terça-feira, 6 de julho de 2010

Canto & Encanto da Poesia- julho de 2010


Meus caros,

No Canto & Encanto de julho, estou postando uma poesia do meu livro Rebenta Pipoca, publicado pela Pioneira, cujos direitos retornaram à autora.

Beijos,
Regina Sormani



Ramalhete

Lindo brinco de princesa
Quem lhe deu tanta beleza?
E você, rainha rosa,
Violeta, flor bonita,
É de muitos favorita!
Altivo cravo, garboso,
Tem o cheiro mais cheiroso...
Diga, criança sabida,
Qual é sua flor preferida?

sexta-feira, 2 de julho de 2010

QUINTAS - 18

Marciano Vasques
  

O ESCRITOR E A LAGARTA


    Admirava uma lagarta comendo os verdes, quando fui perguntado sobre qual o mais importante filme do final do século. Respondi: “BUENA VISTA SOCIAL CLUB”.
  Filme de Wim Wenders, com a participação de lendários músicos de Cuba, entre os quais Rubén González, Compay Segundo, Ibrahim Ferrer e Omara Portuondo.
Não é bem um filme, é um documentário comovente.
Tocante do inicio ao fim, precisa ser assistido mais de uma vez por   militantes, sectários, amantes da arte. Ajuda a refletir. A mensagem precisa ser captada. Está no filme, mas precisa ser sentida.
Vejo um esportista do futebol conseguindo mais um patrocínio, que vai, entre outras coisas, engordar muito a sua renda. São agora vários patrocinadores, várias empresas. É muito dinheiro, não apenas para o moço. Deslumbrante ver as grandes empresas investindo no esporte, patrocinando um esportista, um ídolo.

Isso me fez pensar numa situação onírica, melhor dizendo, utópica, melhor ainda, bizarra: o escritor Fulano de tal conseguiu mais um patrocinador, breve estará lançando o seu novo livro. É o quinto patrocínio que o autor consegue.Também o poeta Sicrano de tal conseguiu novo patrocinador e estará participando de um congresso de literatura no exterior, no qual estará representando o Brasil. E ainda, o autor teatral Beltrano de tal conseguiu um novo patrocinador. Está preparando a montagem de seu novo texto, que será encenado em várias capitais do país.
Por enquanto ficaremos felizes vendo as grandes empresas patrocinarem apenas a distração do povo.

  Tempo atrás um jovem seqüestrou a esposa. Com uma faca na garganta dela, sete horas permaneceu. Exigiu a imprensa para expor a sua dor. Não suportava o sofrimento, ser traído arrebentava o seu coração, a indiferença da mulher o aniquilou por dentro, a sua possibilidade de ser feliz foi amputada com a zombaria que a esposa lhe impôs. A sua possível centelha de razão foi esmagada, esfarelada pelo desprezo do ser amado.Um homem pobre, infeliz, sem leitura.
A faca no pescoço foi a forma de mostrar o seu amor. Era só o que queria, mostrar o amor.Tragédia urbana, da periferia, daria um filme, uma peça de teatro, um romance, ou uma canção, como fez Gilberto Gil com “Domingo No Parque”. Gil é como Caetano, estrela imaculada que belas coisas faz.
Ponho-me a pensar. O que é um bom leitor? Penso que é aquele que tem em sua alma abundância de tolerância. Essa seria a matéria prima do bom leitor, tolerância. Em excesso.
Talvez ele seja o sujeito que aprendeu a dominar as gigantescas feras internas, com tolerância.Talvez se ponha a escavar o texto. Fazer com o texto o que brutalmente fizeram com a Serra Pelada.
E o que seria um bom escritor?
Penso que uma virtude do bom escritor é ter atenção para com a riqueza do coloquial.
Se ele despreza a riqueza do coloquial, falhou.

Como deve construir o seu texto?

Como uma lagarta.
O escritor tem parentesco com a lagarta, pois deve construir o seu texto como um casulo, que significa casa.
Assim como o seu texto deve ter um bom alicerce e também fortes e seguras colunas, deverá ser comparado ao casulo, que é construído em círculos, com os fios expelidos das entranhas.
O texto deve ser construído com a fineza do movimento circular do fio (fio que revela o caminho do labirinto) e o leitor, o grande escavador, terá diante de si a bela borboleta, a borboleta de vida eterna, que romperá o casulo, vitoriosa na sua metamorfose, após o período de intensa tolerância, a tolerância que é o brinde do leitor, a sua cortesia.
Sinestesia, o bom escritor valorizará as imagens sinestésicas da palavra, e a palavra dirá frio e dirá calor e ela, a palavra sinestésica do escritor contaminará a vida com luz.Com a sua palavra o escritor continuará o seu dizer. O seu dizer é poético, sinestésico.
O escritor erra, como todo ser humano, só os animais não erram, não têm o privilegio de errar.
E o erro é construtor, desde que acompanhado do pulo do gato.
Por isso a leveza, a sutileza e o silêncio são características essenciais do ser humano que busca o dom de ser felino. Se não for assim, se não tiver o pulo do gato, o erro não é construtor, não vale a pena.

O erro só vale a pena se for construtor, se for edificante. Se não edifica, melhor não existir. Quem desconhece o pulo do gato, melhor então ser como os outros animais, que não erram.
 Melhor seria o aprendizado sem erros, mas haveria de ser  uma quimera, uma fantasia.O que seria de um ser humano que nunca tivesse cometido um engano, e chegasse no alto da sua existência glorioso por nunca ter errado. Como imaginar uma criatura assim?
Quanto ao escritor, por sua condição de altamente produtivo e pela importância que tem nas sociedades humanas (se atualmente isso não é relevante, é porque as sociedades não são mentalmente saudáveis) adquiriu o direito saboroso do erro, pode errar quantas vezes for necessário, pois errando vai edificando e também fortalecendo o diálogo com o bom leitor.

O parentesco do escritor com a lagarta. Eis algo curioso. A lagarta comendo os verdes na sua preparação para o período de casulo pode ser comparada ao escritor se alimentando insaciavelmente com a vida, o seu alimento é a vida, e assim, depois, ele estará construindo o seu casulo, e a sua literatura terá lindas asas.

domingo, 27 de junho de 2010

Um livro do qual gostei muito

Queridos aeilijianos,

Nossa associada Rosana Rios comenta o livro de Caio Riter: "As Luas de Vindor".
Agradeço a participação.

Boa leitura a todos!

Um grande abraço,
Regina Sormani



As Luas de Vindor
Caio Riter
São Paulo: Ed. Biruta, 2010

A princesa Olívia não sabe que sua vida irá mudar. Seu pai, o Rei, está agonizante. E sua morte acontecerá bem na época em que as três luas de Vindor entrarão em alinhamento, o que poderá propiciar a fuga das terríveis Criaturas atrás do Espelho, que sofrem o castigo do banimento há décadas.
E há traidores no reino: a princesa saberá disso, mas não saberá em quem confiar. Orientada pelo Sábio, ela será a única pessoa capaz de se desincumbir de uma missão terrível e impedir a maligna Bizarra e seus aliados de causarem a ruína completa de tudo que seu pai construiu.
Com medo, mas com determinação, Olívia terá de abandonar tudo – o palácio, o Sábio que a aconselha, o amor pelo amigo de infância, e transpor as barreiras do Espelho. A jornada a levará a um mundo perigoso em busca de certa Chave; encontrará aliados entre os seres da floresta e será implacavelmente perseguida. Terá forças para aguentar a dor e as provações, além de descobrir quem tramou a morte de seu pai e a destruição de sua terra?
Caio Riter compõe com sua prosa concisa e poética esta novela fantástica, utilizando arquétipos ancestrais em novas combinações. É com um tremendo prazer que experimentamos a riqueza da linguagem do autor e mergulhamos na busca de Olívia pelo salvamento de seu povo, que vai levá-la ao descobrimento de si mesma, de suas fraquezas e forças, e – mesmo à custa de tremendas desilusões – a uma compreensão maior de seus próprios sentimentos .
Está de parabéns a editora Biruta por abrir espaço ao fantástico em seu catálogo, um gênero que possibilita aos escritores o exercício daquele maravilhoso “E se?...”
E se tudo fosse diferente?... E se existirem outros mundos, outras dimensões, outras formas de magia e perigos tenebrosos?... E se esses mundos paralelos nos mostrarem formas encantadas de abordar nossos próprios conflitos e dificuldades?
Parabéns também ao autor, o talentoso e premiado Caio Riter, do Rio Grande do Sul, por nos trazer nesta história cheia de significados ocultos a deliciosa jornada de uma heroína que falará fundo ao coração de cada leitor.
Como diz a quarta capa do livro: Seguir lendo é aceitar o convite de Olívia. Eu já aceitei. E você, tem coragem?


Comentário de Rosana Rios

sexta-feira, 25 de junho de 2010

PÉ DE MEIA LITERÁRIO 10

PÉ DE MEIA LITERÁRIO (10)

Aqui e ali, as fundações, espalhadas por todo o país, com uma ligeira concentração na capital paulista, contribuem para a formação de novos leitores, desenvolvendo neles o gosto pela leitura bem como a melhoria das habilidades/capacidades de leitura, como é o caso do programa FURA BOLO, da Fundação Cargill, criado em 1999. O programa abrange cerca de dois mil educadores de 137 escolas, de 18 cidades espalhadas em oito estados.

Do programa, conheço a Denise Cantarelli, que é gerente da equipe que toca o trabalho, e a Kátia Karam Gonzalez, consultora pedagógica. Conheço mais de perto e há mais tempo a Kátia, desde a época em que trabalhávamos no ensino municipal paulistano em projetos variados de formação de leitores e escritores.

O trabalho proposto pela Fundação Cargill, assessorado pela Kátia, é muito interessante. Começa lá onde deveriam começar todos os trabalhos de educação: formação dos educadores. É formando educadores, que gostam de ler, que certamente o resultado aparecerá: alunos leitores. Depois de uma formação inicial, o trabalho continua com a abordagem de temas variados e atividades dinâmicas que favoreçam a reflexão, sempre na perspectiva de colocar o livro na mão do leitor.

Temas como “diversidade de gêneros, textos com imagem e sem imagens, contação de histórias, abordagem das capas dos livros, leitura diversificada e atividades lúdicas a partir dos textos lidos” fazem parte do cotidiano das crianças e jovens leitores envolvidos no programa. O programa Fura Bolo é mais amplo do que este meu registro breve e avança por outras áreas, como o resgate da cultura local e tradicional.

Além do que escrevi anteriormente, a fundação também publica um jornal, trimestralmente, com matérias curtas, mas bastante interessantes, que contribuem para a formação do nosso pé de meio literário. No último número, abril-maio-junho/2010, traz, por exemplo, um depoimento do sempre atuante professor e escritor Douglas Tufano e uma entrevista com a Denize B.S.Carvalho, psicóloga e livreira, uma das sócias e mentoras da deliciosa Casa de Livros, que já foi matéria dessa coluna. E traz também, mais uma vez, a coluna Cantinho da Leitura em que a Kátia faz resenhas de alguns livros de nossa rica literatura infantil e juvenil.

Bem...programas como esse Fura Bolo e atuação como a da Kátia são ações que, certamente, fazem muito pela leitura, pela literatura, pela formação definitiva de educadores que gostem de ler e possam ensinar esse gosto e essa condição aos nossos futuros leitores do presente. Ações e atuações como essas são definitivas na construção do nosso pé de meia literário.

Sampa, junho de 2010

Edson Gabriel Garcia

(Escritor e educador)

quarta-feira, 23 de junho de 2010

QUINTAS - 17


SARAMAGO



Ouvi a sua voz. Eu estava num deserto, talvez, ou num sonho. Mas hoje, um dia de triste notícia, compreendi que a vida se renova a cada amanhecer, a cada final de entardecer.
As árvores que passam, as folhas a se despreenderem, o pólen lançado na ventania executando valsas invisíveis para os olhos embotados de cotidianos. Plantas percorrendo distâncias em suas genealogias poéticas e verdes. Plantas que atiçam sorrisos sob a chuva leve.
A vida se renova. O que morre renasce, e esse é o mistério. Renasce noutros corpos. A ideias serpenteiam num fluxo lampejante cobrindo de verbos as almas que almejam embelezar o mundo. O pensamento vaga e voa, sobre capinzais, bambuzais e varais.
A vida se renova. O que morre renasce noutros sonhos, germina, e morre para renascer.
Seu nome há de ser pronunciado em aldeias, em vilarejos, em acordes, em rabiscos, e será esquecido e relembrado e você estará presente no ciclo das palavras doces e esfomeadas.
E seu rosto será redesenhado com toda candura, todas as chuvas leves, toda a doçura, e a meiguice tardará, e virão temporais, e arrogâncias, e novos quebrantos, e sinas serão passageiras nas vidas insensíveis e nas transbordantes, e sinos badalarão. E temporais de incertezas, de amarguras, de rotinas estéreis...
E a louça, o vidro, o odor das flores banais, das orquídeas efêmeras, e das flores inesquecíveis, e o café requentado, a sopa quente, o pão saboroso saciando a fome, as calçadas...
E o cacto, e a fragilidade de miosótis, e dirão: aquele que ganhou o Nobel, e o seu idioma sobreviverá e se fortalecerá com o sangue pulsante nas feiras, nos mercados, nas gôndolas, nos mocambos, nos barcos, nas festas, nas estações ferroviárias, nos amantes nos quartos de motéis, nos encontros casuais, nas crianças correndo, rompendo o vento, abrindo passagens, rasgando capinzais, saltando valetas, cortando canaviais como vultos incandescentes faiscando em cerrações, em neblinas.
E só por uma gota de orvalho deslizando suavemente na folha lisa, e só pela fumaça do forno, pela poeira nos olhos, pelo manjericão exalando seu frescor, e só pela lentidão das azaléias, só por essas coisas, valeram as suas palavras.


MARCIANO VASQUES


terça-feira, 22 de junho de 2010

Reunião na CBL em 21 de Junho de 2010



Enviamos uma carta, à presidenta da CBL, sra Rosely Boschini, solicitando um espaço no stand coletivo a ser montado por aquela entidade durante a Bienal do Livro. Abaixo, o texto na íntegra. Continuando a matéria, postamos foto e resultados da reunião.


Ilma. Sra. Rosely Boschini
Presidenta da Câmara Brasileira do Livro

A Associação dos Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil, como é do conhecimento de todos os envolvidos no mercado editorial, tem participado, na medida de sua possibilidade e disponibilidade, de todos os eventos ligados à literatura infantil e juvenil, quer seja na discussão de políticas públicas, quer seja na divulgação desta arte, do livro e de seus profissionais.
Neste sentido, a aproximação da Bienal do Livro de São Paulo, brilhantemente organizada, há décadas, por esta competente Câmara, é motivo de satisfação para todos os nossos associados. Nossa satisfação será maior ainda se pudermos participar do evento, não só como autores e ilustradores nos stands de suas respectivas editoras, mas como instituição de porte nacional com um stand próprio.
Como, no momento, ainda não dispomos de autonomia econômica para bancarmos nosso próprio stand, solicitamos a esta prestigiada casa que seja analisada a possibilidade de algum espaço que nos seja cedido.
No aguardo da resposta, nos despedimos enviando forte abraço de consideração e, mais uma vez, reforçando nossos votos de congratulação pela qualidade do trabalho desenvolvido por vossa senhoria à frente desta Câmara.

São Paulo, 08 de junho de 2010
Regina Sormani -Coordenadora Regional- AEI-LIJ SP
Edson Gabriel Garcia –Conselho Consultivo-




Olá pessoal!

Temos ótimas notícias:

Estivemos ontem, dia 21 de junho, Edson Gabriel e eu, na Câmara Brasileira do Livro de São Paulo, numa reunião com o sr. José Henrique Grossi, o coordenador geral da Bienal 2010.
Fomos iniciar as tratativas para que a AEI-LIJ participe, ao lado de outras entidades, tais como UBE, ANL, BDL, do espaço coletivo oferecido pela CBL, durante a Bienal. Felizmente, obtivemos êxito nas nossas solicitações.
Ficaremos em contato permanente com o sr. Grossi que nos assegurou que após o término da copa, em julho, tudo será agilizado.

Um grande abraço,

Regina Sormani

quinta-feira, 17 de junho de 2010

QUINTAS - 16

Marciano Vasques
  

O CINE IPIRANGA FECHOU
 
 
 

Numa friorenta tarde lá estive suportando uma fila imensa que invadia a calçada. Estava com duas crianças para assistir "As Tartarugas Ninjas". Foi a última vez que fui ao Cine Ipiranga.

A multidão daquele dia não deixou que eu pudesse mostrar para a Daniela e para o Danilo a beleza arquitetônica do cinema.

Entrei diversas vezes naquele salão com 1030 lugares. Passei a minha adolescência indo aos cinemas. Lembro das vezes em que a mãe dava dinheiro para que eu pudesse comer nos dias em que ia ao centro procurar um trabalho. Eu gastava o dinheiro com o cinema. Assisti aos bons filmes assim. Doutor Jivago, e também aos filmes do Zé do Caixão, personagem que se não fosse original do Brasil seria por demais valorizado, apesar da minha recente decepção. Não uma decepção solitária dentro de um cinema, pois nos mesmos dias também assisti ao filme "O Menino da Porteira".

Não comia nada, nem um churrasco grego, e tampouco procurava serviço, por causa da minha timidez, e também porque o cinema era demais.

Depois passei em frente ao cinema várias vezes, e curiosamente, sempre notei a presença de camelôs na calçada da Avenida Ipiranga vendendo fitas VHS piratas dos melhores filmes exibidos no próprio cine.

São Paulo perdeu um dos seus históricos cinemas, bem no coração de Sampa, - quase na esquina imortalizada pelo compositor baiano -, que fechou suas portas em 10 de fevereiro de 2005. Na década de 60 a cidade tinha 27 cinemas funcionando em seu centro. Tinha um até na Rua Direita. Sim, a rua Direita que os Demônios da Garoa cantaram, também tinha o seu cinema. O tempo mudou.

Majestosos, de arquitetura impecável, verdadeiras obras de arte ornamentando a nossa cidade. Como fomos felizes passeando no Viaduto do Chá e passando em frente aos cinemas! O Cine Ipiranga foi inaugurado em 1943. Quando passei por ele a primeira vez estava com meu pai, e me recordo dele me apontando as belezas e os detalhes da cidade. Ele queria que o menino amasse tudo o que via. Sentia um orgulho intenso por estar comigo ali, naquele lugar, andando pelas ruas do centro, pela Praça Clóvis, pela Praça da República, certamente era um de seus raros dias de folga. Mas ele me apontava os prédios com tanta felicidade que até parecia ter nascido aqui em São Paulo.

Hoje as pessoas freqüentam as salas pequenas dos cinemas dos shoppings, mas os que preservam no coração a alma de uma cidade que aos poucos vai se transformando, não se esquecem das salas gigantescas.

O Ipiranga era um esplendor, havia tapete vermelho no chão, com bordados cintilantes, reluzentes, ouro de uma época que não voltará.

Quando eu estive com as crianças para assistir ao filme das Tartarugas, ele já estava em decadência, mas aquela fila interminável que ondeava a calçada tornando-se um caracol humano era sinal que o espírito de uma época, embora cambaleante pela avassaladora força da televisão, ainda resistia.

Mas aquele que já foi o mais luxuoso cinema da América Latina está com suas portas cerradas, e eu, andarilho solitário, que costumava passear pela Avenida Ipiranga, hoje sinto uma pontada no peito, quando "alguma coisa acontece no meu coração".

Pessoas vão à locadora num final de semana e reservam seus filmes prediletos, além das pizzas, grandes lojas na Avenida Paulista, por exemplo, anunciam em seus catálogos novos lançamentos, paulistanos iniciam coleções, videotecas, DVDtecas, e aqui perto, já temos um Shopping com nove cinemas. Entretanto o grande cinema fechou. E eu não estava lá, na sua derradeira sessão.