segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O autor e sua obra

Prezados leitores,

Hoje, 15 de novembro, a página "O autor e sua obra" do blog paulista coloca no ar a participação do escritor Marciano Vasques, falando sobre Lima Barreto.
Agradeço muito e um forte abraço,
Regina Sormani







LIMA BARRETO

Hoje, 15 de novembro, feriado nacional no Brasil. Dia de Lima Barreto. Deveria ser assim, afinal, quem mais na imprensa e na literatura quis e clamou por uma República autêntica?
Isso mesmo. O maior dos mulatos bem quis proclamar a República, mas não a República da burguesia, a República da Belle Époque, porém a República do seu povo, do povo mulato do Rio de Janeiro, do povo pobre, da lavadeira, do operário. Lima Barreto, a voz solitária na imprensa, com suas crônicas de liberdade, a primeira voz a defender a mulher nas páginas dos periódicos, e a gritar contra os assassinos de mulher.
O escritor, conhecido como o "mulato dos mulatos", com sua "alma de bandido tímido", foi um exemplo notável de escritor a serviço da humanidade.
Humanista, queria que a República verdadeira fosse proclamada, por isso denunciava a falsa República, e escrevia para ser lido, mas ser lido pelo seu povo, pelo povo que subiu ao morro. Escrevia propositalmente numa linguagem nada estilizada, nada elitizada. Menosprezava os escritores que escreviam de forma requintada para serem lidos pelos seus pares. Acreditava que a República deveria começar na literatura, na escrita, na forma como se lida com o idioma, e como se faz literatura.
Ironicamente nascido num 13 de maio, e ironicamente morrendo em 1922, quando em São Paulo aconteceu a Semana da Arte Moderna, Lima, que antecipou o tempo, o grande cronista, escreveu livros memoráveis, como "Triste Fim de Policarpo Quaresma", na qual apresenta o seu personagem comovente, o nacionalista que sonha com um Brasil que não existe além do seu coração e da sua mente.
Afonso Henriques de Lima Barreto, nascido no ano da publicação de O Mulato, de Aluísio de Azevedo, escreveu também Clara dos Anjos, O Homem que sabia javanês, Bruzundangas, e uma fértil coleção de crônicas em jornais da época. Crônicas que abordavam os mais variados assuntos, como as superstições do povo do Brasil, as mulheres vítimas da violência brutal, a falsa república...
Lima Barreto nasceu num bairro, digamos, de classe média, e caminhou em direção ao subúrbio, para ficar mais próximo do povo que amava. Sua residência, bem longe da República burguesia, ao receber o nome de Vila Quilombo, deixava Copacabana enraivecida.
A juventude precisa ler Lima Barreto, todos deveriam ler o homem que queria inaugurar a República autêntica.

MARCIANO VASQUES

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Vice-Versa de Novembro de 2010



Meus caros,
Estou postando, com muita satisfação, o Vice-Versa de novembro entre o escritor Marciano Vasques, da regional SP e a editora independente Agueda Guijarro.
Grande abraço,
Regina Sormani



Marciano Vasques

Marciano responde.

1.Como foi entrar como autor no universo da Literatura Infantil?

Passei a minha infância criando mil capas de gibis e suas respectivas aventuras. Depois, na adolescência, escrevi todos os poemas, e sempre permiti que essa gigantesca felicidade, a da leitura, fizesse parte da minha vida. Então, depois de ter pintado quadros, e desenhado muito, e publicado Histórias em Quadrinhos em jornais, decidi num dia sábio que seria escritor, já que de ser poeta era inútil fugir, eu já estava docemente condenado para isso. Passei então a escrever poemas que outros poetas liam, e cada vez mais "intelectuais". Então aconteceu algo extraordinário em minha vida: comecei a dar aulas para crianças... E logo em seguida tornei-me Professor Orientador de Sala de Leitura... Foi ai que tive o meu primeiro contato profundo com a Literatura Infantil...

2. Conte-nos qual livro marcou sua infância e / ou adolescência.

Quando era bem mais menino li o livro do Monteiro Lobato com o rinoceronte na capa. Aquele mundo me fascinou, fiquei encantado, sem possibilidade de quebrar o encanto. Mas na infância li mesmo pra valer os gibis, os meus companheiros inseparáveis. Por onde eu andava, o "Espírito que Anda" me acompanhava, com toda a sua "mitologia". Na adolescência, li um livro de Jorge Amado que me impressionou. Jubiabá. A forma como ele conduzia a narrativa mesclando a sua poesia natural com a exacerbação erótica me cativou. A cada página eu me enluarava nas suas narrativas. Estava diante de um escritor que trazia a maresia quando falava do mar.

3. Já leu algum livro e ao terminá-lo, pensou: "Puxa, eu gostaria de ter escrito este livro!" Qual e por quê?

Crônica de Uma morte anunciada. Li de um só gole, gole de Coca - Cola, enfim... Mas li sem parar, pois não dava para parar. O texto me lembrando o tempo todo de A Morte e A Morte de Quincas Berro D'Água. A narrativa assim cinematográfica, naquele estilo vertiginoso. Realmente, eis um livro que eu gostaria de ter escrito. De qualquer forma, tantos e tantos eu gostaria também de ter escrito, inclusive e principalmente na Literatura Infantil, que temos coisas tão lindas e preciosas.

4. Como é o seu processo de criação? Tem um cantinho especial ou um horário... quando você sente que de uma ideia está nascendo um livro?

Horário eu tenho sim, para passar a limpo, passar para a tela, quando não escrevo diretamente, como atualmente ocorre. Mas o processo de criação? Escrevo no ônibus, no metrô, sempre foi assim. As ideias são serelepes, são bem sapequinhas, e não avisam quando vão chegar. Então, não me dão tempo de criar uma rotina. Mas sou disciplinado. Das 4 horas da manhã até às 6 horas, o computador é meu, mesmo porque todos estão dormindo.




Agueda Guijarro

Agueda responde

1. Como editora, qual o sentimento que sente ao aprovar um livro, e saber que a partir desse gesto, dessa decisão, uma nova obra poderá encantar e influenciar mentes e corações, e contribuir para a andança das palavras no mundo escrito?

É muito satisfatório, mas a responsabilidade tem a mesma proporção. Quando um texto é aprovado, já imaginamos o caminho que queremos que ele percorra, assim como um filho. Mesmo sabendo que depois de pronto, já não temos mais controle sobre ele. Saber de alguma adoção ou prêmio recebido, essa é a maior contribuição. Além dos pedidos de reimpressões...


2. Sempre está presente aos eventos de lançamentos dos autores, e comparece para dar o seu abraço, manifestar o seu carinho. Considera esse relacionamento com o autor algo importante no universo literário?

Sim, esse contato pessoal é muito importante ainda mais nesses tempos tecnológicos. Produzimos um livro inteiro sem nunca ver o autor ou o ilustrador. Só tendo contato por e-mails e telefone. Sempre que possível gosto de fazer pelo menos uma reunião pessoalmente. É bom conversar olho no olho! Passa confiança, além de estreitar o vínculo profissional.


3. Cada um tem a sua história. Qual a sua? Qual é a sua trajetória? Os momentos marcantes que delinearam o seu caminho no mundo das letras?

Entrei na área editorial por acaso. Quase fiz Direito! Por influência de uma tia, prestei vestibular para Comunicação Social. Passei, desisti do Direito e me formei em Produção Editorial. Depois de alguns estágios, fui trabalhar com edição de livros médicos. Quando saí da Editora Lemos entrei na Salesiana para trabalhar com a edição dos livros religiosos. Depois, passei para literatura infantil e juvenil, onde fiquei por 5 anos. Foram muitos os momentos marcantes. Cada livro produzido traz uma “história de bastidor” que me fascina. Mas, a maior satisfação é receber o retorno do autor comentando sobre o livro pronto. E depois as vendas! Além dos prêmios.


4. O governo compra livros, isso é louvável. Porém, o que mais deveria ser feito em nível de governo para aproximar os jovens da leitura?

Imagino que também é preciso preparar melhor os professores para trabalhar com esses livros. Além da escolha de textos que dialoguem com os jovens dentro de sua realidade. Claro que os clássicos são importantes, mas sem um preparo em relação ao texto que será trabalhado, é difícil. A linguagem distancia o jovem desses textos, mas com um professor bem preparado, o aluno só irá ganhar.

QUINTAS - 34

A IMAGINAÇÃO POVOA O MUNDO

O mundo é povoado pelos seres da imaginação. Muitos nasceram ao redor de fogueiras, outros têm origem caseira; a maiêutica familiar.
A mãe é responsável pelo imenso acervo da imaginação.
Para proteger seus pimpolhos e para que as crianças se tornassem obedientes, elas criaram seres fantásticos que evitaram que seus filhos corressem perigos pelas ruas, terrenos baldios e matos avulsos.
O bicho papão, que recebe diversos nomes de acordo com a região, sempre assustou as criancinhas. A Cuca, na cantiga doce e suave de ninar, é o velho que põe crianças num saco e as come. Assusta. Também é a cuca um jacaré com cabeleira, uma bruxa. Cuidado com a Cuca!
Crianças desapareciam lá em Alagoas, e se espalhou por várias regiões a disseminação do medo do papa-figo.
Mas não são apenas os seres , também as superstições educadoras representam a incrível pedagogia materna que sem querer tanto enriquece a mente da criança.
Chinelo virado atrai morte na família, e pior, pode ser a mãe. Passar por debaixo da escada nem pensar (E pode realmente ser perigoso).
Nem todas as superstições foram inventadas pelas mulheres de casa. A coruja piando no telhado anunciando a morte de alguém da família provavelmente terá sido inventada por algum homem assustado que um dia relacionou a coincidência do seu canto com a morte de algum parente.
Quase todos os seres e as superstições de origem caseira surgiram para educar ou para disciplinar, para proteger, para salvar as criança de um mundo terrível, habitado por criaturas que devoram, que comem os pequenos. E elas estão lá fora, vagando noite adentro.
Algumas lendas urbanas talvez tenham essa função, talvez apenas assustem, como a loira do banheiro, lenda nascida no bojo da escola.
Temos outro mundo dentro do mundo, um mundo povoado e enriquecido pelos habitantes fantásticos.

MARCIANO VASQUES

O autor e sua obra

Machado de Assis



Queridos leitores,

Estou inaugurando a página: O autor e sua obra, homenageando o escritor brasileiro Machado de Assis. (1839/1908 RJ) Joaquim Maria Machado de Assis, de origem humilde, é com certeza um dos grandes nomes da literatura brasileira. Diretamente ligado à fundação da Academia Brasileira de Letras, ocupou a cadeira de número 23. Casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais. Em sua evolução literária, existem duas fases: a primeira, de poesias românticas e dos romances, tais como: A mão e a luva, Helena, Iaiá Garcia, Contos Fluminenses, Crisálidas (coletânea poética). Histórias da meia-noite, Quase ministro (comédia). A segunda fase, marcada pela amargura e desencanto, produziu: Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó, Memorial de Aires. Também publicou contos: Papéis avulsos, Histórias sem data, Relíquias da casa velha.
São obras de publicação póstumas: Missa do galo, O espelho, O alienista, verdadeiras obras-primas da nossa literatura. Machado deixou, ainda, várias peças teatrais reunidas no volume Teatro.
A ilustração de Machado, acima, foi realizada para a revista ENTRELIVROS da editora Duetto, em 2006, pelo Marchi, em estilo cubista. A técnica utilizada foi acrílico sobre cartão preparado com gesso. Tem sido muito requisitada para referências e homenagens a esse grande autor brasileiro.
Forte abraço,
Regina Sormani

sábado, 6 de novembro de 2010

Censura à Monteiro Lobato


Meus amigos,

Estou repassando, para que todos tomem conhecimento das discussões em torno do veto do Conselho Nacional de Educação ao livro AS CAÇADAS DE PEDRINHO, obra de Monteiro Lobato. Segue manifestação de consagrados autores brasileiros a respeito dessa tentativa de censura. O retrato de Lobato, óleo sobre cartão, foi pintado pelo Marchi para a revista do Círculo do Livro.

Um abraço,
Regina Sormani

LOBATO, LEITURA E CENSURA

Os abaixo-assinados, escritores brasileiros que, como
Monteiro Lobato, têm suas obras destinadas às crianças
brasileiras, vêm, através deste documento, apresentar seu
desagrado e desacordo ao veto do Conselho Nacional de
Educação ao livro As Caçadas de Pedrinho, do nosso
grande autor. Suas criações têm formado, ao longo dos anos,
gerações e gerações dos melhores escritores deste país que,
a partir da leitura de suas obras, viram despertar sua vocação
e sentiram-se destinados, cada um a seu modo, a repetir seu
destino.
A maravilhosa obra de Monteiro Lobato faz parte do
patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos,
professores – brasileiros de todos os credos e raças. Nenhum
de nós, nem os mais vividos, têm conhecimento de que os
livros de Lobato nos tenham tornado pessoas desagregadas,
intolerantes ou racistas. Pelo contrário: com ele aprendemos
a amar imensamente esse país e a alimentar esperança em
seu futuro. Ela inaugura, nos albores do século passado,
nossa confiança nos destinos do Brasil e é um dos pilares
das nossas melhores conquistas culturais e sociais.

Ana Maria Machado
Bartolomeu Campos de Queirós
Lygia Bojunga
Ruth Rocha
Pedro Bandeira
Ziraldo

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

QUINTAS - 33

O ESPÍRITO DA RÃ
O menino que dormia com a canção de Caetano lê A Dialética do Esclarecimento , de Adorno e Horkheimer. O tempo, de alma fugaz, é o velho senhor. Meninos crescem. Fiquei olhando para este e me pus a pensar que não são iguais. Constatei sobressaltado que determinados meninos ao crescerem, sem ao menos se dar conta colecionam medos, temores, sem nunca avaliarem a própria inutilidade do medo, da insegurança, ou mais ainda, o efeito devastador, a ação paralisante desses sentimentos sobre a vida. Sem querer eu estava pensando no próprio tempo.
No dia que geou sobre as parreiras do sul, também pensava no tempo e pela primeira vez compreendia a minha vocação de rã, não “A Rã Que Queria Ser Uma Rã Autêntica”, mas “A Rã Que Está No Fundo do Poço”.
A compreensão alargava sintomaticamente o meu olhar, que se derramava sobre os telhados, a fuligem, os dormentes, a poeira, o giz, a chuva, o verde cheiro da grama, e neste derramamento se revelou o tempo.
Quando, em qual momento, terá surgido o embrião da vocação de rã no fundo do poço? Como terá se erguido tal coisa? Como foi paulatinamente construída a idéia confusa de destino, com a incapacidade de administrar a própria mente? Levá-la para um porto, um seguro cais? Compreender finalmente que tudo se resolve inicialmente nela, no seu absoluto espaço, e só então, diante desta compreensão, poder ver com infinita transparência, que é necessário varrer a mente para que ela fique como um céu varrido, assim azul, pincelado de branco.
Quando terá a minha alma encontrado as condições para viver na estreiteza? No encolhimento? Prisioneira de temores imarcescíveis? O que terá de fato contribuído acirradamente para que eu soterrasse nas entranhas do meu espírito o sufoco das margens, o medo, a incerteza, as angústias, a idéia supersticiosa de que às vezes não é possível se encontrar a saída? A idéia de que, pelo fato de estarmos vendo apenas uma fração do céu, somos distanciados da sua imensidão?
Em quais condições e a partir de quais gestos começou a brotar em mim a separação entre a mente fértil e uma ação eficaz para a resolução de problemas e pesadelos?
Que contribuição terá vindo da minha infância no sentido de semente ou fertilizante para o desenvolvimento de sensações e sentimentos de impotência ou nebulosidade visual diante da visão da generosidade fluente do universo?
Que detalhes, que pormenores, que acontecimentos do cotidiano sedimentaram em mim a sensação de imobilidade que às vezes me assalta o coração, a idéia extraordinária de que as coisas negativas surjam sem que tenham originalmente sido projetadas em nossa mente?
Sim, meninos crescem, e alguns acumulam em seu crescimento as seqüelas de um olhar severo, de uma voz dizendo coisas temerosas, de uma afirmação supersticiosa, e formam uma carapaça, uma casca dura, intransponível, aparentemente indestrutível, com a qual se refugiam longe do enfrentamento, se regozijam no reino do acomodamento.
Mas o tempo, mesmo com a fugacidade da sua alma, nos revela que a manhã pode ser transparente como o seu próprio orvalho.
Nos revela também que o espírito da rã pode ser alado.

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Marciano Vasques


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

PÁGINA DO ILUSTRADOR 10 - NAOMY KURODA

PÁGINA DO ILUSTRADOR 10

Nesta edição recebemos a participação de Naomy Kuroda.

Meu nome é Naomy Kuroda, sou ilustradora e tenho ilustrado para livros de literatura infantil e juvenil, paradidáticos e livros didáticos e técnicos.



Muitas vezes me perguntam o que gosto mais, ilustrar histórias de Literatura ou para livros técnicos ou didáticos.


Na verdade nunca pensei muito sobre isso. Quando um editor me telefona para uma proposta não penso sobre isso, a minha sensação é de alguém que recebe uma linda notícia de um bebê que vai chegar.


Não me importo muito se será menino ou menina ou melhor se será livro de literatura ou didático. Amo-os igualmente.


De qualquer modo o que agita meu coração é o desafio de transformar em imagens através da minha cabeça, emoção e mãos os textos escritos por uma outra pessoa.


Um exercício muito gostoso e interessante e depois de pronto é muito gratificante!


É também muito especial quando recebo comentários de autores das histórias que ilustro contando-me como foi estranho e ao mesmo tempo especial quando o autor encontra com o seu texto representado em imagens.



Gerar um livro é como gerar um filho!



Visite-me no Blog : www.naomykuroda.blogspot.com (onde escrevo meus sentimentos)


e www.ilustradoranaomykuroda.blogspot.com (portfolio)



Um grande abraço!

Naomy Kuroda



Para participar da página do ilustrador:
contato@danilomarques.com.br