sexta-feira, 16 de julho de 2010

QUINTAS - 19

Marciano Vasques
  
 VIDA É ALGO MAIOR
 
  

Vida é feita de acúmulo cultural, resíduos poéticos que ferem como fiapos luminosos.

Terá a minha vindo do eucaliptal? Terá começado com o menino franzino que corria da chuva numa tarde que não partiu da minha memória?

Terá começado com a distinção do apito do trem na madrugada de febre?

Apito que devia ter sido recolhido e guardado  feito documento sonoro da memória do Brasil, como a voz de Catulo da Paixão Cearense, como as onomatopeias da infância. Há sons que só a criança ouve. Voa borboleta!

  E assim sou memória também. O olhar distante do meu pai, a sua impenetrável solidão. Que homem pode ter havido mais solitário em minha infância? Ele também era feito de memória. Memória que não cabia na casa, que se  estendia na varanda, se espichava na rua, desaparecia na poeira ou na neblina.       

Teci os caminhos, entrei neles com a teimosia encravada na alma, tal como o pássaro que fincou o espinho no peito, naquele conto que eu lia numa noite chuvosa.

Aprendizagem se faz na vida, recolhendo retalhos, rostos, restos, rastros, mágoas cerzidas. Há muito de Paulo Freire na vida de cada um, mesmo que ninguém repare. Precisaríamos de muita reparação.

No dia em que Patativa do Assaré partiu eu escrevia, penso que talvez tenha escrito todos os dias...

Como a vida é literária! A cada dia, a cada manhã, em todos os momentos...Na viela, nos varais, na velas, nos vilarejos...A literatura pulsa esperando ser recolhida.

Prestem atenção nas oportunidades que recusei, que joguei fora. Elas dizem muito sobre a pessoa que eu sou. Oportunidades que eu desprezei, das quais consegui me livrar, facilidades, ilusões. Como me orgulho disso!


Que vida!



sábado, 10 de julho de 2010

Vice-Versa de julho de 2010




Meus queridos amigos!

O Vice-Versa está completando dois anos promovendo a aproximação dos nossos associados. Durante esse tempo postamos 96 entrevistas reunindo vários autores ou seja: escritores e ilustradores da nossa associação e alguns convidados.
Neste mês, a ilustradora Thais Linhares (RJ)entrevista a escritora Flávia Côrtes(RJ) e vice-versa.
Parabéns a todos aqueles que participaram deste projeto! Obrigada!

Um abraço,
Regina Sormani





Thais Linhares



Flávia Côrtes perguntou à Thais:

1- Quando foi que você soube que seria ilustradora? Como tudo isso começou? Seu talento é inato ou é fruto de muito estudo e dedicação?

Sempre desenhei pra me expressar, e estudar foi por puro gosto. Desenho em qualquer canto "livre", e se estiver sem um caderno e um lápis no bolso eu me sinto desamparada. Talvez o talento tenha mais a ver com a facilidade pra comunicação visual. E o gosto, e oportunidade, leva a refinar o traço sem que isso seja um esforço, mas sobretudo um prazer.

O estudo nessa área envolve pesquisa visual (muito de história, culturas), treino com modelo vivo (e desenho ao ar livre), um tanto de psicologia das cores e símbolos, conhecimento de técnicas de representação, pintura e impressão – este sempre tendo de ser atualizado, em virtude das novas tecnologias.

A troca com outros colegas é outro grande aprendizado e incentivo. E hoje em dia é possível se sentir lado-a-lado com um artista de Dublin ou Tókio, como acontece no DeviantArt, ou Flickr... Essa possibilidade de conhecer os artistas do mundo todo (pelo menos os que têm acesso ao mundo digital) que a Internet nos presenteou, é fantástica. O ilustrador brasileiro tem crescido muito, tanto em qualidade quanto em consciência profissional, por conta desta troca de idéias.

2- Você também escreve. E muito bem. Quando sentiu essa necessidade?

Obrigada. É que tanto o desenho, quanto o texto vem de meu gosto pelas histórias. "Somente a história salva", ela reconecta emoção e realidade. A expressão é essencial a todo ser humano, seja através de arte própria ou fruída. Sempre gostei de escrever, mas ainda não dominava a técnica (e ainda estou a caminho disto). Parecido como ocorre com o desenho, é a maturidade que vai lhe fornecendo o meio e estilo próprios. Então, comecei de forma híbrida, primeiro escrevendo quadrinhos (onde se tem recursos muito interessantes, inclusive de ritmo de leitura visual na decupagem página a página), e depois com texto puro. No momento quero retornar a narrativa mais visual - culpa de meu ingresso recente no mundo dos roteiros de cinema e TV.

Sinto saudades dos quadrinhos, mas confesso que é uma forma tão complexa, que exige tanto estudo de composição, pesquisa... que também acho a mais cansativa de trabalhar. Acaba ficando só no campo das ideias.


3-Você se considera uma escritora que também ilustra ou uma ilustradora que também escreve? Ou isso não existe, as duas coisas podem se integrar perfeitamente?

Eita... difícil de responder. Como a maior parte do que produzi editorialmente é ilustração, coloco ela em primeiro lugar. Foi com ela que comprei minha casa e hoje pago o colégio de meus filhos. Não tenho outras formas de sustento que se comparem. A exceção são os roteiros que tenho desenvolvido pra TV. Mas o que ganho com eles ainda é bem menos do que com a ilustração editorial.

Porém, meus trabalhos mais queridos são os que escrevi e ilustrei - assim pude pensar de forma integrada. Neste ponto quero melhorar essa relação, usando texto a serviço da imagem e imagem a serviço do texto - sem redundâncias ou arestas. Se conseguir isso, então, as duas coisas irão de fato se integrar perfeitamente".

O estudo com a narrativa visual do cinema tem me ajudado tremendamente neste objetivo. Hoje mesmo, sentada na beira da Lagoa, me surpreendi escrevendo uma história já promovendo essa integração, onde ela se apresentava de maneira composta: parte visual e parte textual, sem que uma refletisse a outra. Funcionando como um corpo só. Foi gostoso perceber que isso começa a fluir naturalmente.
Quando vemos um livro bem ilustrado, é porque o texto e a imagem se complementam de forma harmônica.

4-Bons ventos me sopraram novidades vindo por aí. Conta pra gente...

Oras, tem o livro d"A Fada que acreditava em meninas", o seu livro, Flávia! Tem também um projeto com a escritora Gisele Endrigo, de contos de fadas, lindos e uma penca de textos só esperando a "massa crescer no forno", mas com esses vou com cuidado para não "solar". Nesses dois livros eu retorno com força total à artes com aquarelas, bem coloridas, num estilo próximo ao que usei a mais de uma década atrás, n"O Livro das Virtudes para Crianças" de Ana Maria Machado (ed. Nova Fronteira). Só que desta vez tenho comigo todo um estudo que irá dar maior densidade à arte: aquarela botânica, arte medieval... É, ilustrar é nunca para de investir em estudo. E por isso é que é tão gostoso.

Tenho feito coisas legais em cine-animação, entre roteiros, cenários e projetos. O curta que cenografei na Multirio , "O Saci" , da série "Juro que vi" acaba de ganhar um importante prêmio. Pintam convites diversos, mas pretendo não perder o foco em literatura, que é a minha maior paixão.

Alguns projetos editoriais, para jovens, também se preparam pra pular de meu bolso. Ainda bem que tenho esse super poder de clonagem que me permite fazer muitas coisas ao mesmo tempo (e dois filhos muito compreensivos com sua mãe workaholic).




Flávia Côrtes



Thais perguntou à Flávia:


1- Flávia, conta pra nós o que faz você querer escrever, e contar histórias!

Escrevo por dois grandes motivos. Primeiro para me expressar, para dividir com outras pessoas minhas ideias, impressões e reflexões. E segundo por necessidade. Adoro imaginar histórias e situações e elas vão crescendo dentro de mim, sem que eu possa evitá-las e até, muitas vezes, controlá-las. Já houve vezes em que ignoro uma história e ela não me deixa em paz, até que eu a escreva.

Mas claro que não é só isso. Uma história não cai do céu e é imprescindível todo um trabalho de elaboração do processo da escrita, das características de cada personagem, do ponto de vista narrativo e do desenvolvimento do texto.

Há uma fala do Oscar Wilde que resume bem isso: “Hoje trabalhei exaustivamente no texto, fiquei a manhã inteira para colocar uma vírgula, e a tarde inteira para tirá-la”.

Escrever, portanto, não é fácil, embora seja um processo muito prazeroso. E uma história precisa de muito mais do que isso para ser considerada pronta. Preciso me afastar do texto e deixá-lo um pouco de lado, por tempo indeterminado, e só retornar a ele quando já me sinto capaz de me distanciar de uma outra forma, a emocional. E aí sim, trabalhar exaustivamente na construção daquela narrativa. Cada palavra, cada vírgula, me tomam às vezes um dia inteiro. E até mais.


2- Quais suas principais influências e fontes de inspiração?

Sempre li muito, e desde muito cedo. Aprendi a ler antes de completar 5 anos e não parei mais. Na minha casa nunca houve distinção entre livros infantis e adultos e ninguém nunca me disse que ‘tal livro não era para mim’. Então eu lia de tudo, mas é claro que alguns autores me marcaram mais do que outros, como Monteiro Lobato, Ruth Rocha, Machado de Assis... Falo dos primeiros livros que li, porque acredito ter certas características destas leituras em minha escrita até hoje, como a irreverência, o questionamento, a desconstrução...

Minha maior inspiração são minhas filhas, de 9 e 13 anos, mas na verdade muitas coisas são capazes de me inspirar, uma paisagem que me chama atenção, pessoas (conhecidas ou não) que observo, uma conversa que ouço, um livro que leio, um filme que assisto, enfim, uma boa ideia pode surgir de qualquer lugar. E quando a história começa a crescer e a se definir dentro de mim, sinto que é chegada a hora de colocá-la no papel. Ou no computador.


3- Qual a história que você sonha um dia escrever, e porque ainda não fez?

Acho que a gente sempre traz uma grande história dentro de nós e tudo o que escrevemos é parte desse todo de alguma maneira. Sempre penso que meu melhor livro é o que estou escrevendo naquele momento, mas não é raro estar trabalhando em um texto e outro começar a surgir.

Tento ao máximo deixá-lo para o momento mais oportuno, mas nem sempre isso é possível. Algumas histórias crescem tanto que é preciso parar com a que eu já estava fazendo para deixar aquela outra fluir. Geralmente escrevo mais de um livro ao mesmo tempo e muitos projetos ainda estão por terminar.

Então, não sei se eu realmente sonho em escrever uma única e determinada história. Porque são tantas... Mas se é pra dizer um sonho, seria bom conseguir criar uma história onde os leitores mergulhassem intensamente, onde pudessem viver cada aventura que meus personagens vivessem e que fosse algo único e intenso. Isso sim, seria incrível.


4- O que faz uma escritora ser uma boa escritora?

Olha, essa é difícil. Ainda tenho muito chão pela frente. Mas posso responder como pesquisadora.

Muito se discute nos bancos acadêmicos sobre o que é e o que não é literário. Na minha opinião, a Literatura convida o leitor à reflexão e o leva a um mundo inteiramente novo, nem que seja por um mero detalhe, um ponto de vista. Uma história fechada demais, com todos os caminhos já traçados, as reflexões já prontas, dando margem à apenas uma interpretação, uma única verdade, não é Literatura. É notícia.

Sou formada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em Português e Literaturas, e me especializei em Literatura Infantil e Juvenil. Leio muito, procuro estar sempre atualizada com o que se produz por aí e me esforço muito para melhorar. Escrevo desde criança e acho que tenho alguma facilidade para criar e desenvolver histórias, mas isso não basta. A teoria é imprescindível a todo escritor.

Escrever bem é, portanto, ser capaz de criar uma história onde os leitores possam morar, como já dizia Lobato: “Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. (...) como morei no Robinson [Crusoé]’.

Bom, eu ainda não cheguei lá, mas o divertido mesmo é seguir tentando...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

QUINTAS - 19




Marciano Vasques
  

 A EXCLUSÃO DO PROFESSOR
 
 
O certificado de validade das idéias coletivas. Isso eu não tenho. Idéias próprias podem ser contestadas. A identificação é a do leitor. Eis uma idéia antiga, ainda em voga em muitas cabeças “pedagógicas”. O aluno é reflexo do professor. Sempre. Uma idéia antiga e incompatível, mas não ultrapassada. De qualquer forma pode ser considerada uma idéia coletiva. Muita gente acostumada a não pensar muito antes de falar afirma isso. O aluno é sempre reflexo do professor. O sempre não cabe aí. O aluno às vezes é reflexo do professor. Às vezes. Na filiação o mesmo pode ser dito. Filho de peixe às vezes peixinho é.
O professor, herói anônimo, acostumou-se a ser vítima de idéias preconceituosas ou descabidas.

É costume se dizer que o aluno bagunceiro é reflexo do professor. Essa afirmação está no inconsciente coletivo dos que medram em anseios ditatoriais. Defesa velada do tradicionalismo. Em bocas que em eventos da Educação costumam falar de construtivismo, citar Paulo Freire, Rubem Alves, e assim é.

O professor pode ser um ser poético, estar em estado de poesia, e os alunos continuam a bagunçar na aula. O professor “deixa tudo?”
Ele não consegue trabalhar, não consegue levar em frente o seu projeto de uma educação poética, por causa das circunstâncias. Seus sonhos tolhidos, arrancados, ele trucidado, como a cigarra da fábula, ou como Orfeu, e às vezes em plena sala de aula. E ainda leva a culpa. Até quanto suportará a postura de ser o culpado de tudo? Trucidado pelo desgoverno da sociedade atual, pela realidade brutal que estende seus tentáculos para dentro da sala de aula. Ele vive intensamente o desmonte da harmonia cultural...via televisão- e não apenas. As crianças vítimas do horário nobre são as que estão na sala de aula, diante de um professor, que por mais que possa ter um coração de giz poético, está indefeso e acuado, sem amparo, sem estrutura, e isso é assim em plena cidade educadora.
O que se chama de inclusão pode às vezes ser exclusão.

Manter alunos com problemas gravíssimos de aprendizado e até problemas mentais numa sala de aula de quarenta ou mais crianças ou adolescentes agitados e desorientados, impossibilitando o professor de agir educativamente, uma ação educativa verdadeira. Isso é inclusão?

Alunos na quarta serie que não sabem ler, que não conhecem as letras do alfabeto..., a incompreensão do ciclo, isso é inclusão? Esperar que o professor da quarta série reprove o aluno, pois na quarta ele será reprovado, isso é inclusão?

E o pobre professor nem sempre tem autonomia, por causa da necessidade de estatísticas, pois se ele não rende votos, estatísticas rendem. E elas contestam o direito do professor ser coerente e justo com o educando.
Se tudo isso é inclusão do aluno, com certeza é exclusão do professor, que certamente em algumas regiões do país já se sente excluído faz tempo.

Professor sempre é culpado pelo fracasso escolar. Já se ouviu muito isso. Não se deve tirar um milímetro sequer de culpa do profissional sem consciência educadora, mas ele é a minoria. Sendo assim, se o professor continuar com essa suposta humildade acabará virando minhoca.

A visibilidade eleitoral, a divulgação de feitos extraordinários, os gastos com construções, os tais gastos com educação, que, entre outras coisas, raramente passa pelo holerite do professor. Eis uma situação entristecedora.

Seria válido e interessante se ao educador fossem oferecidas as condições de trabalho (concretas, objetivas); mesmo que ele faça cursos, isso não é o suficiente. Ele é o profissional que não pode ficar apenas no plano da teoria.

Um vaso etrusco não modifica a natureza do excremento. Assim se diz. Uma ação enérgica e eficiente, verdadeiramente saudável, que produziria um resultado imediato e eficaz, tirando o professor de um sufoco extenuante, seria a redução da quantidade de alunos na sala de aula. As salas assim lotadas representam uma contradição com os discursos progressistas, que acabam reduzidos em poeira da retórica.

Se a lotação entretanto fosse uniforme, no mínimo o trabalho do professor seria gratificante, pois haveria uma situação decente do ponto de vista pedagógico, se me faço entender. Quero dizer que: se as classes fossem lotadas, mas todos os alunos pudessem acompanhar o desenvolvimento dos estudos, o professor conseguiria um resultado plenamente satisfatório. Mas...

Existem várias classes dentro de uma única, e a sala transforma-se numa espécie de depósito, sendo que o professor, equilibrista, precisa se desdobrar para conseguir dar um mínimo de sentido ao seu ideal.

Se isso é inclusão do aluno, com certeza é exclusão do professor.


terça-feira, 6 de julho de 2010

Canto & Encanto da Poesia- julho de 2010


Meus caros,

No Canto & Encanto de julho, estou postando uma poesia do meu livro Rebenta Pipoca, publicado pela Pioneira, cujos direitos retornaram à autora.

Beijos,
Regina Sormani



Ramalhete

Lindo brinco de princesa
Quem lhe deu tanta beleza?
E você, rainha rosa,
Violeta, flor bonita,
É de muitos favorita!
Altivo cravo, garboso,
Tem o cheiro mais cheiroso...
Diga, criança sabida,
Qual é sua flor preferida?

sexta-feira, 2 de julho de 2010

QUINTAS - 18

Marciano Vasques
  

O ESCRITOR E A LAGARTA


    Admirava uma lagarta comendo os verdes, quando fui perguntado sobre qual o mais importante filme do final do século. Respondi: “BUENA VISTA SOCIAL CLUB”.
  Filme de Wim Wenders, com a participação de lendários músicos de Cuba, entre os quais Rubén González, Compay Segundo, Ibrahim Ferrer e Omara Portuondo.
Não é bem um filme, é um documentário comovente.
Tocante do inicio ao fim, precisa ser assistido mais de uma vez por   militantes, sectários, amantes da arte. Ajuda a refletir. A mensagem precisa ser captada. Está no filme, mas precisa ser sentida.
Vejo um esportista do futebol conseguindo mais um patrocínio, que vai, entre outras coisas, engordar muito a sua renda. São agora vários patrocinadores, várias empresas. É muito dinheiro, não apenas para o moço. Deslumbrante ver as grandes empresas investindo no esporte, patrocinando um esportista, um ídolo.

Isso me fez pensar numa situação onírica, melhor dizendo, utópica, melhor ainda, bizarra: o escritor Fulano de tal conseguiu mais um patrocinador, breve estará lançando o seu novo livro. É o quinto patrocínio que o autor consegue.Também o poeta Sicrano de tal conseguiu novo patrocinador e estará participando de um congresso de literatura no exterior, no qual estará representando o Brasil. E ainda, o autor teatral Beltrano de tal conseguiu um novo patrocinador. Está preparando a montagem de seu novo texto, que será encenado em várias capitais do país.
Por enquanto ficaremos felizes vendo as grandes empresas patrocinarem apenas a distração do povo.

  Tempo atrás um jovem seqüestrou a esposa. Com uma faca na garganta dela, sete horas permaneceu. Exigiu a imprensa para expor a sua dor. Não suportava o sofrimento, ser traído arrebentava o seu coração, a indiferença da mulher o aniquilou por dentro, a sua possibilidade de ser feliz foi amputada com a zombaria que a esposa lhe impôs. A sua possível centelha de razão foi esmagada, esfarelada pelo desprezo do ser amado.Um homem pobre, infeliz, sem leitura.
A faca no pescoço foi a forma de mostrar o seu amor. Era só o que queria, mostrar o amor.Tragédia urbana, da periferia, daria um filme, uma peça de teatro, um romance, ou uma canção, como fez Gilberto Gil com “Domingo No Parque”. Gil é como Caetano, estrela imaculada que belas coisas faz.
Ponho-me a pensar. O que é um bom leitor? Penso que é aquele que tem em sua alma abundância de tolerância. Essa seria a matéria prima do bom leitor, tolerância. Em excesso.
Talvez ele seja o sujeito que aprendeu a dominar as gigantescas feras internas, com tolerância.Talvez se ponha a escavar o texto. Fazer com o texto o que brutalmente fizeram com a Serra Pelada.
E o que seria um bom escritor?
Penso que uma virtude do bom escritor é ter atenção para com a riqueza do coloquial.
Se ele despreza a riqueza do coloquial, falhou.

Como deve construir o seu texto?

Como uma lagarta.
O escritor tem parentesco com a lagarta, pois deve construir o seu texto como um casulo, que significa casa.
Assim como o seu texto deve ter um bom alicerce e também fortes e seguras colunas, deverá ser comparado ao casulo, que é construído em círculos, com os fios expelidos das entranhas.
O texto deve ser construído com a fineza do movimento circular do fio (fio que revela o caminho do labirinto) e o leitor, o grande escavador, terá diante de si a bela borboleta, a borboleta de vida eterna, que romperá o casulo, vitoriosa na sua metamorfose, após o período de intensa tolerância, a tolerância que é o brinde do leitor, a sua cortesia.
Sinestesia, o bom escritor valorizará as imagens sinestésicas da palavra, e a palavra dirá frio e dirá calor e ela, a palavra sinestésica do escritor contaminará a vida com luz.Com a sua palavra o escritor continuará o seu dizer. O seu dizer é poético, sinestésico.
O escritor erra, como todo ser humano, só os animais não erram, não têm o privilegio de errar.
E o erro é construtor, desde que acompanhado do pulo do gato.
Por isso a leveza, a sutileza e o silêncio são características essenciais do ser humano que busca o dom de ser felino. Se não for assim, se não tiver o pulo do gato, o erro não é construtor, não vale a pena.

O erro só vale a pena se for construtor, se for edificante. Se não edifica, melhor não existir. Quem desconhece o pulo do gato, melhor então ser como os outros animais, que não erram.
 Melhor seria o aprendizado sem erros, mas haveria de ser  uma quimera, uma fantasia.O que seria de um ser humano que nunca tivesse cometido um engano, e chegasse no alto da sua existência glorioso por nunca ter errado. Como imaginar uma criatura assim?
Quanto ao escritor, por sua condição de altamente produtivo e pela importância que tem nas sociedades humanas (se atualmente isso não é relevante, é porque as sociedades não são mentalmente saudáveis) adquiriu o direito saboroso do erro, pode errar quantas vezes for necessário, pois errando vai edificando e também fortalecendo o diálogo com o bom leitor.

O parentesco do escritor com a lagarta. Eis algo curioso. A lagarta comendo os verdes na sua preparação para o período de casulo pode ser comparada ao escritor se alimentando insaciavelmente com a vida, o seu alimento é a vida, e assim, depois, ele estará construindo o seu casulo, e a sua literatura terá lindas asas.

domingo, 27 de junho de 2010

Um livro do qual gostei muito

Queridos aeilijianos,

Nossa associada Rosana Rios comenta o livro de Caio Riter: "As Luas de Vindor".
Agradeço a participação.

Boa leitura a todos!

Um grande abraço,
Regina Sormani



As Luas de Vindor
Caio Riter
São Paulo: Ed. Biruta, 2010

A princesa Olívia não sabe que sua vida irá mudar. Seu pai, o Rei, está agonizante. E sua morte acontecerá bem na época em que as três luas de Vindor entrarão em alinhamento, o que poderá propiciar a fuga das terríveis Criaturas atrás do Espelho, que sofrem o castigo do banimento há décadas.
E há traidores no reino: a princesa saberá disso, mas não saberá em quem confiar. Orientada pelo Sábio, ela será a única pessoa capaz de se desincumbir de uma missão terrível e impedir a maligna Bizarra e seus aliados de causarem a ruína completa de tudo que seu pai construiu.
Com medo, mas com determinação, Olívia terá de abandonar tudo – o palácio, o Sábio que a aconselha, o amor pelo amigo de infância, e transpor as barreiras do Espelho. A jornada a levará a um mundo perigoso em busca de certa Chave; encontrará aliados entre os seres da floresta e será implacavelmente perseguida. Terá forças para aguentar a dor e as provações, além de descobrir quem tramou a morte de seu pai e a destruição de sua terra?
Caio Riter compõe com sua prosa concisa e poética esta novela fantástica, utilizando arquétipos ancestrais em novas combinações. É com um tremendo prazer que experimentamos a riqueza da linguagem do autor e mergulhamos na busca de Olívia pelo salvamento de seu povo, que vai levá-la ao descobrimento de si mesma, de suas fraquezas e forças, e – mesmo à custa de tremendas desilusões – a uma compreensão maior de seus próprios sentimentos .
Está de parabéns a editora Biruta por abrir espaço ao fantástico em seu catálogo, um gênero que possibilita aos escritores o exercício daquele maravilhoso “E se?...”
E se tudo fosse diferente?... E se existirem outros mundos, outras dimensões, outras formas de magia e perigos tenebrosos?... E se esses mundos paralelos nos mostrarem formas encantadas de abordar nossos próprios conflitos e dificuldades?
Parabéns também ao autor, o talentoso e premiado Caio Riter, do Rio Grande do Sul, por nos trazer nesta história cheia de significados ocultos a deliciosa jornada de uma heroína que falará fundo ao coração de cada leitor.
Como diz a quarta capa do livro: Seguir lendo é aceitar o convite de Olívia. Eu já aceitei. E você, tem coragem?


Comentário de Rosana Rios

sexta-feira, 25 de junho de 2010

PÉ DE MEIA LITERÁRIO 10

PÉ DE MEIA LITERÁRIO (10)

Aqui e ali, as fundações, espalhadas por todo o país, com uma ligeira concentração na capital paulista, contribuem para a formação de novos leitores, desenvolvendo neles o gosto pela leitura bem como a melhoria das habilidades/capacidades de leitura, como é o caso do programa FURA BOLO, da Fundação Cargill, criado em 1999. O programa abrange cerca de dois mil educadores de 137 escolas, de 18 cidades espalhadas em oito estados.

Do programa, conheço a Denise Cantarelli, que é gerente da equipe que toca o trabalho, e a Kátia Karam Gonzalez, consultora pedagógica. Conheço mais de perto e há mais tempo a Kátia, desde a época em que trabalhávamos no ensino municipal paulistano em projetos variados de formação de leitores e escritores.

O trabalho proposto pela Fundação Cargill, assessorado pela Kátia, é muito interessante. Começa lá onde deveriam começar todos os trabalhos de educação: formação dos educadores. É formando educadores, que gostam de ler, que certamente o resultado aparecerá: alunos leitores. Depois de uma formação inicial, o trabalho continua com a abordagem de temas variados e atividades dinâmicas que favoreçam a reflexão, sempre na perspectiva de colocar o livro na mão do leitor.

Temas como “diversidade de gêneros, textos com imagem e sem imagens, contação de histórias, abordagem das capas dos livros, leitura diversificada e atividades lúdicas a partir dos textos lidos” fazem parte do cotidiano das crianças e jovens leitores envolvidos no programa. O programa Fura Bolo é mais amplo do que este meu registro breve e avança por outras áreas, como o resgate da cultura local e tradicional.

Além do que escrevi anteriormente, a fundação também publica um jornal, trimestralmente, com matérias curtas, mas bastante interessantes, que contribuem para a formação do nosso pé de meio literário. No último número, abril-maio-junho/2010, traz, por exemplo, um depoimento do sempre atuante professor e escritor Douglas Tufano e uma entrevista com a Denize B.S.Carvalho, psicóloga e livreira, uma das sócias e mentoras da deliciosa Casa de Livros, que já foi matéria dessa coluna. E traz também, mais uma vez, a coluna Cantinho da Leitura em que a Kátia faz resenhas de alguns livros de nossa rica literatura infantil e juvenil.

Bem...programas como esse Fura Bolo e atuação como a da Kátia são ações que, certamente, fazem muito pela leitura, pela literatura, pela formação definitiva de educadores que gostem de ler e possam ensinar esse gosto e essa condição aos nossos futuros leitores do presente. Ações e atuações como essas são definitivas na construção do nosso pé de meia literário.

Sampa, junho de 2010

Edson Gabriel Garcia

(Escritor e educador)