quarta-feira, 2 de junho de 2010

QUINTAS - 10

QUINTAS

Marciano Vasques


VIDAS TERCEIRIZADAS
 
 
 

Ouço-me enquanto caminho, e caminho para que a ventania me leve. Doce ventania, onde estará? Falta nos faz coisas que somos em nós. Se pudesse ficar aqui, em mim, um tempo por menor que seja, mas que não se torne um fugitivo, por mais que insista numa brusca insistência, que é a voz do dia.

Leio jornais, quase não ouço a canção que vinha do vento, mas mantenho-me em comunhão com o que poderia nos salvar, que é justamente o que não podemos evitar: sermos, - mas que pode ser aviltado, estimulado à perdição das cores no dia-a-dia, nas terríveis competições, e nas mais agressivas descaracterizações do ser.
Vidas terceirizadas, assim me parece que a querem, mas resistir é a única saída, é para isso que a poesia está nas ladeiras, nos picadeiros da alma, a clamar: Não me abandone! Não me renegue! Não abrace a insensatez, não me despreze.

Tudo nos afeta: o cartazista que despreza o idioma, a incoerência presidencial, o abandono da consciência, o desperdício da vida na perplexidade do aceitar inativo.
Não falarei do meu país, meu jovem, por que o faria? Ele é gigante pela própria natureza, e lá está navegado pelos nossos homens públicos. Está tudo bem, como sempre esteve. Como diríamos, quem somos, se nada somos? Mas temos a permissão para fingirmos que somos, e isso é fácil. Basta o acúmulo de coisas materiais. Incoerências e discrepâncias. E daí?

Talvez o refúgio não seja afinal tão dolorido. Entretanto, olvidarmos-nos em nome de uma vida artificial, de uma alegria que não é autêntica? Como tal coisa nos chora! A nós, que teimamos, que nos queremos na autenticidade. O que é mais portador da felicidade que uma conversa sem relógio, uma caminhada? Que preço teria a leitura de um livro ou a apreciação artística que uma alma livre poderia realizar?


Exijo uma ciranda. Eu? Mas se além do CPF e outras concessões, além de poder entrar na loja e ser recebido pela sorridente largura do crediário, além da propaganda da cerveja e da imbecilidade, além da rasa música que nos ofertam, que me adia a necessidade de comprar um rádio. Digo assim, um rádio mesmo. Que ultrapassado vou me tornando!, diante da sofisticada aparelhagem que a tecnologia edifica a cada dia para o som (Pois viva então o som! ). E eu, falando de rádio, o que imagino afinal? Um objeto retangular postado sobre um móvel, a elevar-me a alma com doces canções que o espírito criou?


Eu? Mas o que sou? Posso me arvorar em declarações inaudíveis. Sou um escritor! Mais alto! Sou um escritor. Ora, que batam palmas..., isso, toda a arquibancada. Palmas! Ele é um escritor! - alguém disse isso. - É! -,  - O que está com o nariz redondo e vermelho! Quem ouvirá o escritor? Quem ouvirá o poeta? Isso, ouvir! Assim: eu ouço, nós ouvimos...

Pobre tempo!

terça-feira, 1 de junho de 2010

MURAL 10 - JUNHO DE 2010

NÚMERO 10 - JUNHO DE 2010

O Mural é uma agenda cultural mensal,
editada conforme os eventos surgem.
Amigo associado de qualquer cidade do Estado de São Paulo, contribua...
aguardamos notícias dos eventos do interior.
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Nireuda no "Ônibus-Biblioteca" na Vila São José.

Fui convidada pela LIBRE - Liga Brasileira de Editores, conveniada com a Secretaria Municipal da Cultura - SMC, para participar mais uma vez de um dos itinerários do Ônibus-Biblioteca. Desta vez em um local muito especial, na Vila São José, em frente ao Colégio Estadual Prof Alberto Salotti (onde cursei o colegial). Montei um varal de cordéis e uma exposição de matrizes de xilogravura que ilustram o meu livro "Mitos e lendas do Brasil em cordel" - Editora Paulus. Tive o prazer de conversar com alunos, pais, professores e moradores da região. As crianças participaram de uma oficina de gravura e ouviram histórias.

Agradeço a atenção e carinho que recebi dos bibliotecarios: Virginia, Adilson e João.
Fotos de João A. B. Neto

Eu, montando o varal de cordéis, ao fundo a Virginia atendendo um leitor do Ônibus-Biblioteca:
Conheci a Ana Paula, ex aluna do Salotti. Ela pretende fazer museologia, gosta de cultura gótica, misticismo e wicca. Ao lado, a querida bibliotecaria Virginia:
Érica preparando sua gravura, a mamãe orgulhosa Maria, e o Matheus:
Ganhei a linda matriz de isoporgravura " A Cidade" do Matheus:
Recebi a visita de uma turma pra lá de especial:
A coordenadora pedagógica Creusa Cândida e as professoras do Centro de Educação Infantil - CEI Douglas Daniel do Nascimento - Jardim Castro Alves. Elas conheceram o Ônibus-Biblioteca e ficaram encantadas com projeto. Fui convidada para um bate-papo sobre o meu livro no CEI. Elas gostariam de receber o ônibus em sua escola. Fica registrado o convite!





Foi muito bom participar de mais um roteiro do "Ônibus-Biblioteca".
É uma experiência única.

Obrigada!


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PROJETO CONTA COMIGO

Coordenadoria Regional Sul

Apresentado pela Coordenadoria Regional Sul, promove um núcleo de estudos sobre a arte de contar histórias, envolvendo contadores da rede da zona sul de Bibliotecas e formandos em Pedagogia e Letras da UniÍtalo.


Biblioteca Marcos Rey
De 5 a 7 anos
Com Andréa Souza, Paula, Luzinete e Fernanda
De 1º a 15 de junho às 10h e às 14h

Biblioteca Belmonte
A partir de 5 anos
Dias 8, 15, 17, 22, 23, 24, 30 de junho
Horários e agendamento pelo telefone 5687-0408 com Andréa Sousa

Biblioteca Castro Alves
A partir de 4 anos
Com Solange
4ª feiras às 10h

Biblioteca Paulo Duarte
De 10 a 12 anos
Com Lucélia, Solange e Claudia e Sabino
Dia 17 de junho às 14h

Biblioteca Helena Silveira
De 5 a 6 anos
Com Andréa Souza, Paula, Luzinete e Fernanda
Dia 23 de junho às 10h

Biblioteca Roberto Santos
De 6 às 14 anos.
Com Andréa Souza, Isabel e Sabino
Dia 24 de junho às 9h30 e às 13h30

Biblioteca Chácara do Castelo
De 7 a 8 anos
Com Lucélia, Solange, Claudia e Sabino
Dia 24 de junho às 14h

Biblioteca Amadeu Amaral
A partir de 5 anos
Com Lucélia, Solange e Claudia
Dia 25 de junho às 10h

Biblioteca Raul Bopp
Com Lucélia, Solange e Claudia e Sabino
Dia 29 de junho

Biblioteca Malba Tahan
De 5 a 6 anos
Com Andréa Souza, Paula, Luzinete e Fernanda
Dia 30 de junho às 10h


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ACERVOS ESPECIAIS - LIVRO ESCOLAR

A Biblioteca Monteiro Lobato abriga o Acervo Histórico do Livro Escolar – AHLE constituído pelo conjunto de livros de uso escolar resguardado pelas antigas Bibliotecas Infantis e reúne várias fases da história e da educação no país desde o fim do século 19 até meados da década de 1970. Cartilhas, primeiras leituras e manuais de ensino, entre outros, compõem esse acervo especial, que contempla todas as disciplinas escolares dos cursos primário e secundário. Atende a pesquisadores, especialistas, estudantes e outros interessados na história do livro escolar.

Rua General Jardim, 485
Fone: 11 3256-4122
e-mail: bcspmlobato@prefeitura.sp.gov.br
Horário: necessário agendar previamente

Veja também nosso blog http://acervohistoricodolivroescolar.blogspot.com

DIGITALIZAÇÃO DO ACERVO

A digitalização dos livros didáticos antigos torna disponível para pesquisadores e público em geral o conteúdo integral de alguns títulos do Acervo Histórico de Livros Escolares. Inicialmente foram selecionados 9 títulos seguindo os critérios de antiguidade, originalidade e maior procura. A digitalização também beneficia o resguardo dos exemplares originais.

Títulos já digitalizados:

Pátria - Livro dedicado à mocidade brasileira. João Vieira de Almeida.
SP, Casa Ecléctica, 1899.

História de S. Paulo ensinada pela Biographia. Tancredo do Amaral.
SP, Alves e Cia Ed., 1895.

O Estado de São Paulo Ensino cívico. Tancredo do Amaral.
SP, Alves e Cia Ed., 1896.

Primeiro Livro de Leitura. Maria Guilhermina Loureiro de Andrade.
NY, American Book Company, 1894.

Biografias de Homens Célebres dos tempos antigos.
Lisboa, David Corazzi Ed., 1884.

Organização de Museus Escolares. Leontina Silva Bush.
SP, Empreza Ed. Brasileira, 1937.

Introdução ao estudo da literatura. Álvaro Guerra.
SP, Melhoramentos, 1930.

Álbum de Gravuras para ensino da linguagem. R. Puiggari.
RJ, Francisco Alves Ed., 1898.

Sortes da Physica
. Gaston Robert. (livro paradidático)
RJ, Garnier Ed., 1893.

Esses títulos estão disponíveis para consulta ou gravação para uso não comercial no Acervo Histórico de Livros Escolares da Biblioteca Monteiro Lobato.



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Revista Em Cartaz n° 36
(junho/10)

Toda a programação das bibliotecas da cidade,
eventos literários, oficinas culturais para download:

http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/revista/index.php?p=3629

domingo, 30 de maio de 2010

Francisco Marins


Olá, pessoal!
Francisco Marins foi um dos indicados para ser homenageado em 2010 pela AEILIJ regional São Paulo. As informações abaixo foram enviadas pelo escritor Manuel Filho.
Grande abraço,
Regina Sormani


Escritor da Terra e da Juventude
Os livros do escritor Francisco Marins, traduzidos em doze línguas levam as histórias típicas de nossa terra a vários países do mundo.
É o único escritor do país a figurar na famosa coleção Européia "Delphin", que reúne os clássicos de literatura juvenil de todo o mundo!
Quem é o escritor Francisco Marins?

Francisco Marins passou sua juventude em uma típica propriedade rural que ele havia de imortalizar com o nome de Taquara-Póca e em uma vila. Formulou a idéia de contar em seus livros sobre a vida do interior e, também, sobre a epopéia de integrar o território, as passadas sertanistas, as bandeiras, a lenda dos Martírios, bandeirismo, bandeiras fluviais, Expedição Langsdorff, etc.
Também é conhecida a campanha do escritor como ex-Presidente da Câmara Brasileira do Livro e Academia Paulista de Letras para a divulgação do hábito de ler e formação de bibliotecas em todo país.

Bibliografia
Livros infanto-juvenis

Nas Terras do Rei Café (série Taquara-Póca)
Os Segredos de Taquara-Póca (série Taquara-Póca)
O Coleira Preta (série Taquara-Póca)
Gafanhotos em Taquara-Póca (série Taquara-Póca)
Viagem ao Mundo Desconhecido
A Aldeia Sagrada (série Vagalume)
O Mistério dos Morros Dourados (série Vagalume)
A Montanha das Duas Cabeças (série Vagalume)
Em Busca do Diamante (série Vagalume)
Canudos (série Vagalume)
O Sótão da Múmia (série Vagalume)
Expedição aos Martírios (série Roteiro dos Martírios)
Volta à Serra Misteriosa (série Roteiro dos Martírios)
O Bugre Chapéu de Anta (série Roeteiro dos Martírios)
Verde era o Coração da Montanha
Território dos Bravos

Romances

Clarão na Serra
Grotão do Café Amarelo
... E a Porteira Bateu!
Atalho Sem Fim

quarta-feira, 26 de maio de 2010

QUINTAS - 9

Marciano Vasques
  


APRENDIZADO 
E DESENVOLVIMENTO 
DO SER
 
 

“Não há uma polegada do meu caminho que não passe pelo caminho do outro”
Simone de Beauvoir

 




Somos palimpsestos de nossa própria história, resultados de camadas sobrepostas, vamos nos escrevendo a partir da vivência com o outro, e o outro é um processo histórico e social, a nos moldar, a interagir em nosso Ser, naquilo que somos, que podemos potencialmente ser.
Um só corpo, uma só mente. O que nos torna universo é a oportunidade de sermos uno, a unidade nos simboliza. Ser uno é uma vertente humana que nos remete a cientistas do pensamento, como Vigotsky, para quem o homem é um ser biológico e social: as duas fontes de ser se entrecruzam, sendo que o ambiente social transforma o imperativo biológico.
Sou como sou porque convivo, porque estou entre eles, porque me faço com o outro, porque não poderei me desenvolver sem a aprendizagem mediada pela convivência com o outro.
As funções psicológicas sofrem uma influência gigantesca do social. Esse é o suporte biológico, a forma de desenvolvimento do Ser, passando pelo outro. Em mim há uma multidão! Mesmo quando estou só, quando me ponho na solidão escolhida, quando acredito na ilusão da solidão, como se em mim não colidissem milhares de gestos, palavras ouvidas, olhares, iniciativas do outro. Aquele que me questiona é o que me fortalece, me aponta a minha própria essência, o que temos em nós que se entrelaça, que nasce na história que construímos, num processo interativo em que prevalece a influência do meio.
Nascido no mesmo ano em que Piaget, Vigotsky deixou-nos uma reflexão de importância ainda considerável em modelos pedagógicos que têm como base a idéia de que o funcionamento psicológico fundamenta-se nas relações sociais e desenvolvem-se num processo histórico.
  Sou o resultado do que a história humana me fez,  produto inacabado que surge da interatividade social. Um processo histórico em ebulição agita - me as águas interiores nas quais navega o ser biológico altamente influenciado e construído pelo fator social: a convivência é o tesouro inseparável da mente humana.
O social que me enquadra, que modela a força da natureza que rege a minha originalidade, prática biológica enquadrada pelo social, eis me diante da multidão, a edificar a criatura que se molda. Qualquer inadequação favorece a indisciplina universal e desarticula as órbitas internas do meu universo.
Mas não sou passivo, um recipiente, assim como um vaso no qual se possa socar a terra até que fique cheio (educar uma criança não é como encher um vaso, mas como acender uma fogueira, Montaigne) . Não sou o vaso solitário, passivo, que aglutina em silêncio as forças que interagem em mim. Sou, ao contrário, aquele que reage e participa do processo que em mim se instala. As forças sociais, a história na qual eu me deixo construir, não são ramificações que me atravessam em vão, não representam forças que atuam sobre uma indefesa vontade, mas eu as construo: sou o que sintetiza o processo de crescimento, que se dá de fora para dentro, não de uma forma passiva, mas com o consentimento meu, e a interação se completa porque eu sou aquele que ousa crescer em conjunto, o que vale dizer, permito – me ao atrevimento de participar da minha própria construção.
Como anterozóides que se lançam em várias direções após a chuva, as matérias das quais me nutro, a vida social em mim, a construção histórica na qual eu me movimento, isso tudo é um processo dinâmico de interação entre o mundo cultural e o subjetivo: mundos que na colisão chamada vida, constroem o Ser.
Todo aprendizado, a cada manhã, olhando entre as frestas do sol, as nódoas entre os verdes das folhas nas quais deslizam vidas reluzentes, fibras num rosto, as maravilhas que o cérebro humano cria, o menino que cruza varetas e salta valetas, os trens, os espantalhos, força da natureza nas águas que se atiram contra os rochedos, os saberes que o acadêmico ergueu, a multidão desprovida que luta ferrenhamente pela vida nas ruas do meu país, os que aparentemente sabem menos, mas enriquecem a vida com suas histórias e seu afazeres delicados; todo aprendizado impulsionando o meu desenvolvimento!
Desenvolvo-me porque aprendo, como sempre aprendi, desde que no cimento frio e liso de uma varanda antiga estendi o roxo de um papel de seda que influenciou para sempre o meu sentido da visão, e com a cola arábica fiz o primeiro balão, que alguém chamou de pião de bico torto, e então a tocha molhada de querosene, e o breu em minhas mãos, sendo por mim socado, enrolado por um pedaço de saco de estopa, e aprendi quando atirava as mamonas e sentia a aspereza numa forma verde, e ganhava a consciência do tato, e quando observava uma joaninha nos verdes que se foram, e como abraçava a felicidade mirando o vermelho das telhas num contraste com um azul confortante, num triângulo que o mesmo telhado já em sombras no final do dia transformava numa das visões gigantescas e indissolúveis do meu desenvolvimento.

Aprendi quando imitava o outro, não mecanicamente, mas assim num processo lúdico de crescimento, na criação de algo novo além de mim, da minha capacidade de compreensão naqueles momentos. Imitava porque crescia e o outro já me fornecia a proximidade com o aprendizado, numa zona de interferência que o meu Ser acatava. O processo de imitação nunca foi algo banalizado em meu desenvolvimento, mas uma força ativa, na qual eu reproduzia para crescer, imitava para ser.
A presença do outro em minha vida deu-se através da história social na qual sempre me movi, o movimento social que interagiu com o meu querer, o aparato social que enquadrou minhas necessidades mais intimas. Ambientes que originalmente transformaram o imperativo biológico que me foi presenteado pela natureza.
Crescer é compartilhar. Léguas e polegadas, distâncias infinitas, uma estrada que termina no horizonte, mas o horizonte é uma ilusão, porque além dele o mundo continua, e a alegria de desenvolver-se com o outro, passando pelos caminhos do outro, há de se tornar sempre a mágica da vida.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

QUINTAS - 8

Marciano Vasques
  

NO DIA EM QUE O ENCONTREI
 
 



Estava vindo quando o encontrei. Dei uma parada e me pus na calçada pra ver a banda e lá estava ele. Num andaime, naquela construção antes da estação do metrô. Colocava, umas sobre as outras, as proparoxítonas.
Estava lá. Nunca pensei que pudesse encontrá-lo assim tão cedo. Aliás, nunca pensei que pudesse mesmo encontrá-lo. Foi um encontro saudável, a melhor coisa que me aconteceu.
Então a vi. Ela também estava lá, na mesma calçada e eu a chamei. Claro que pelo primeiro nome que me veio à mente. Pelo menos pensei que pudesse ser esse o seu nome: Carolina.
Talvez fosse Januária ou Iracema. Cecília? Angélica? Sou meio devagar para guardar nomes.
Já a encontrara antes, pelo menos duas vezes.
Na primeira ela era assim meio bobinha. Ia por uma floresta. Depois de um bom tempo reapareceu com uma fita verde no cabelo. Já estava bem crescida.
E finalmente me apareceu comendo um bolo de chocolate. Quis perguntar o que fazia ali, mas ela responderia o óbvio. Também estava esperando pela banda, ou então o carnaval chegar. Tinha perdido o medo de tudo, e não comia qualquer bolo. Ofereceu-me um pedaço.
Alguma coisa me distraiu, uma ostra, o vento, um zepelim, uma moça com uma tatuagem...

Foi só me distrair e, cadê a menina?
Num instante desapareceu. Tentei segui-la para perguntar um monte de coisas, mas no meio da multidão não encontrei mais nenhuma menina com chapeuzinho.
Não tinha reparado, mas havia uma multidão. Gente de todo tipo, uns lendo um almanaque, outros pelas tabelas, ainda esperando, esperando, esperando...
Perguntei inutilmente para uns curiosos se algum deles tinha visto uma menina assim, mas eles disseram que não tinham tempo para reparar em meninas com chapéus amarelos, mas eu argumentei também inutilmente que essa menina era muito importante e todos precisavam conhecê-la.
Ninguém queria saber, aliás, ninguém prestava atenção em mim. Um sujeito ouvia um rádio de pilha, colado ao ouvido. Do jeito que se movimentava, pareceu-me que ouvia uma dessas músicas assim com éguas.
Acho que essa multidão sempre esteve presente. Comecei a ficar sufocado, querendo sair do meio da multidão, quis gritar que a banda já havia passado, mas senti que ninguém estava esperando pela banda, talvez o sinal ainda estivesse fechado ou estavam esperando acontecer alguma coisa com ele, que continuava pendurado na construção.
Parece que a multidão gosta de ficar olhando para os andaimes lá no alto. O que sei é que a multidão não é muito chegada em olhar para o céu, assim contemplativamente. Isso é fácil de resolver, pensei, bastaria alguém espalhar o boato de que de algumas nuvens jorram moedas.
Achei melhor seguir em frente, para não chegar atrasado. Olhando as vitrines mas procurando não me distrair para não perder a hora.

Passou por mim um sujeito com tipo de malandro oficial e, como se fosse num sonho, quatro animais, cantando...
Era um sonho, sim, só podia ser, mas eu estava com tanta pressa que achei melhor nem pensar nisso. Sonhos ficam pra depois.
Passou uma morena por mim. Outra que está correndo. E olhe só o tamanho da fila do metrô! Perdi a morena de vista. É a coisa mais fácil perder alguém de vista em São Paulo. As pessoas entram nos labirintos e desaparecem. Adeus, morena. De Angola?
Meus caros amigos: sinto que estou ocupando demais o tempo de vocês, mas não podia deixar de contar esse encontro com ele, e com ela, a menina que perdeu os medos, e com as mulheres, todas: a morena, a noiva da cidade, aquela mulher, a Teresina, e outras.
Elas estão em nossas vidas, uma aparece como se fosse a primavera, outra, sob medida, uma nos oferece um amor barato, outra nos deixa injuriado. É assim, compadre, o que seria do seu cotidiano sem a presença da mulher? Mesmo que apenas em sonhos...
Mas, trocando em miúdos, está na hora da gente se despedir, o dia vai começar. Parece que tudo está do mesmo jeito. A gente continua lutando, lutando... e uma dor sempre querendo se hospedar.
No fundo mesmo o que eu queria era contar esse encontro que tive com ele. Um encontro desses faz um bem danado.


segunda-feira, 17 de maio de 2010

PÉ DE MEIA LITERÁRIO 9

PÉ DE MEIA LITERÁRIO 9

(Edson Gabriel Garcia)

Andando por aí, conversando com professores, alunos dos cursos de Pedagogia e Letras, mediadores de leitura e pais e mães, uma pergunta é costumeira e sempre presente: o que fazer para uma pessoa gostar e ler.

Costumo responder primeiramente que as pessoas próximas dessa que queremos fazer leitor ou leitora também têm que gostar e ler. Elementar. E aí, para não provocar os ânimos dos que me ouvem, sugiro a eles que leiam e comunguem os itens da lista que desenvolvi para esses casos. Serve para todo mundo, por que é simples, indolor, fácil, maneira, leve, suave e...permite adaptações e recriações.

Vamos a ela.


DICAS CONTRA O ESTRESSE NA VIDA MODERNA

1. Tenha livros, jornais e revistas por perto

Livros, jornais e revistas matam a sede de água e acalmam a fome de comida. Não cobram pedágio nem imposto de circulação de idéias. Leitura não é tarifada, não mede pulsos, não mexe no seu bolso. O acesso é ilimitado. O diálogo também.

2.Escolha uma pessoa por semana para conversar

Conversar sobre leituras. Sobre suas opiniões, suas interpretações e entendimentos. Sem medo, com prazer. Fale o que pensou sobre o que foi lido. Descarrega as energias ruins e prepara o coração sentimentos bonitos. A pessoa? Ah! Nesse caso não importa muito, desde que ela queira ouvir você.

3.Escolha uma pessoa por semana para ouvir o que ela tem a dizer

Ouça. Ouvir faz bem. Você aprende com os outros. Ouvindo, você descansa e oferece aos outros oportunidade de falar. Há poucas coisas tão gostosas na vida quanto ouvir alguém que quer falar. AH! Se a pessoa quiser falar sobre o que leu no jornal ou no último livro, estimule-a. De repente, aí pode estar uma dica para sua próxima leitura.

4.Escolha momentos na vida para sumir desse mundo

Calma, calma, calma. Não é nada do que você está pensando. Afaste esse pensamento ruim. A proposta é a seguinte: dedique parte do seu tempo diário para ler. Escolha um lugar gostoso (sua cama, o sofá da sala, a cadeira do almoxarifado, o banco do ônibus, o banco da praça) e desligue-se. Entre de cabeça na leitura: saia desse mundo e entre em outro possível.

5.Viaje sem sair do lugar

Foque sua leitura. Entre no clima. Solte a imaginação. Pergunte-se e pergunte ao texto. Encha-o de porquês estranhos, diferentes, curiosos, gozados, interessantes, incomuns. Viaje na possibilidade. Tente adivinhar o que virá pela frente. Teste sua capacidade de levantar hipóteses. Jogue com o texto. E ganhe. Sempre.

6.Dê livros de presentes

Faça uma festa com isso. Mande bilhetes, insinue, atice a curiosidade do futuro presenteado. Convença-o da gostosura que vai receber. Explique ao homenageado que um livro é para ser lido, amado, saboreado, comido com os olhos, acariciado com as mãos, apertado no peito. Ensine o amigo presenteado, se ele ainda não souber, que um livro faz carinhos no cérebro.

7.Seja curioso/a

Acredite: a curiosidade desloca o ar dos pulmões, abaixa a pressão, faz o sangue circular mais vertiginosamente, acalma os nervos. Seja curioso, pelo menos duas vezes ao dia. Visite novos objetos de leitura, descubra seções interessantes nos jornais, procure entender o que está por trás do que você leu, pergunte o que seus amigos, colegas de trabalho e chefes estão lendo.

8.Passeie com livros

Há gente que gosta de passear com cães, outros com gatos. Há os que adoram passear de carro. Outros de bicicleta. Seja você um sujeito alternativo, uma pessoa diferente: passeie com livros. Os livros não podem gasolina nem coleira nem gastam sola de sapato. Livro é dócil e aceita ser levado a todo lugar. Não pede consumação, não pede sorvete. Só pede atenção e companhia. E retribui em triplo.

9.Leia poemas

Escolha poemas novos, espere o relógio anunciar vinte horas e dezesseis minutos, e ponha-se a ler poemas especiais ao som de todos os barulhos que compõem sua vida. Procure encontrar o tom exato para cada verso. Os versos agradecerão e sua emoção também.

10.Não acredite em listas de dicas contra estresse.

Não acredite mesmo. Principalmente porque a gente é diferente de tudo o que as listas pregam. Mas... se for uma lista contra o estresse da vida moderna que dá dicas sobre livros, leitura e quetais, pode acreditar que dá certo.

(Material inicialmente escrito para a Agenda do Educador, do Programa Prazer em Ler, do Cenpec e Instituto C &A)

São Paulo, maio de 2010

Um livro do qual gostei muito

Queridos aeilijianos,

Edson Gabriel Garcia comenta o livro de Pedro Bandeira: "Descanse em paz, meu amor".
Ambos são escritores associados da regional SP.
Agradeço a participação.
Abração,
Regina Sormani





UM LIVRO DO QUAL GOSTEI MUITO
(Edson Gabriel Garcia)

Eu gosto muito do gênero terror. Histórias de terror, ou “causos de medo”, como dizíamos, na minha terra natal, quando nos reuníamos na calçada da casa do “seo” Zequinha para ouvi-lo, entre um cigarro de palha e outro, contar suas histórias. E como era gostoso: início da noite, um certo escurinho causado pela fraca luminosidade das lâmpadas da iluminação pública da época, frio, e nossa curiosidade de moleques. Não fazia muita importância se depois da sessão de histórias, íamos para a cama com medo de qualquer folha de árvore que se movimentasse por força do vento, trazendo aos nossos ouvidos estranheza causadas pela audição das histórias.
Esse tipo de história, do gênero de terror, faz parte da literatura mundial como um dos ramos mais saborosos. O medo do desconhecido, do inusitado, do surpreendente, do mágico e do além, nos pega por aquilo que sempre nos incomoda: o que não conhecemos e não dominamos causa sensação de medo. Por isso, o medo, uma das mais fortes emoções do ser humano, é matéria nobre da literatura. Assim como o amor, o ódio, a ira. São gigantes guardados em nossa alma. Infelizmente no Brasil, embora na tradição oral o gênero seja bem presente, a publicação de histórias de medo, de terror, de desconhecidos e do além, não é comum. Basta uma breve vista d’olhos nos catálogos das editoras para constatarmos o que acabei de escrever. Fato que é altamente contraditório com a prática de leitura nas salas de leitura ou bibliotecas escolares. Comprovadamente, qualquer mediador de leitura pode afirmar isso.
É o que acontece, por exemplo, com um livro de que eu gosto muito, escrito pelo PEDRO BANDEIRA, chamado DESCANSE EM PAZ, MEU AMOR (Ática, 2009, 6ª edição, 12ª impressão), campeão de leitura, um dos livros mais retirados por empréstimos para leitura.
No livro, um grupo de jovens amigos, de férias, aventuram-se em uma casa solitária e antiga. Um cenário bonito, mas isolado, parecido com cenário de filmes românticos. Bem... uma chuva forte transformou o que pareciam férias gostosas em momentos de medo, angústia, terror. A chuva isolou os jovens, tirando qualquer possibilidade de comunicação com a cidadezinha mais próxima. Assim, isolados, sem comunicação, com o cenário romântico transformado em nervosismo puro, eles resolvem, para passar o tempo, e lidar com o medo e com uma situação inusitada, contam histórias de medo e terror. E vão, um a um, contando causos dos quais se lembram...Têm um objetivo claro nisso, por mais estranho, maluco e corajoso que possa parecer. E esta é a maior sacada do livro, o grande trunfo do autor, quando fecha a história e dá o toque final.
Livro para ler de um fôlego só. Desde que você não seja um daqueles que treme só de falar em histórias do mundo do além...tão próximas do nosso aquém!
Boa leitura, grande sacada, um exercício de boa literatura em um dos gêneros que precisamos recuperar, editar mais e ler mais ainda.

Sampa, maio de 2010