sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

QUINTAS - 42

RAPUNZEL FOI AO CINEMA



Ontem faltou energia elétrica, justamente na hora em que eu me preparava para escrever "Quintas". O que trouxe de volta a saudade do meu risinho quando alguém dissertava sobre as vantagens do mundo virtual quando eu ainda insistia que preferia o papel. A luz voltou na madrugada. E só agora, cá estou para a "Quintas".
Fui ao cinema. Autor que sou de Literatura Infantil, não perco um lançamento. Acompanho de perto e dentro do cinema tudo o que anda acontecendo. E assisti ao "Enrolados". Já antecipo que discordo do nome do filme. Merecia outro título em Português: talvez "A Princesa Perdida".
Tenho acompanhado o cinema para crianças, e mantive a minha posição de que na última década três foram os filmes que realmente a criança merecia. "Spírit, o Corcel Indomável"; "A Noiva Cadáver" e "A viagem de Chihiro" de Hayao Miyazaki. Gosto de decorar nomes de cineastas. Considero-me um dos homens mais felizes do planeta, e devo isso a eles também.
O cinema infantil andou errando, e feio. Quando a DreamWorks, a fábrica de sonhos de George Lucas e Steven Spielberg lançou no mercado das ilusões o Shrek, teve um propósito que o público desconheceu, e isso pouco importa: desbancar o império Disney. De que forma? Desmoralizando os contos de fadas com um filme para adultos, que as crianças, claro, adoraram. O simpático e nada politicamente correto ogro e seu burrinho arrancaram gargalhadas no cinema. Depois perdeu a graça.
Mas com a chegada do ogro, a Disney precisava reagir. A reação até demorou. Antes deu a louca no cinema, com bobagens como "Deu a Louca Na Chapeuzinho" e "Deu a Louca na Cinderela". E vieram produções sem graça como Carros, essa da Disney&Pixar.
Pois bem, mas a Disney começou a investir novamente nas princesas. E surgiu "A Princesa e o Sapo". Lindeza que só. Ao mesmo tempo, Tim Burton nos trouxe "Alice no País das Maravilhas". Não posso me esquecer de "Encantada", da Disney, claro.
Com as suas princesas, Disney manteve e mantém a magia e o encantamento. É o tal "Mundo Maravilhoso". Vamos aprendendo com o cinema, que o "Era uma Vez" é para sempre.
O curioso é que a Disney alterou sim os contos, mas não desmoraliza jamais, apenas inova, torna contemporâneo, atualiza, para o bem ou para o mal, o encantamento.
Não contarei nada da história da moderna Rapunzel (Enrolados), pois sei que todos os leitores, e principalmente os escritores de Literatura Infantil irão querer assistir.
Mas é pura magia, e puro encantamento. Disney, o altamente revolucionário (na época em que surgiu) deixou um império que está aí para mostrar que o mundo maravilhoso está num planeta que as crianças adoram, o planeta tela grande.
Alterou? Modificou? Sim, a origem, a "mitologia" da Rapunzel agora é outra. Na verdade, o cinema está conseguindo realizar, aos trancos e barrancos, aquilo que nenhum escritor de Literatura Infantil conseguiu. Atualizar, sem destruir o encanto e a magia, os contos de fadas e os contos maravilhosos. Mas, calma!, por enquanto: "A Princesa e o Sapo" e agora esta linda e emocionante Rapunzel.
Novos elementos mágicos, e uma nova Rapunzel surge diante da imaginação das crianças. Já é no meu entender, uma referência. Fará parte do imaginário. Difícil crer que só a outra Rapunzel sobreviverá, haverá um entrelaçamento na imaginação da criança.
Se a Rapunzel primeira é filha de um casal de camponeses, se ela é retirada de sua mãe ao completar 13 anos, se numa madrugada da gravidez o pai tenta roubar rabanetes de um quintal (esse é o nome de Rapunzel em Alemão), ora, agora a Rapunzel é outra. Não tem a origem pobre, e está bem atualizada, de acordo com o pensamento , os trejeitos e a linguagem das meninas e dos meninos de hoje, sem vulgarizar.
Em 3D, a mais bonita cena (Não me recordo de ter visto algo tão encantador no cinema infantil antes) do filme, a cena das lanternas. É  de balançar corações e emocionar qualquer um.
Sim, fui ao cinema, para ver Rapunzel. E vi que a Rapunzel está diferente.
Está linda, encantadora e mágica.
Viva o cinema? Sim, viva!

MARCIANO VASQUES

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

PÁGINA DO ILUSTRADOR - 15 - MONIKA PAPESCU

PÁGINA DO ILUSTRADOR 15

Nesta edição apresentamos Monika Papescu

Monika nasceu em São Paulo numa família de artistas. Formou-se em Comunicação Visual e seguiu para Londres onde estudou Graphic Design e Multi Media pelo Westminster Institute e Ilustração pelo Chelsea College of Art. Voltou a São Paulo, formou-se em cenografia, figurino e indumentárias pelo CPT – SESC e Produção Gráfica no SENAC-SP.

Mora hoje com esposo e as filhas Rafaela e Nina em Santo Antônio da Patrulha - Rio Grande do Sul, num sitio com gata, éguas, ovelhas, carneiros, cabras, lagartos, tartarugas, codornas, galinhas e segundo suas palavras "nem sei mais quem".

Escreveu e ilustrou vários livros; outros mais ilustrou; fez ainda capas de revistas.

Desenvolve pequenas animações e faz bonecos para contar histórias.

Participa de feiras de livros, festivais de contadores e projetos de leitura no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Desenvolve projetos de incentivo à leitura em municípios do interior como o "Semear em Glorinha" em Glorinha - RS e "Arquipélago - de Atlantis e Açores" na APAE de Santo Antonio da Patrulha - RS.

Recebeu o prêmio de melhor figurino de teatro amador com o espetáculo “O Flato ou a Comédia da Vida Privada” 1999 e melhor animação pelo Prêmio Gaúcho de Arte Eletrônica 2008.




"Como diz o Papescão, meu pai, “o que é fácil não tem graça”. É por isso que sou uma eterna estudante e fuçadora de novidades seja de técnicas, materiais, equipamentos ou o que for.

Gosto de estar sempre renovando e surpreendendo a mim mesma. Assim como nunca percebemos nosso próprio sotaque, eu demorei a perceber meu estilo. Hoje fico muito feliz quando as pessoas reconhecem meu trabalho no meio de tantos outros.

Nas minhas ilustrações eu uso e abuso da cor, dos contrastes, das complementares, das texturas que fazem as imagens saltarem. Ilustração tem vida própria, resta a nós criá-las (sem pretensões divinas).

Eu trabalho com ilustração em várias linguagens e dimensões; ilustrações no papel, cenários, bonecos e um pouco de animação. E tem dado certo pois recebi o prêmio “artistas gaúchos 2009” de melhor animação e sou finalista no “prêmio artistas gaúchos” para melhor ilustrador.

Neste trabalho para os “áudio-livros” eu me preocupei com a textura pois o público destas obras são pessoas de baixa ou nenhuma visão. Apesar das capas dos CDs não terem textura, isso me serviu como ponto de partida para criar e a idéia é expor todo o processo de estudos e desenvolvimento nos encontros da narradora com o público alvo em centros e institutos especializados.

A primeira ilustração foi feita em linogravura. A imagem de um rosto andrógeno e o mundo inserido na história sai ou entra pelos ouvidos que são os olhos dessas pessoas."




O passo seguinte foi apurar o entendimento da imagem, mudei então para o papel cortado.




E por fim apliquei as cores.






Para cada projeto eu gosto de conhecer o autor, conversar, saber das preferências e, antes de aceitar o trabalho, penso muito para saber se eu me encaixo no perfil do livro e do autor. Aprendi que não posso aceitar um trabalho e passar pelo sufoco de desenvolver vários estudos, rascunhos, ilustrações e nunca agradar ao autor ou à editora pois no final todos sairão frustrados e um livro é para a vida toda.

Convido a todos para uma nem tão breve visita ao meu site, para conhecer meus outros trabalhos e peço que façam seus comentários, pois é bom saber o que as pessoas da mesma área têm a dizer.

Tudo de bom.

Papescusss"


Bibliografia de Monika Papescu:

Escreveu:

  • “Acorda o Sol, Don Aderbal”, editora Autêntica, 2010

Escreveu e ilustrou:

  • “Peixinhos”, editora Formato 2008
  • “1, 2, 3 da Bicharada”, editora Studio Nobel, 2002
  • “A B C da Bicharada”, 2ª edição, editora Studio Nobel, 1999
  • “O rapto das Flores Cantantes”, editora Paulinas, 1997 (esgotado)
  • “O Crocodilo Gigante e a Mosca que não era dessa história”, o Estadinho, 1996 - SP
  • “À procura da Máscara”, editora Loyola, 1994

Ilustrou:

  • “as meninas da janela”, de Jonara Nifa, 2010
  • “Outras fábulas”, coleção do projeto Livro Livre, texto de Cristina Marques 2010
  • “Áudiolivros: a cultura da inclusão” narração de obras literárias por Letícia Schwartz (capas dos encartes dos cds) 2010
  • “jogos de inventar, cantar e dançar, texto de Viviane Juguero, ed. Livreto 2010

Capas dos cadernos do Cilégio Objetivo (2009):

  • “Minicontado”, texto de Ana Melo, 2009 (capa) 2009
  • “Viver e aprender português de 1º ao 5º ano” editora Saraiva, 2007 (didático)
  • “A Menina que descobriu a Noite”, editora Ícone, 2001: texto de Pámela Duncan
  • “A velhinha que mudou o tempo”, editora Paulinas, 1996: texto de Juciara Rodrigues
  • “Português Palavra e Arte”, editora Atual, 1996 (didático)
  • Capas de revistas “O Hebreu”e “Beit Chabad”, 1996 – SP
Para conhecer mais o trabalho de Monika Papescu acesse:

www.monikapapescu.com

Contatos:

E-mail:monika@monikapapescu.com

Telefone: 51-8222-5774


ILUSTRADOR

Gostaria de divulgar seu trabalho na página do ilustrador?

Mande mensagem para contato@danilomarques.com.br













domingo, 9 de janeiro de 2011


Caros associados!

O poema MAGIA ATLÂNTICA é de autoria de Fábia Terni e foi premiado no Concurso RAÍZES, de contos e poesias, em Genebra, 2008.

Um grande beijo,
Regina Sormani

MAGIA ATLÂNTICA



Verde o silêncio do labirinto silvestre.

Verde a amplitude da mata densa.



Disparam volumosos troncos,

exuberância selvagem

nas profundezas da floresta.



Floresce o mistério

da simetria verde-vermelha

da helicônia

em cada curva da trilha,

ao som do vento,

da umidade serpenteando

pela mata.



Move-se ao longe

o som das ondas,

rebentam nos paredões abruptos.

Turbilhões de espuma

galgam alturas deslumbrantes.



Bromélias cor de fogo,

liquens e orquídeas de real beleza

em simbiose com amendoeiras centenárias.

Tempo mágico!

A natureza abriga e ampara.



A natureza te observa

mas não julga,

te aceita como és,

te acolhe como vens,

e te oferece a sua presença.



Sentirás então a alegria

de quem não está mais só.

Pode ser apenas um instante,

a mata é tua amante.



No fim da trilha,

a Praia dos Sonhos.



FABIA ATLÂNTICA TERNI LEIPZIGER
01 de fevereiro de 2008

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

MURAL 15 - JANEIRO DE 2011

NÚMERO 15 - JANEIRO DE 2011

O Mural é uma agenda cultural postada todo início de mês,
porém, editada ao longo do mês conforme os eventos surgem.
A agenda das bibliotecas é renovada semanalmente.
Amigo associado de qualquer cidade do Estado de São Paulo, contribua...
aguardamos notícias dos eventos do interior.


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RODA DE LEITURA

ELÉIA LEU


Em edições quinzenais, os poetas Berimba de Jesus, Caco Pontes, Gabriel Kerhart, Gabriel Kolyniak, Pedro Tostes e Valter Vitor coordenam uma roda de leitura, oferecendo um cardápio de poemas, organizado em torno de temas que propiciam a interlocução entre diversas linguagens, escolas e modos de fazer e pensar poesia.
3as feiras, das 19h30 às 21h30

CURSO

Iniciação à Redação do Texto Poético

Com Gilson Rampazzo
O curso propõe o exercício de redação de poemas e possibilita, para isso, o domínio de algumas técnicas básicas da poesia. É um curso eminentemente prático e não há a intenção de formar escritores, ao contrário, pretende-se desmistificar a excepcionalidade da produção poética: o poema é um texto que se aprende como qualquer outro.
Inscrições a partir de 1º de outubro, pessoalmente ou pelo telefone 3082-5023
5as feiras às 19h30

Vamos Ler?!!!

Coordenação: Ângela Figueredo e Márcia Marur
Programa que divulga a importância e a prática da leitura junto à crianças e jovens.
2as feiras das 9h às 10h e das 14h às 15h


local: BIBLIOTECA ALCEU AMOROSO LIMA

Rua Henrique Schaumann, 777
Pinheiros 05413-021 São Paulo, SP
Tel. 11 3082-5023
Horário: 2ª a 6ª feira das 8h às 17h e sábado das 9h às 16h
Núcleo de Poesia: 2ª a 6ª feira das 8h às 19h e sábado das 9h às 16h
Coordenadora: Ana Teresa M. Toledo
bmalceualima@yahoo.com.br

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AGENDA DA LIVRARIA CULTURA

Clique aqui


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Gostaria de divulgar algo?
mande um e-mail para contato@danilomarques.com.br

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

QUINTAS- 41

ALADOS  ESCRITORES NO ESPÍRITO DA ÉPOCA

A ampliação do conceito de escritor é uma novidade contemporânea, e certamente afilhada da tecnologia.
Houve um tempo em que a ideia de ser escritor estava vinculada ao sujeito que fazia livros. Escritor era aquele que publicava, editava, lançava um livro. "Eu sou escritor, então tenho que lançar livros, produzir livros, escrever livros!"...
Alguns ainda pensam assim:  o escritor deve é lançar livros, escrever livros, cada vez mais. Sim, isso também, mas o conceito foi alargado, a semântica se expandiu.
Hoje o escritor é bem mais. De certa forma, sempre foi, porém todos os afazeres ficaram de certa forma ocultos. Escritores e poetisas foram jornalistas, escreveram crônicas em jornais e fortaleceram com o viés da literatura o matutino espírito do leitor. Além disso, como cidadão, todos os escritores tiveram vidas próprias, e foram políticos, uns mais, outros menos. Alguns até abraçaram a carreira política, no futuro vieram a se arrepender. Jorge Amado bem disse que a sua mais fraca fase de produção literária foi quando esteve envolvido com partido político, mas isso é outra história.
Ocorre que com o advento da tecnologia e a informática inaugurando uma nova era, que está gradualmente substituindo a era humanista, a enterrando de vez, o conceito de escritor expande-se de forma formidável.
O escritor que acreditar que a sua função, ou missão, será unicamente a de fazer livro, estará ultrapassado pela expressão da voz dos tempos.
Não que o livro deixará de ser importante, isso não. O livro continuará tendo a sua importância, seja para enfeitar algum móvel, seja para transformar uma pessoa. O que acontece é que o escritor hoje lida com as múltiplas linguagens da arte e da palavra. Ele tornou-se um ser de atuação, terrivelmente envolvido com o seu tempo e o seu dizer. Além de escrever, fazer livros, terá o seu blog, o seu site, promoverá a poesia e a arte, a palavra e os sonhos. Divulgará a literatura do seu contemporâneo, a literatura que quer-ser-lida, de seus iguais.  E assim, fará, pois já está sendo transformado numa múltipla oficina sem retorno.
Assim como desmoronou e não cabe mais uma torre de marfim, é possível dizer que escritor é o sujeito que milita na palavra, na escrita, que expõe o seu pensamento e o seu sonho literário em colunas, de jornais, de revistas, em sites e blogs...
Escritor é também um crítico literário, um divulgador da cultura. E o escritor que tiver o seu espaço na internet, por exemplo, para divulgar apenas a sua obra, para falar apenas de si, certamente terá fama passageira, o seu nome será efêmero. Viverá na ilusão de que o espírito da época ainda anseia pelo "Escritor", ou seja, aquele que é só ele. A transformação que alguns já se deram conta é que só sobreviverá aquele que cedeu à própria condição de ser alado, e voa sobre as cidades espalhando a sua verdade: a literatura tornou-se algo além de si, universalizou-se de vez, anuncia o novo tempo, onde o ídolo não cabe, o escritor só-para-si já se foi. Em seu lugar um novo se multiplica em doces teceres. Sem se perder.


MARCIANO VASQUES

domingo, 2 de janeiro de 2011

Canto&Encanto da Poesia


Meus queridos,

Simone Pedersen é a autora da poesia "Infância" que faz parte do livro Fragmentos e Estilhaços, publicado pela editora In House.
Parabéns, Simone e obrigada por participar.

Grande abraço em todos,
Regina Sormani

Infância

Ouvir a água escorrendo
Sentir o cheiro do ar molhado
Pescar sem chapéu
Sonhar sem telhado

Deixar a alma lavando
Soprar bolinhas de sabão
Andar sem guarda-chuva
Levar os sapatos na mão

Regar a chuva com lágrimas
Banhar-se vestida a rodar
Cansada de gargalhar

Olhar as nuvens no céu
Escalar o arco-íris
Voltar a ser feliz.


Simone Pedersen

QUINTAS - 41

OS QUE NUNCA SUBIRAM A SERRA


No roseiral da manhã vagava a rosa em minha mente quando o avô Pedro vagarosamente caminhava pelas ruas de Ouro Fino.
A visão de seus passos com as folhas caindo e atapetando as pedras foi uma das primeiras dádivas que os meus olhos receberam.
Na calma da rua os gansos partilhavam conosco o caminho.
Anos mais tarde, ao observar a lentidão das azaléias em seu crescimento recordei-me da sua silhueta num ocaso de formidáveis nódoas se desprendendo das folhagens que beiravam a rua. Tive a impressão de rever o cavalo abanando a cauda e o capim orvalhado estendido pelo campo onde ele a cismar contemplava as raízes da sua história.
Meu avô era um sábio. A sua conversa mascada de um requinte que enfeitava-me a aula por tanta simplicidade.
Tempos depois o reencontrei em Suzano. Quis perguntar sobre as conversas antigas com o meu pai. Ele deu-me uma alta gargalhada, ofereceu-a generosamente. Ofertou o seu riso largo para o ar de Suzano. Falou-me que um dia seria um pássaro.
Foi a última vez em que o vi.
Mês depois recebemos a carta que falava do vôo do nosso querido Pedro.
A avó ofereceu-me um dia uma fatia de pão com um excesso de manteiga que encheu meu coração de alegria. Jamais esqueci da sua mão trêmula, repleta de fibras, nervos e manchas, a me ofertar o pão. Traduzi aquele gesto como uma das formas que o amor encontra para se manifestar.
Quando ela ficou viúva fugiu para um sitio. O seu marido foi morto pela polícia do governo e foram atrás dela, que era acusada de comunista.
Quando a policia apareceu no sitio procurando por uma viúva encontraram-na com o avô Pedro que a apresentou como sua companheira. Eles foram deixados em paz. Os homens procuravam uma mulher sozinha.
Eles sempre viveram entre Santos, Ribeirão Pires, Ouro fino e Suzano. Jamais conseguiram subir a serra por completo. Lembro-me de ouvir dizer que eles moravam em Suzano e voltavam pra Santos, depois moravam em Cubatão e iam para Ribeirão Pires, depois estavam novamente em Santos. Comecei a compreender que na verdade eles nunca subiram a serra para valer.
Às vezes me punha a imaginar como seria o meu avô vivendo numa cidade com edifícios altos, trânsito veloz e barulhento, gente correndo nas calçadas, ar difícil de respirar. Todos iriam pedir para ele sair da frente e ele iria tossir sem parar.
Na porteira do Brás, na Praça Clóvis, no Parque Dom Pedro, na Avenida São João. Bem que eu quis algumas vezes que ele estivesse comigo, para entrarmos num cinema, para um churrasco grego, uma crush, para eu lhe apresentar a cidade. Porém sempre me lembrava de que ele era feito das folhas das matas que beiravam as suas andanças e da neblina das suas manhãs.
Quis também muitas vezes que a minha avó pudesse estar comigo diante de uma vitrine, entrando numa loja, experimentando um vestido novo. Até quis que ela se sentasse comigo nas escadarias do Teatro Municipal! E quando chegou o Metrô, se ela ainda estivesse viva eu a teria buscado para andar por baixo da cidade.


MARCIANO VASQUES