quinta-feira, 11 de novembro de 2010

QUINTAS - 34

A IMAGINAÇÃO POVOA O MUNDO

O mundo é povoado pelos seres da imaginação. Muitos nasceram ao redor de fogueiras, outros têm origem caseira; a maiêutica familiar.
A mãe é responsável pelo imenso acervo da imaginação.
Para proteger seus pimpolhos e para que as crianças se tornassem obedientes, elas criaram seres fantásticos que evitaram que seus filhos corressem perigos pelas ruas, terrenos baldios e matos avulsos.
O bicho papão, que recebe diversos nomes de acordo com a região, sempre assustou as criancinhas. A Cuca, na cantiga doce e suave de ninar, é o velho que põe crianças num saco e as come. Assusta. Também é a cuca um jacaré com cabeleira, uma bruxa. Cuidado com a Cuca!
Crianças desapareciam lá em Alagoas, e se espalhou por várias regiões a disseminação do medo do papa-figo.
Mas não são apenas os seres , também as superstições educadoras representam a incrível pedagogia materna que sem querer tanto enriquece a mente da criança.
Chinelo virado atrai morte na família, e pior, pode ser a mãe. Passar por debaixo da escada nem pensar (E pode realmente ser perigoso).
Nem todas as superstições foram inventadas pelas mulheres de casa. A coruja piando no telhado anunciando a morte de alguém da família provavelmente terá sido inventada por algum homem assustado que um dia relacionou a coincidência do seu canto com a morte de algum parente.
Quase todos os seres e as superstições de origem caseira surgiram para educar ou para disciplinar, para proteger, para salvar as criança de um mundo terrível, habitado por criaturas que devoram, que comem os pequenos. E elas estão lá fora, vagando noite adentro.
Algumas lendas urbanas talvez tenham essa função, talvez apenas assustem, como a loira do banheiro, lenda nascida no bojo da escola.
Temos outro mundo dentro do mundo, um mundo povoado e enriquecido pelos habitantes fantásticos.

MARCIANO VASQUES

O autor e sua obra

Machado de Assis



Queridos leitores,

Estou inaugurando a página: O autor e sua obra, homenageando o escritor brasileiro Machado de Assis. (1839/1908 RJ) Joaquim Maria Machado de Assis, de origem humilde, é com certeza um dos grandes nomes da literatura brasileira. Diretamente ligado à fundação da Academia Brasileira de Letras, ocupou a cadeira de número 23. Casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais. Em sua evolução literária, existem duas fases: a primeira, de poesias românticas e dos romances, tais como: A mão e a luva, Helena, Iaiá Garcia, Contos Fluminenses, Crisálidas (coletânea poética). Histórias da meia-noite, Quase ministro (comédia). A segunda fase, marcada pela amargura e desencanto, produziu: Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó, Memorial de Aires. Também publicou contos: Papéis avulsos, Histórias sem data, Relíquias da casa velha.
São obras de publicação póstumas: Missa do galo, O espelho, O alienista, verdadeiras obras-primas da nossa literatura. Machado deixou, ainda, várias peças teatrais reunidas no volume Teatro.
A ilustração de Machado, acima, foi realizada para a revista ENTRELIVROS da editora Duetto, em 2006, pelo Marchi, em estilo cubista. A técnica utilizada foi acrílico sobre cartão preparado com gesso. Tem sido muito requisitada para referências e homenagens a esse grande autor brasileiro.
Forte abraço,
Regina Sormani

sábado, 6 de novembro de 2010

Censura à Monteiro Lobato


Meus amigos,

Estou repassando, para que todos tomem conhecimento das discussões em torno do veto do Conselho Nacional de Educação ao livro AS CAÇADAS DE PEDRINHO, obra de Monteiro Lobato. Segue manifestação de consagrados autores brasileiros a respeito dessa tentativa de censura. O retrato de Lobato, óleo sobre cartão, foi pintado pelo Marchi para a revista do Círculo do Livro.

Um abraço,
Regina Sormani

LOBATO, LEITURA E CENSURA

Os abaixo-assinados, escritores brasileiros que, como
Monteiro Lobato, têm suas obras destinadas às crianças
brasileiras, vêm, através deste documento, apresentar seu
desagrado e desacordo ao veto do Conselho Nacional de
Educação ao livro As Caçadas de Pedrinho, do nosso
grande autor. Suas criações têm formado, ao longo dos anos,
gerações e gerações dos melhores escritores deste país que,
a partir da leitura de suas obras, viram despertar sua vocação
e sentiram-se destinados, cada um a seu modo, a repetir seu
destino.
A maravilhosa obra de Monteiro Lobato faz parte do
patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos,
professores – brasileiros de todos os credos e raças. Nenhum
de nós, nem os mais vividos, têm conhecimento de que os
livros de Lobato nos tenham tornado pessoas desagregadas,
intolerantes ou racistas. Pelo contrário: com ele aprendemos
a amar imensamente esse país e a alimentar esperança em
seu futuro. Ela inaugura, nos albores do século passado,
nossa confiança nos destinos do Brasil e é um dos pilares
das nossas melhores conquistas culturais e sociais.

Ana Maria Machado
Bartolomeu Campos de Queirós
Lygia Bojunga
Ruth Rocha
Pedro Bandeira
Ziraldo

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

QUINTAS - 33

O ESPÍRITO DA RÃ
O menino que dormia com a canção de Caetano lê A Dialética do Esclarecimento , de Adorno e Horkheimer. O tempo, de alma fugaz, é o velho senhor. Meninos crescem. Fiquei olhando para este e me pus a pensar que não são iguais. Constatei sobressaltado que determinados meninos ao crescerem, sem ao menos se dar conta colecionam medos, temores, sem nunca avaliarem a própria inutilidade do medo, da insegurança, ou mais ainda, o efeito devastador, a ação paralisante desses sentimentos sobre a vida. Sem querer eu estava pensando no próprio tempo.
No dia que geou sobre as parreiras do sul, também pensava no tempo e pela primeira vez compreendia a minha vocação de rã, não “A Rã Que Queria Ser Uma Rã Autêntica”, mas “A Rã Que Está No Fundo do Poço”.
A compreensão alargava sintomaticamente o meu olhar, que se derramava sobre os telhados, a fuligem, os dormentes, a poeira, o giz, a chuva, o verde cheiro da grama, e neste derramamento se revelou o tempo.
Quando, em qual momento, terá surgido o embrião da vocação de rã no fundo do poço? Como terá se erguido tal coisa? Como foi paulatinamente construída a idéia confusa de destino, com a incapacidade de administrar a própria mente? Levá-la para um porto, um seguro cais? Compreender finalmente que tudo se resolve inicialmente nela, no seu absoluto espaço, e só então, diante desta compreensão, poder ver com infinita transparência, que é necessário varrer a mente para que ela fique como um céu varrido, assim azul, pincelado de branco.
Quando terá a minha alma encontrado as condições para viver na estreiteza? No encolhimento? Prisioneira de temores imarcescíveis? O que terá de fato contribuído acirradamente para que eu soterrasse nas entranhas do meu espírito o sufoco das margens, o medo, a incerteza, as angústias, a idéia supersticiosa de que às vezes não é possível se encontrar a saída? A idéia de que, pelo fato de estarmos vendo apenas uma fração do céu, somos distanciados da sua imensidão?
Em quais condições e a partir de quais gestos começou a brotar em mim a separação entre a mente fértil e uma ação eficaz para a resolução de problemas e pesadelos?
Que contribuição terá vindo da minha infância no sentido de semente ou fertilizante para o desenvolvimento de sensações e sentimentos de impotência ou nebulosidade visual diante da visão da generosidade fluente do universo?
Que detalhes, que pormenores, que acontecimentos do cotidiano sedimentaram em mim a sensação de imobilidade que às vezes me assalta o coração, a idéia extraordinária de que as coisas negativas surjam sem que tenham originalmente sido projetadas em nossa mente?
Sim, meninos crescem, e alguns acumulam em seu crescimento as seqüelas de um olhar severo, de uma voz dizendo coisas temerosas, de uma afirmação supersticiosa, e formam uma carapaça, uma casca dura, intransponível, aparentemente indestrutível, com a qual se refugiam longe do enfrentamento, se regozijam no reino do acomodamento.
Mas o tempo, mesmo com a fugacidade da sua alma, nos revela que a manhã pode ser transparente como o seu próprio orvalho.
Nos revela também que o espírito da rã pode ser alado.

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Marciano Vasques


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

PÁGINA DO ILUSTRADOR 10 - NAOMY KURODA

PÁGINA DO ILUSTRADOR 10

Nesta edição recebemos a participação de Naomy Kuroda.

Meu nome é Naomy Kuroda, sou ilustradora e tenho ilustrado para livros de literatura infantil e juvenil, paradidáticos e livros didáticos e técnicos.



Muitas vezes me perguntam o que gosto mais, ilustrar histórias de Literatura ou para livros técnicos ou didáticos.


Na verdade nunca pensei muito sobre isso. Quando um editor me telefona para uma proposta não penso sobre isso, a minha sensação é de alguém que recebe uma linda notícia de um bebê que vai chegar.


Não me importo muito se será menino ou menina ou melhor se será livro de literatura ou didático. Amo-os igualmente.


De qualquer modo o que agita meu coração é o desafio de transformar em imagens através da minha cabeça, emoção e mãos os textos escritos por uma outra pessoa.


Um exercício muito gostoso e interessante e depois de pronto é muito gratificante!


É também muito especial quando recebo comentários de autores das histórias que ilustro contando-me como foi estranho e ao mesmo tempo especial quando o autor encontra com o seu texto representado em imagens.



Gerar um livro é como gerar um filho!



Visite-me no Blog : www.naomykuroda.blogspot.com (onde escrevo meus sentimentos)


e www.ilustradoranaomykuroda.blogspot.com (portfolio)



Um grande abraço!

Naomy Kuroda



Para participar da página do ilustrador:
contato@danilomarques.com.br

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Rebenta pipoca







Meus amigos,

Esta é a poesia que dá o título ao livro Rebenta Pipoca, composto por 13 poemas.
As ilustrações do Marchi foram feitas em aquarela. O panelão cheio de pipocas também ilustra a capa do livro.

Um beijo,
Regina


Rebenta pipoca,
Maria sororoca.
Saltando bem louca
Pra dentro da boca.
Rebenta Pipoca,
Branquinha e amarela.
Pula que pula,
No fundo da panela.
Quem resiste ao cheirinho dela?


(E. Pioneira, Ilustrações de Marchi)
© Regina Sormani- todos os direitos reservados

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

QUINTAS - 32

SÃO PAULO DE TODOS OS DESTINOS
 
Mereces um brinde, campeã. Difícil andar nas tuas calçadas, quase não há mais espaços. É a economia informal.

Nunca se sabe ao certo quantos discos um cantor vendeu, pois a indústria não contabiliza a venda em camelôs. Os sulcos nos rostos dos que fazem a tua história são as marcas dos teus caminhos de carvão, diesel e néon.
O Anhangabaú das tuas lavadeiras de outrora está lindo. As águas das tuas chuvas transbordam e as águas de março são os tons do Tom que partiu.
Adoniran seria a palavra da tua saudade, quando os demônios cantavam na tua garoa. Mas, como a chuva renova a vida, a garoa se foi. E veio a poluição, e os teus poetas em silêncio. Alguns projetam sobre o concreto o laser azul da poesia que salpicas na insensatez da tua correria. Tua Light virou shopping, teu Municipal é lindo, tuas ferrovias, e vias teu carnaval deixando os salões...
Hoje os jovens das tuas galerias partem para o Rio. O Festival chamado Rock in Rio foi a atração do teu primeiro janeiro do século.
A periferia festeja noivados e batizados. Nos varais, o colorido do teu povo pobre e nas ruas a alegria se dissolve na poeira. Nas favelas os templos surgem e a fé se alastra em rezas e súplicas. Moços e velhos choram seus mortos e buscam esperanças nas nuvens, enquanto teus internautas procuram amigos virtuais.
Neste janeiro não vi o teu índio Chiquinho dançando com as castanholas no calçadão da Piratininga, mas numa livraria folheei Mário de Andrade. São Paulo de tantos poetas, onde estás nas tardes que se fecham diante da Tv?
Gosto de passear em ti quando é sábado de manhã, descobrir pouco a pouco um detalhe que não havia reparado, um restaurante, um sebo, uma ladeira, um edifício...
Feliz aniversário, querida. Teus paralelepípedos têm a alma de cronista; tua catedral, teus namorados na Paulista, teus universitários, tua violência assustadora...
Queria ser assim tão baiano que só quando cruza a Ipiranga com a São João e Santo Antonio e São Pedro e todos os santos ausentes nas tuas raras fogueiras, nas tuas juninas que se refugiam e sobrevivem nas quermesses...
Eu te amo, mesmo que não tenhas a calma de uma Pindamonhangaba. São, São Paulo de Tom Zé, Parabéns!
Você é o mundo inteiro. Basta se andar na tua Liberdade, na tua Bexiga, na tua São Miguel, pra se encontrar os teus japoneses, os teus italianos e os teus nordestinos. E saber que em Sampa, em Sampália, em São Paulo, se tecem todos os destinos.

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MARCIANO VASQUES