com cenário de filmes românticos. Bem... uma chuva forte transformou o que pareciam férias gostosas em momentos de medo, angústia, terror. A chuva isolou os jovens, tirando qualquer possibilidade de comunicação com a cidadezinha mais próxima. Assim, isolados, sem comunicação, com o cenário romântico transformado em nervosismo puro, eles resolvem, para passar o tempo, e lidar com o medo e com uma situação inusitada, contam histórias de medo e terror. E vão, um a um, contando causos dos quais se lembram...Têm um objetivo claro nisso, por mais estranho, maluco e corajoso que possa parecer. E esta é a maior sacada do livro, o grande trunfo do autor, quando fecha a história e dá o toque final.
Livro para ler de um fôlego só. Desde que você não seja um daqueles que treme só de falar em histórias do mundo do além...tão próximas do nosso aquém!
Boa leitura, grande sacada, um exercício de boa literatura em um dos gêneros que precisamos recuperar, editar mais e ler mais ainda.

Sampa, maio de 2010

quarta-feira, 12 de maio de 2010

QUINTAS - 7 - A SUAVE FORÇA DA POESIA


  

A SUAVE 

FORÇA  
DA 
POESIA



Dia 14 de março é do dia da poesia. Isso significa que março é o mês da sensibilidade, o mês em que se comemora a lapidação da língua, o mês da alma preenchida com o néctar dos versos. Além de ser o mês do Dia Internacional da Mulher, temos o Dia Nacional da Poesia.

A poesia necessária como a água. Infeliz a sociedade que não precisa da poesia ou não sente a sua falta. Pobres os homens que julgam-na inútil. Mal sabem que a poesia genuína está presente na simplicidade da vida e é em cada gesto simples recolhido nas amizades que resistem  e  nos sentimentos que se arrastam que ela despeja a sua voz.

Imprescindível como a filosofia, acena nos mitos e nos desejos dos povos do mundo, nebulosa ressurge no coração de dor encharcado, encontra o seu vigor nos tórax abandonados pelo amor. Camaleônica, nasce das profundezas da alma. Com ela, às vezes, amor tece dores.

Gemidos, solidões e consciências, silêncios, ternuras e vontades espalham-na  como um canavial nas ventanias da vida.

A poesia é feita de palavras de barro, de graxa, de feno e de limo, palavras fortes como pão, incandescentes e feridas, palavras mansas como bálsamos, ternas como arbustos no azul da manhã. Há palavras que trazem aromas do mar, que descrevem batalhas, que desenham perdões, que falam da vida, dos portos, dos trovadores e das trovoadas, há as que falam dos seios da mulher, há as que falam dos gritos da África e há as que recolhem do viço das flores dos jardins a sua seiva, enquanto outras buscam nos sulcos da terra e nas fibras de um rosto, a sua essência.

A poesia é fiel ao homem, fortalece as mulheres e é o mais saboroso nutriente intelectual da criança.

Que seja apenas um equívoco a aparente aspereza  da opinião franca e transparente e que todos despertem  do sono dogmático que transforma a poesia em artigo de luxo ou sem utilidade numa sociedade fria e metálica regida pelas leis insensatas de um mercado, no qual a lógica predominante é a da moeda e da pretensa utilidade das coisas efêmeras.

A poesia jamais será efêmera e a sua originalidade está no cultivo da alma. O mercado que com sua  lógica calculista rege a sociedade,  tenta transformá-la em artigo sem utilidade, sem compreender que a sua utilidade está justamente em cada coração sincero e cristalino como as águas de um riacho.

Nenhuma opinião é áspera quando se refere a assuntos da poesia, por isso se pode afirmar com tranqüilidade que um general que despreza a poesia é um homem perigoso.

Algumas pessoas fizeram de suas vidas poesia plena.Um poeta anunciou no início da década de 20 que  “as ruas de Buenos Aires já eram suas entranhas”.       A poesia para uns tornou-se oração, para outros, sangue, para uns, conquista, para outros, revelação.

Março não poderia ir embora sem que aqui fosse registrada a importância da poesia, principalmente em nossa época e em nosso país.

Quando tudo parece fora de propósito, quando a ética parece uma quimera, quando os valores preciosos do amor, da bondade e da justiça parecem distanciar-se da vida, é prudente buscar na poesia a fonte generosa de alimento para a alma.


Fui um menino privilegiado criado num tempo de valores persistentes e uma educação rígida. Não falo da rigidez da tábua na mão (tabuada) nem da palmatória, falo da professora que me obrigava a decorar poesia. Nem imaginava aquela moça o bem que me fazia, e foi também responsável pelo homem que hoje sou.

Não acredito em ninguém que, conhecendo a força terna da poesia, a despreza.
Que o dia 14 de março passe a simbolizar em anos vindouros, a importância do cultivo da poesia no coração humano e que todos os de boa vontade estejam sempre dispostos a homenageá-la, e que ela, a poesia, penetre como raízes frondosas em cada vida, contribuindo assim com a sua força transbordante e suave, para o enriquecimento interior de cada um e para o aperfeiçoamento do olhar, que será  então um olhar poético - presente para o mundo.


MARCIANO VASQUES

QUINTAS


                                                                

Canto & Encanto da Poesia de maio de 2010.


Meus caros,
A poesia de maio é de autoria de Marciano Vasques, publicada no livro: UMA DÚZIA E MEIA DE BICHINHOS, da editora Atual.
Boa leitura a todos.
Um abraço,
Regina Sormani


A libélula


Talentosa,
flutuante,
uma artista
em pleno ar.

Fazendo acrobacias
como um helicóptero
a girar.