terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Autor e sua Obra

LYGIA BOJUNGA

Olá!
Quando fui convidada a escrever para O Autor e sua Obra, imediatamente me veio o nome de Lygia Bojunga. Pelo seu estilo peculiar de escrever, sua capacidade de provocar emoção nos leitores, seu jeito único de mostrar a realidade nua e crua, misturada à fantasia, a autora me cativou. Li toda a sua obra e presto atenção no mercado literário, ansiando por um livro novo.
Para você, leitor do blog da AEILIJ Paulista conhecer melhor, segue um pouco da vida e da obra dessa grande escritora. Divirta-se!

Lygia Bojunga nasceu em uma fazenda, na cidade de Pelotas, no dia 26 de agosto de 1932. Aos oito anos de idade foi para o Rio de Janeiro onde, em 1951, se tornou atriz numa companhia de teatro que viajava pelo interior do Brasil. A predominância do analfabetismo que presenciou nessas viagens levou-a a fundar uma escola para crianças pobres do interior que dirigiu durante cinco anos. Trabalhou durante muito tempo para o rádio e a televisão, antes de debutar como escritora de livros infantis em 1972.
Num continente que se tornou conhecido por seu realismo mágico e contos fantásticos, a literatura infantil brasileira caracteriza-se por uma acentuada
transgressão dos limites entre a fantasia e a realidade. Lygia Bojunga é uma escritora que perpetuou esta tradição e a tornou perfeita. Para ela, o cotidiano está repleto de magia: onde alfinetes e guarda-chuvas conversam tão naturalmente como os peões e as bolas; onde animais vivem vidas tão variadas e vulneráveis como as pessoas. Imperceptivelmente, o concreto da realidade transforma-se noutra coisa mais fácil de ultrapassar. A tristeza vive com Lygia Bojunga juntamente com a alegria. A morte não é tabu, a desilusão também não, pois, além da próxima esquina, espera a cura. Os textos de Bojunga baseiam-se fortemente na perspectiva da criança.
Ela observa o mundo através dos olhos brincalhões da criança. Aqui é tudo possível: os seus personagens podem fantasiar um cavalo no qual cavalgam a galope, ou desenhar uma porta numa parede, que atravessam no momento seguinte. As fantasias servem, geralmente, para ultrapassar experiências pessoais difíceis.
O realismo mágico e perspicácia psicológica reúnem-se a uma paixão pelo social e pela democracia. Mas, Lygia Bojunga nunca dá sermões, o sério é sempre equilibrado pela brincadeira e o humor.As obras de Ligia Bojunga foram traduzidas para várias línguas, entre as quais: francês, alemão, espanhol, norueguês, sueco, hebraico, italiano, búlgaro, checo e islandês. Recebeu vários prêmios, entre eles, o Prêmio Jabuti (1973), o prestigiado Prêmio Hans Christian Andersen (1982) e o Prêmio da Literatura Rattenfänger (1986).
Obras em português:
Os Colegas – Rio de Janeiro: José Olympio, 1972
Angélica – Ilustrações de Vilma Pasqualini. Rio de Janeiro: Livraria AGIR
Editora, l975
A Bolsa Amarela – Ilustrações de Marie Louise Nery. Rio de Janeiro: Livraria
AGIR Editora, 1976
A Casa da Madrinha – Ilustrações de Regina Yolanda. Rio de Janeiro: AGIR, 1978
Corda Bamba – Ilustrações de Regina Yolanda. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, l979
O Sofá Estampado – Ilustrações e diagramação de Elvira Vigna. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 1980
Tchau – São Paulo, SP: Livraria AGIR Editora, 1984
O Meu Amigo Pintor – Rio de Janeiro: José Olympio,
1987
Nós Três – 1987
O Pintor (teatro) – 1989
Nós Três (teatro) – 1989
Fazendo Ana Paz – Rio de Janeiro, RJ: AGIR, 1991
Paisagem – Rio de Janeiro, RJ: AGIR, 1992
Seis Vezes Lucas – Ilustração da capa, Roger Mello. Ilustrações do miolo, Regina Yolanda. RJ: AGIR, 1995
O Abraço – 1995
Feito à Mão – Rio de Janeiro: AGIR, 1996
A Cama – Rio de Janeiro: AGIR, 1999
O Rio e eu – Ilustrações, Roberto Magalhães. São Paulo, SP, Brasil: Salamandra, 1999
Retratos de Carolina – Rio de Janeiro: Editora Casa Lygia Bojunga Ltda., 2002

Conheça Algumas Capas



Eliana Martins

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Mensagem

Balões coloridos

Um jovem casal teve seu primeiro filho, muito doente, com reduzidas chances de sobreviver. Sabendo de seus dias contados, os dois, de licença do trabalho, dividiram as vinte e quatro horas do dia de forma que ambos ficassem com o bebê e eles - apenas eles - cuidassem do frágil recém-nascido. Com muita dificuldade para mamar, o anjinho precisava ser alimentado a cada hora do dia e da noite, com apenas alguns poucos mililitros do leite materno que a mãe produzia e cuidadosamente retirava e armazenava, num processo doloroso e demorado, pois o pequenino não tinha forças nem para mamar suas gotas de amor...
Em nenhum momento os pais reclamaram de cansaço. Em nenhum momento brigaram sobre quem teria que trocar a próxima fralda ou dar a próxima mamadeira. Nem discutiram quem se levantaria no meio da noite. Fez-me sentir uma péssima mãe... Fez-me lembrar de todos os momentos em que me sinto irritada com os tantos afazeres que a maternidade nos transfere, os familiares exigem e os amigos esperam.
A história do jovem casal mostrou-me que tudo na vida é passageiro e rapidamente desaparece, em largos passos, se nós não atentarmos a cada segundo e vivê-los intensamente. E que, no final da vida, não adiantará mais ter aprendido essa importante lição, pois o tempo passado é tempo vivido, ou tempo perdido. Não existe meio-termo. Não se vive mais ou menos. Não se arrepende mais ou menos. Ou estamos presentes, inteiros, naquele momento, ou nunca mais poderemos alcançá-lo. E as mães sabem disso melhor que ninguém. Acompanham cada minuto da vida de seus rebentos, choram com eles suas dores, riem com eles suas traquinagens. E cuidam, com todo amor e carinho, nos momentos de doença.
No dia do velório do pequenino menino, os pais não estavam desolados. Estavam tristes, mas tranquilos. Estavam conscientes de que haviam feito o melhor que lhes era possível. Haviam amado cada segundo, cada suspiro, cada lágrima e cada sorriso daquele frágil ser. E soltaram 99 balões coloridos, um para cada dia de vida do pequeno anjo, com quem tiveram o privilégio de conviver naqueles meses. Todos os presentes olharam para o céu, refletindo quanto um momento singelo pode representar se nós o agarrarmos com unhas e dentes.
E - como o passado - os balões ficaram inacessíveis, desaparecendo no céu azul, num piscar de olhos. Lindos, se foram e nunca mais foram vistos. Restou apenas a imagem de um inigualável entardecer, colorido como só a vida pode ser, e balões que representavam cada dia vivido no amor.

Simone Pedersen
http://www.simonealvespedersen.blogspot.com

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

QUINTAS — 45

 A LINHA



A solução é a suspensão do cotidiano, é você se ausentar, permanecer suspenso,  flutuante numa linha horizontal que vaga no ar, acima do nível do cotidiano, como estão com relação ao mar os planaltos.
Nessa fantástica linha estarão a morar a poesia e todas as formas de arte. E elas, certamente o levarão às coisas que o fizeram feliz da forma mais autêntica como isso pode ter ocorrido em sua efêmera e frágil vida.
Somos também o que vaga em nossa alma, e só nos resta como alternativa derradeira a suspensão do cotidiano cortante que nos maltrata, arrancando à forceps nossas pétalas e cores originais.
Sorrisos que nos marcaram profundamente foram aos tropeções sendo substituídos por formas bolorentas de olhares e risos que não atiçaram um fiapo que seja daquilo que mais prezávamos quando o coração cavalgava feliz de saci entre as folhagens e a poeira, na perdição de diapasões nos dias em que gorjear e tritrinar nos embelezava os ouvidos.
Abrir leques e rasgos numa velocidade de menino estonteante entre as folhas lisas de canaviais: só a lembrança já acalma o espírito e promete poesia.
A manutenção da linha horizontal suspensa no ar acima do nível do cotidiano é de natureza poética, e deve ser buscada no único lugar possível, fora da aspereza. Isto é: naturalmente em você, lá, onde nem os ciúmes penetram.


Marciano Vasques

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Vice-Versa de fevereiro de 2011



Meus caros,
O Vice-Versa de fevereiro de 2011 reúne Angela Leite de Castilho Souza da regional AEILIJ de Minas Gerais e Márcia Széliga da regional do Paraná.
Muito obrigada pela participação!
Beijos,
Regina Sormani




RESPOSTAS DE ANGELA LEITE


1) Você é uma artista de dois caminhos também. Como o transbordamento de seu universo de imagens e palavras encontra uma síntese tão precisa para dizer tudo?

Será porque eu conheço bem a autora do texto? Agora, a sério: em primeiro lugar, obrigada por esse “tão precisa”. Acredito que acontece um processo inconsciente, paralelamente ao trabalho racional e suado de criar textos e ilustrações. Ou seja, mais ou menos 40% de inspiração e o restante, transpiração. Isso me leva a pensar que a síntese a que você se refere acontece em parte sem o meu controle. Escrevo a história ou os poemas e, quando vou ilustrá-los, percebo as possibilidades subjacentes ao texto, justamente aquelas que não explorei ao elaborá-lo. Mas ainda aí, nessa etapa, imaginação e razão continuam se alternando no esforço de encontrar a correspondência entre as duas linguagens.

2) Como as palavras te encontram para que sejam bordadas e o que te dá mais prazer?

Quando se trata de ilustrar meus próprios textos, as palavras, como disse anteriormente, já “me encontraram” em alguma dimensão. Só que tento vê-las com um olhar de estranhamento, de descoberta. O processo é semelhante ao que uso para ilustrar texto alheio, só que, neste caso, tenho um cuidado ainda maior, para não apenas sublinhar com minhas imagens, mas também não contradizer, a essência do pensamento do escritor. Agora, quanto ao prazer, ambas as formas de criação me realizam, mas acho que me sinto mais feliz com as agulhas ou pincéis entre meus dedos do que quando eles estão sobre o teclado do computador, esperando que retorne alguma palavra fujona...

3) Suas imagens bordadas alguma vez inspiraram, num caminho inverso, as palavras?

Ainda não fiz essa experiência com meus próprios desenhos ou bordados, mas por duas vezes ilustrei com palavras as imagens de um outro autor, Walid Malek. Ele havia criado suas histórias visuais e me convidou a desenvolver os textos. Foi um grande desafio: eu não podia simplesmente fazer legendas para aquelas narrativas; e nem podia fugir ou me afastar demais do enredo original. E, ainda por cima, o tema desses livros era a espiritualidade. Mas tanto o artista quanto eu ficamos satisfeitos com o resultado dessa parceria - “E depois?”, publicado pela Editora Lê, e “De volta para a luz”, pela Dimensão -, porque a impressão final, segundo leitores, é a de que o texto escrito é que teria dado a partida ao visual. Isto é, a inversão não acarretou uma artificialidade ao produto final.

4) O que te alimenta mais a alma: escrever ou ilustrar?

Embora eu já tenha dado anteriormente uma pista das minhas preferências, aproveito para me explicar melhor. Muitas vezes, ao escrever, sofremos a angústia da folha em branco, das ideias fugidias e da eterna insatisfação com a forma. Daí a habitual analogia desse trabalho com o braçal. Mas há também aqueles maravilhosos momentos em que o texto parece fluir diretamente da ponta dos dedos, sem que o mental interfira tanto. Já o pintar e o bordar, ainda que precedidos do exercício igualmente difícil de definir espaços, imagens e materiais, tem um lado tão prazeroso que, como outras modalidades de arte, é até recomendado para fins terapêuticos. O que sei é que minha alma busca com uma fome permanente essas duas expressões e se estas me propiciam pôr no mundo filhos saudáveis, ela, a alma, só pode corujamente sentir-se realizada.






RESPOSTAS DE MÁRCIA SZÉLIGA


1)Uma imagem vale sempre por mil palavras?

Penso ser de mesmo peso e medida. Uma única palavra dita num momento exato pode nos atravessar, desferir um golpe, derrubar ou ser a chave que abre nosso coração, nossa alma, as portas do universo, assim como uma só imagem pode ser banal para uns, imprescindível para outros, agressiva ou, com outros olhos acolhedora, e guardar um segredo, uma grande história que as palavras não seriam suficientes para defini-la.
Agora, pode existir uma única palavra que vale por mil imagens.
Eu tenho a minha. Cada um deve ter a sua ou um dia há de encontrar...

2)Você teve uma formação toda voltada para as artes plásticas e esta tem sido sua área de trabalho preferencial. Como nasceu a escritora?

Na adolescência eu já gostava demais de escrever. As aulas de língua portuguesa e redação estavam entre as minhas preferências. Escrevia o que não era capaz de dizer, e assim descobri a metáfora e arepresentação daquilo que não haviam palavras para explicar. Mas precisava metaforizar mais ainda, então transferi essa forma de expressão ao desenho, acreditando que o desenho era capaz de falar sobre as entrelinhas numa expressão de corpo, de fisionomia, de atmosfera das cores e sombras. Verdade é que sempre busquei desenhos que fossem falantes por eles mesmos.
Mais tarde, essa escritora adormecida voltou. Primeiro numa brincadeira de quintal com as crianças, depois no compartilhamento de palavras com os especiais habitantes do universo literário. E descobri então que expressar através das letras desenhadas é também uma séria e feliz brincadeira maravilhosa.

3)Qual das duas atividades é mais prazerosa (ou menos sofrida...) para você?

As duas são prazerosas. A diferença é que escrever não tem compromisso de cumprir prazos apertados, quando estes existem (pelo menos ainda não experienciei isso a não ser em redação de vestibular, rsrsrs). Porém, esperar por um texto para ser escolhido pode durar um prazo indeterminado... ou o fundo de uma gaveta.
Por fim, se desenhar é se colocar em meditação, escrever é estar em oração.

4)Você acha que o ilustrador tem uma função além daquela que etimologicamente deu origem à profissão – iluminar um texto?

Bom saber que ilustração ilumina um texto, não? Mas sim, acredito que vai muito além disso. Se a ilustração é capaz de embelezar o livro, é também capaz de falar por si só das chaves que o texto traz, das portas que podem ser abertas além da imagem e da palavra. Dos caminhos que a percorrer dentro de si e diante da Vida ao encontrar identificação no casamento imagem/texto que não se encerra num começo-meio-fim de um livro. Mas também existem palavras que dão mais brilho às imagens, não? E não podemos esquecer do silêncio, tão precioso nas pausas quanto na ausência de imagem. No silêncio de imagem e palavra encontramos uma especial presença que não tem som ou forma que defina. Um vazio preenchido.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Um livro do qual gostei muito

Doutores da Alegria - O LIVRO DOS SEGUNDOS SOCORROS -


Quem já acompanhou de perto um filho, um sobrinho, enfim, uma criança doente hospitalizada, irá entender porque gostei muito deste livro.
De acordo com os Doutores da Alegria, "ficar doente não é nada engraçado, mas, mesmo nessa condição, crianças não deixam de ser crianças". Elas continuam querendo brincar, mesmo hospitalizadas. Então, o tema do livro é: reconhecendo a dificuldade daquele momento, colaborar para uma melhor qualidade de vida, durante a hospitalização.
Muito interessante e engraçado é o PEQUENO DICIONÁRIO DE SEGUNDOS SOCORROS, onde surgem palavras como:
Algordão - algodão para pacientes gordos
Bula - mulher do bule
Esparadrops - esparadrapos para chupar
Hosquintal - a parte dos fundos de um hospital
Pomagda - pomada especialmente desenvolvida numa farmácia de manipulação para uma moça chamada Magda.
Tem também o CALENDÁRIO DE ENFERMÉRIDES que marca dias especiais como: O dia da Língua, O dia do Arroto, O dia da Brincadeira, Dia do Papo Furado, Dia do No Fim dá Tudo Certo, etc, etc.
Creio que os pequeninos gostarão muito do: O QUE É, O QUE É?
Por que a dra Florinda não consegue dormir? Ora, porque ela pintou o quarto com cores berrantes!! Além de tudo isso, há nesse livro, jogos e muitas outras brincadeiras, para que as crianças hospitalizadas não percam a capacidade de se divertir durante o tratamento e período no qual aguardam a recuperação.
O texto final e coordenação editorial são do Marcelo Duarte e Wellington Oliveira, com ilustrações do Orlando, editora Panda. Boa leitura!

Um abraço a todos,

Regina Sormani

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

QUINTAS — 44

O COMPANHEIRO DO JUVÊNCIO

 
 
  ENTREVISTA

Adalberto Amaral, o Menino Juquinha, companheiro de "Juvêncio, O Justiceiro do Sertão", na Rádio Piratininga na década de 60, ainda trabalha em rádio, em Descalvado, interior de São Paulo. O encontro entre ele e o escritor Marciano Vasques resultou nesta entrevista.
 
MV – Conte-nos sobre aquela época.
AA - Estávamos nos anos 60. O mundo fervilhava em mudanças radicais de comportamento. No Brasil aproximava-se 1.964 e os jornais teciam as notícias de uma guinada para o comunismo através de simpatias do presidente Jânio Quadros, ao oferecer a mais alta comenda do Brasil - a medalha "Cruzeiro do Sul" - ao ministro de Cuba, Ernesto Che Guevara. O vice - presidente João Goulart também iniciava uma visita à China Comunista. Os grandes jornais de São Paulo estampavam as notícias – Diário da Noite, de Assis Chateaubriand, mais moderado, e o seu principal concorrente – o Jornal Última Hora. Os cafés no centro de São Paulo, perto da Panair do Brasil, estavam sempre repletos de gente ávida por noticias. A TFP – Tradição, Família e Propriedade - preparava a famosa passeata conhecida como  "A Marcha da Família pela Liberdade". A Televisão engatinhava e o grande sucesso à época era o rádio. Em São Paulo a Rádio Piratininga, na Rua 24 de Maio, comandava programas ao vivo, que eram retransmitidos por repetidoras e alcançavam quase todo o Brasil.
MV -  Fale um pouco da programação da Piratininga.
AA - Às 18 horas iniciava-se o programa sertanejo "Terra Sempre Terra", apresentado ao vivo.   Nele cantaram os caipiras que mais tarde viriam a ser conhecidos internacionalmente. Duplas como Alvarenga e Ranchinho, Tonico e Tinoco, Cascatinha e Inhana, Pedro Bento e Zé da Estrada, Palmeira e Biá, encantavam com suas vozes os entardeceres e inundavam o interior do Brasil através das ondas da Piratininga. Meia hora após entrava no ar, em forma de seriado, "Juvêncio, O Justiceiro do Sertão".
MV – Como era feito o Juvêncio?
AA - A trama era composta basicamente por oito rádio-atores que formavam o "Cast", dois contra regras e o operador de som – Machado Filho, carinhosamente chamado de "O equalizador de som". O Produtor era Reinaldo Santos, o autor da música "Casinha Pequenina", que foi a trilha sonora do filme do Mazzaropi, que teve o mesmo nome. Era ele quem escrevia os episódios. E a letra (pouco conhecida) da música de abertura era assim:
Adeus Morena /Eu já vou indo pro sertão/
 Se não voltar/ Deixo contigo o coração/
Sou justiceiro/ Não tenho medo de ninguém/
Enfrento tudo sozinho/ Só tenho medo do meu bem.
Após a abertura, começava o seriado com o vozerio (feito pelos atores ao mesmo tempo).
MV – - Pode nos relatar como eram as cenas?
AA  - Uma das  cenas era de vários bandoleiros comandados pelo bandido Cicatriz (vivido por Geraldo Jacote), que esperavam no mato, para emboscar um viajante que tinha sido chamado pelo padre da cidadezinha para conter a onda criminosa dos assaltantes. Longe do microfone, o contra - regra amassava entre as mãos um pedaço de papel celofane que soava como passos no meio do mato. Irritado com o barulho feito pelos passos dos comparsas o bandido Cicatriz diz:
  • (Cicatriz) –Silêncio cabras! Vamo pegar o forasteiro.
  • Ainda longe do microfone, o contra - regra agora bate com duas bandas de coco dentro de uma bacia de água - o que dá o som de um cavalo andando pelo leito do rio. Para passar a cena ao ouvinte, o ator Vicente Lia, que fazia o papel do Juvêncio:
  • (Juvêncio) -  Oaa Corisco! – Devagar. Vamo pelo rio que é pra não deixar pista pros bandoleiros.
  • Um acorde grave e curto e o sonoplasta colocam o relincho de um cavalo.
  • (Juvêncio) – Que foi Corisco? (novo relincho do cavalo e o contra regra desta vez faz movimentos repetidos e rápidos dentro da bacia de água).
  • A voz do bandido Cicatriz soa bem longe do Microfone.
  • (Cicatriz) – Agora cabras!  Atirem!
  • O sonoplasta coloca o som de vários tiros com o barulho de ricocheteio de balas. O som de relincho do cavalo dando a impressão de que o animal estava a cair na água.
  • Entra a trilha sonora e o locutor diz com a voz forte.
  • - O que acontecerá? Ouçam amanhã neste mesmo horário... Juvêncio, o Justiceiro do Sertão!     
  • Esta seqüência durava meia hora, e sempre ficava no ar uma situação de perigo que seria resolvida no capítulo seguinte. Com essa técnica prendia-se o ouvinte e o obrigava a acompanhar no dia seguinte o desfecho da cena.
MV – Fale um pouco mais dos recursos disponíveis.
AA - Naquela época não se tinham os recursos de som de hoje. Havia um disco de vinil, importado, que reproduzia alguns sons utilizados na novela: barulhos de tiros, relincho de cavalo, mas, a maioria dos sons era produzida no estúdio mesmo! Por exemplo: Barulho de passos no mato eram feitos com papel celofane, também utilizado para reproduzir o som de uma fogueira. O som de um trovão era produzido por meio de uma folha de zinco agitada violentamente. O som do tropel de vários cavalos era feito com as mãos batendo em compasso nas pernas.
Quem entrasse em um estúdio de gravação naquele tempo acharia tudo aquilo cômico, com tanta parafernália que os contra-regras inventavam para reproduzir os mais diversos sons para ilustrar a cena da novela radiofônica. Mas tudo era levado muito a sério, e tinha que dar tudo certo, pois as novelas eram transmitidas ao vivo.
MV – O que acontecia quando o programa ao vivo terminava?
AA - Terminada a novela o grupo ia até um café que tinha na Avenida São João, bem em frente ao Largo Paissandu, o "Ponto Chic", conhecido como "O Bar dos Artistas" porque todas as terças feiras, reuniam-se ali muitos empresários de circo e de teatro do interior que vinham ajustar os shows. Era comum se ver ali duplas, como: Léo Canhoto e Robertinho (que realizavam um show de bang-bang), Cascatinha e Inhana, Lio e Léo, mágicos, palhaços, e outros artistas que faziam daquele estabelecimento um "escritório" para acertar os futuros shows. O Bar até possuía um reservado nos fundos para os mais famosos. Com o grupo do "Juvêncio" não era diferente. Era lá que se contratavam os shows que seriam apresentados nos fins de semana em circos e teatros   do interior Paulista.
MV - Por que acabou o Juvêncio?
AA - Veio o golpe militar e junto a censura severa à imprensa e aos meios de comunicação.
Os capítulos da novela passaram a ser escritos com muita antecipação e tinham que passar pelo crivo da censura, que muitas vezes cortava cenas inteiras. A novela passou a ser gravada para posterior apresentação.
Alguns anos mais tarde, em meio ao anos 70, a euforia tomava conta do País com a seleção canarinho indo para disputar a copa do mundo. Todo mundo cantava "Pra frente Brasil". A censura continuava e o programa foi julgado impróprio para o horário, passando a ser transmitido as 6h00 da manhã. Mesmo assim resistiu até ao fechamento da emissora em 1974.



terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Entrevista de Galeno Amorim para "O Globo"

Minha gente!
Segue entrevista de Galeno Amorim, associado da regional SP da AEILIJ para o jornal O Globo de 24/01/11.
Abraço,
Regina Sormani


Galeno Amorim confirmado na última sexta-feira como novo presidente da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) vai administrar a distribuição de obras para seis mil unidades públicas gerenciadas por prefeituras, além de traçar os rumos da oitava maior biblioteca do mundo em acervo.

Ex-secretário de Cultura de Ribeirão Preto e com passagens pelo governo Lula, inclusive na FBN, ele foi incumbido pela ministra Ana de Hollanda de preparar o terreno para a criação do Instituto Nacional de Livro e Leitura.


- Quais serão as prioridades de sua gestão à frente da Biblioteca Nacional?

Eu gostaria de acelerar o processo de inserção da Biblioteca Nacional no cenário brasileiro e também no cenário internacional. E, em outra ponta, gostaria de fortalecer o Plano Nacional do Livro e Leitura, de forma a ampliar o acesso ao livro e aumentar o índice de leitura no Brasil, que hoje é de 4,7 obras lidas por habitante por ano.

- Como ampliar esse acesso?

É possível buscar com o setor privado a criação de um livro popular. Seria um livro mais barato, sobretudo para esse novo leitor que vem das classes C, D e E. A principal forma de acesso ao livro é via biblioteca pública. Mas, ao mesmo tempo, é preciso criar condições para as pessoas poderem comprar um livro mais barato. Isso é importante para o leitor, que aumenta suas possibilidades; para as editoras, que recuperam produtos fora de catálogo e podem criar subprodutos; para o autor, que pode ampliar a quantidade de exemplares; e também para as livrarias, que podem oferecer um produto diferenciado. Pode, por exemplo, haver uma livraria popular, como são as farmácias populares.

- Mas isso seria feito através de subsídios do governo?

Não necessariamente. Eu fiz uma consulta informal a entidades do livro. A ideia é desenvolver uma ação para que os editores percebam que existe a perspectiva de venda. Algumas empresas que atuam em outro segmento, como a Avon no caso da venda de porta em porta, conseguem fazer com que um livro que sairia por R$ 40 na livraria chegue ao consumidor por um preço três ou quatro vezes menor, justamente porque a editora tem a certeza de que o livro será escoado. Além disso, o governo pode muito bem dar uma garantia de que vai adquirir uma parte dos livros para ser distribuída a bibliotecas públicas.

- Num primeiro momento, haverá alguma mudança no gerenciamento da Biblioteca Nacional?

A Biblioteca Nacional terá toda a responsabilidade pela política pública do livro e da leitura no Brasil. Hoje, existe uma Diretoria de Livro, Leitura e Literatura e também existe o Plano Nacional de Livro e Leitura. Ambos devem vir para a Biblioteca Nacional, e eu terei a responsabilidade de preparar a criação do Instituto Brasileiro de Livro e Leitura. Esse instituto será o responsável pela gestão das políticas públicas da área, e, quando isso acontecer, a Biblioteca Nacional vai se dedicar exclusivamente para a Biblioteca Nacional.

- Esse instituto terá o mesmo conceito do Instituto Brasileiro de Museus, o Ibram?

Exatamente, será o Ibram do livro e da leitura. Ainda não consigo estabelecer um prazo, mas é a grande demanda do povo do livro.

- O senhor chegou a trabalhar na Biblioteca Nacional no governo Lula. Quais foram os principais avanços na época?

Eu fui coordenador geral de livro e leitura da Biblioteca Nacional. Fui para lá em 2004, para formular um programa em que todos os municípios brasileiros tivessem sua biblioteca. Na época, o orçamento para a área era em torno de R$ 6 milhões. No ano seguinte, eu articulei com o senador Tião Viana, e ele apresentou uma emenda que aumentou os recursos para R$ 26 milhões, que nos ajudaram a criar as condições para zerar o número de cidades no Brasil sem bibliotecas.

- Quanto falta para se alcançar essa meta?

Falta pouco. No último levantamento, faltavam poucas dezenas, e apenas em municípios para os quais o MinC oferecia o kit com o acervo básico e o computador, mas as prefeituras ainda não tinham feito a instalação. Isso acabou motivando que o ministério suspendesse, em dezembro, o repasse de recursos para prefeituras que não instalaram suas bibliotecas.

- É claro que é importante que se tenha bibliotecas em cada município, mas isso não garante a leitura. Como fazer com que a sociedade e a biblioteca se encontrem?

O Plano Nacional do Livro e Leitura foi criado em 2006 como resposta para esse questionamento. São quatro eixos: a democratização ao acesso; a formação de mediadores de leitura como bibliotecários e professores; a valorização da leitura no imaginário coletivo, através de campanhas ou inserção de situações de leitura em programas de TV; e a economia do livro, com programas que incentivem pequenas editoras e pequenas livrarias, entre outros fatores. Quando você põe os quatro eixos em funcionamento, você estimula as pessoas a lerem.

- Discute-se muito a possibilidade de uma nova Lei do Direito Autoral. O tema mobilizou o último governo, mas a ministra disse que vai reavaliar o projeto. Como o senhor enxerga a questão?

Uma coisa é consenso: é importante que as legislações sejam sempre atualizadas à luz dos novos tempos. A ministra tem se posicionado de forma prudente, mostrando-se aberta a ouvir as várias partes envolvidas. E de uma forma muito serena, ela já sinalizou que vai apreciar essas várias argumentações. E eu me alinho completamente com essa visão. Todos nós temos conhecimento da necessidade de se promover avanços. O material que os criadores produzem tem o valor de seu esforço e dedicação, e isso precisa ser respeitado, e por outro lado os leitores precisam ter algum direito de ter acesso a essa produção acumulada pela sociedade.
(André Miranda)
(O Globo, 24/1)