sexta-feira, 1 de junho de 2012

Vice-Versa de junho de 2012


Amigos!

Participam do Vice-Versa de junho os escritores Marciano Vasques (SP) e a coordenadora da regional  da AEILIJ do Paraná, Marilza Conceição. Agradeço a participação. Um abraço a todos!
Regina Sormani

Respostas de Marilza Conceição

1. Poderia nos expor, Marilza, a Pedagogia do Imaginário? De que forma ela atua no crescimento alfabetizador da criança em sua preparação para o mundo?

O imaginário humano está presente em todos os aprendizados. Desde os discursos mais sérios fazemos uso da imaginação.
As crianças fazem isso naturalmente, quando o sapato vira um carrinho, a escova de cabelos é a princesa e a gaveta, seu castelo. E se ressentem quando a escola quase proíbe estas manifestações de brincadeiras espontâneas e imaginativas, porque o ensino é rígido e deve cumprir currículos pensados para as faixas etárias definidas.
Em minha prática pedagógica, a literatura é o fundamento do método de ensino. Na roda de conversa são compartilhadas histórias literárias e discussões sobre o cotidiano. E estas conversas são inspiradoras de poesia, música e desenhos. É a construção de um repertório que prepara as crianças para o aprendizado dos demais conteúdos que estão postos. Para construir conceitos, valores morais e principalmente poesia, é necessário um  repertório que aqueça a imaginação, ainda novinha em folha, com perguntas e argumentos.
As crianças constroem palavras novas quando conjugam verbos usando as terminações que lhes parecem adequadas. Intuitivamente denominam com palavras substitutas, as existentes no vocabulário que todos falam, porque é do que precisam para situar-se no universo.  
Para exemplificar a prática que descrevo, nada melhor do que um relato de experiência, que está publicado no meu blog: http://marilzaconceicao.blogspot.com.br/ em 06.06.2008 com o título: Quando os professores pensam em poesia, e no site  da Rede Municipal de Ensino de Curitiba http://www.cidadedoconhecimento.org.br/cidadedoconhecimento/index.php?portal=520&cod_not=17907
Certo dia, fomos ao cantinho mágico das histórias, que fica em qualquer lugar que o desejo mandar. Basta imaginar o tapete de Sherazade e viajar até às nuvens, estejamos à sombra da árvore ou na do muro do prédio da escola. A roda participava concentrada na história que eu contava, quando sentimos o vento mais forte e frio e as nuvens acinzentadas pairando acima de nossas cabeças. Gordas  gotas precipitaram-se e eu disse às crianças: “Sintam!” Surpresos me responderam: “Pode?”, “venham”. E corremos de braços abertos pela grama.
Surpreendentemente, uma nuvem de libélulas subiu da touceira de mato alto. Foi um pula, pula, uma gritaria e a chuva caiu mais forte. Nos abrigamos no pátio coberto para apreciá-la, vendo as gotas espocando na calçada. Nenhum dicionário poderia definir melhor a palavra “espocar”, pois pudemos senti-la.
Voltamos em um burburinho sorridente para a sala, para a roda de conversa que se instalou e eu anotei o que eles falaram a seguir. Depois apresentei-lhes as frases, que reduzimos e agrupamos num texto e na sequncia construímos a poesia:
LIBÉLULA
A Libélula parece um helicóptero
só que bem pequenininho
nós corremos pela grama pra tentar pegar
acho que ali perto tem um ninho.
Algumas crianças pulam alto
quase pegam os insetos
mas não conseguimos alcançar
porque nós não sabemos voar!


2. Fale, por gentileza, sobre o seu livro “O Balé da Chuva”.

É uma história de amor entre a mãe e a filha, que apresenta uma grande descoberta: o assustador barulho do trovão não pode ser desligado. A mãe mostra o som das gotas pingando na calha, caindo sobre as plantas e espocando na calçada. Com estes minutos de carinhosa atenção, o sono vem, o medo vai embora. O cheiro da terra molhada que a chuva de verão deixa exalar do quintal, desperta a poesia da infância que a mãe carrega dentro de si e compartilha com a filha. É uma história que mostra como o amor dá conta de refletir e responder perguntas sobre as coisas que nos fazem sentir medo.  O amor dissipa o medo.


3. Demonstra uma alegria imensa em seus comparecimentos nas escolas. Pode nos falar sobre como estar presente nesses encontros com as crianças e as professoras tornou-se importante em sua vida?

Encontrar-me com as crianças e suas professoras nas escolas é entrar em diferentes mundos, todos com seu encanto particular. Há uma expectativa no ar quando eu chego: “ela é nova!”, e quando respondo às perguntas ouço comentários: “Ela tem pai e mãe”, “ela foi criança em Curitiba” e outras tantas surpresas que nos igualam na mesma cidade, com os desejos parecidos e a diferença de tempo de décadas de infância. É recorrente sentir-me uma menina que gosta de correr com eles pela grama, sentindo pingos de chuva, e de inventar histórias.

4. Você é uma contadora de histórias e dá gosto vê-la rodeada de crianças, como na I Bienal do Livro de Curitiba. Pode nos traduzir o sentimento que a invade nesses momentos?

Nesta ocasião, eu fui convidada pela Biblioteca Pública do Paraná e apresentei textos criados com o intuito de incentivar a leitura do público mirim. O sentimento foi de responsabilidade e alegria por participar da I Bienal do Livro de Curitiba. Já a personagem Mila, que tem vida própria, com agenda e guarda-roupa, não cabia em si de contentamento.
O preparo de eventos exige atenção e cuidado para o público a que se destina, repertório com texto apropriado e grande parte das vezes com música. Sinto-me feliz por contribuir com ações de literatura na minha cidade. Eu amo Curitiba!






Respostas de Marciano Vasques




1 - Tudo Azul, Marciano Vasques?

R: Sim, sempre azul. A cada novo amanhecer. Principalmente quando o azul do céu se torna ciano, que é a cor do céu na manhã, por volta das 9horas. Tenho plena consciência de que as coisas não andam bem no mundo, ainda. É preciso muita luta dos oprimidos de modo geral, força e coragem para seguir em frente num cotidiano de tantas contradições e desavenças. Mas, cada um tem que preservar os seus mecanismos interiores de defesa. Eu, no caso, moro numa casa. Azul. O Nome “Casa Azul da Literatura” foi inspirado no livro “Uma Aventura na Casa Azul”, da Editora Cortez.




2 - Sua produção de periódicos é intensa. Como você organiza seu tempo e a inspiração para escrever as páginas: Casa Azul da Literatura, Casa Azul da Arte, Casa Azul da Educação, Ciano e a Revista Palavra Fiandeira?


R: Nem me dedico mais com tanta intensidade. O CIANO preciso atualizar, e o CASA AZUL que tinha postagens diárias, agora passa por longos períodos sem postagens. O da Arte me entristeceu muito. O da Educação, foi uma ilusão, pois cansei de pedir para que os professores escrevessem. PALAVRA FIANDEIRA agora ressurge reformulada, e semanal. Para mim é motivo de orgulho e alegria ter uma revista digital de literatura e artes, semanal. O tempo eu invento. A organização é acordar cada vez mais cedo. E atualmente, é verdade, não tenho tempo de sobra, e agradeço muito por isso.



3 - Em sua literatura infantojuvenil há diversos personagens da turma da bicharada: borboletas, focas, libélulas, entre outros, vivendo as mais empolgantes aventuras. Você incumbe os habitantes do mundo imaginário da missão de buscar respostas para as dúvidas do cotidiano dos leitores?

R: Certa vez, eu estava passando por um sofrimento intenso, e um amigo falou: “Pense na força dos bichinhos”. Isso realmente foi profundo para mim. E quanto aos personagens, eles são simbólicos da infância que vivi. Escapei de tudo que aí está, mas não sou contra o espírito da época quando se trata de grandes revoluções como a Internet. A infância reside em nós de forma absoluta. Não podemos fugir de nossos princípios. E nesse aspecto, os bichinhos em sua conversa poética, assim como os outros personagens, orientam o coração, que é de onde tudo deve brotar e se expandir. Ofereço os bichinhos e a literatura infantil como uma forma de repartir a felicidade da minha infância com as crianças. Aliás, felicidade existe para ser repartida. Na verdade, escrever é uma das formas de felicidade do Ser.




4 - Sapabela e Rospo são namorados, amigos filósofos, personagens que gostam de inventar palavras novas e lhes dar sentido, ou ainda, personagens que relatam suas certezas e dúvidas diante dos sentimentos com os quais se deparam?


R: Rospo é demasiado humano, alguém já disse. Na verdade, o personagem é uma trincheira contra a arrogância, sobretudo, a arrogância intelectual, para ele a mais terrível. E também a arrogância no mundo das artes, que afinal ela existe sim. O Sapo acredita na leitura, como única saída para o desabrochar libertador do pensar. Sapabela, é a mulher em toda sua força intelectual, e seu mundo extraordinário, no que ele tem de melhor. É vaidosa e não abre mão disso, para alegria do Rospo. É muito esperta, no bom sentido: ligeira e intuitiva. Não são namorados. São amigos, içados pela Filosofia, pela Poesia e numa fortaleza contra o obscurantismo. São éticos, e primam pela ética, que segundo eles, deve orientar a vida anfíbia. São personagens criados para o público infantil, mas que atingem em cheio o público adulto.


domingo, 27 de maio de 2012

Um livro do qual gostei muito


Um livro do qual gostei muito

Gente querida,

Li, gostei e recomendo a todos a leitura do livro "ERA UMA VEZ UM CAJUEIRO" de Fabia Terni e que fazia parte da Coleção Minha Turma, publicado pela Nova Didática. Em 2010, foi reeditado pela Cortaz, fazendo parte da coletânea Tia, me compra um pastel e outras histórias. As ilustrações são de Silvana de Menezes.

A turma é composta por: Amauri, Mauro, Vinícius, Clayton, Luana e o cãozinho Hot Dog.
Os garotos precisam arrumar camisetas para o time de futebol. Acontece que não têm dinheiro, então, é necessário descobrir uma forma de conseguir a grana. Entra em cena o famoso cajueiro de Pirangi, que nasceu lá longe, no Rio Grande do Norte. Essa árvore, considerada a maior do mundo em sua espécie, tem características especiais, que a tornam única. De que forma o cajueiro ajudou a turminha a conseguir o dinheiro necessário para a compra das camisetas?

Descubra isso e muito mais lendo a história da minha querida amiga, a escritora associada da regional paulista da AEILIJ, Fábia Terni.
Um beijão,
Regina Sormani

terça-feira, 22 de maio de 2012

Mensagem - Vinhedo, um pedaço da Itália -



Vinhedo: um pedaço da Itália


Nessas frias manhãs outonais, tenho me recordado muito de Vila Opicina. A semelhança com esse povoado italiano vai além das parreiras nuas e altivas dessa época do ano, que avisto nas plantações vinhedenses logo que o dia acorda. Pessoas vestidas com casacos, luvas e cachecóis marcham rapidamente com suas botas invernais, entrando nos empórios que cheiram a café quente. Carros apressados como formigas atarefadas, que depois do horário do rush matutino, desaparecem das ruas e permitem que a atmosfera de cidade tranquila retorne a esse agradável cantinho do mundo, onde ainda vivemos dias de passado.



Eu escolhi essa cidade pela sua semelhança com a linda paisagem onde vivi minha história durante dois anos. Un piccolo paese,onde o outono é verde e frio como o daqui, salpicado de manacás e outras raras flores que insistem em colorir nossos dias sem calor, destacando-se à leve camada de gelo que a noite cobre sobre a natureza e as coisas, como se fosse um fino lençol de seda, para depois chegar o sol que aquece nossas tardes e esquenta nossas almas.



Opicina fica no alto de uma montanha. Daí começam as dessemelhanças com nosso interior paulista. A descida para a portuária Trieste, com suas cinzas do Império Romano, é feita de carro ou trem, beirando precipícios e com vista para o esplendoroso Castelo de Miramare e suas espécies botânicas colhidas ao redor do mundo pelo austríaco Almirante Maximiliano, que o mandou construir em 1856, e até hoje rasga a paisagem marítima com sua imponência. Trieste sofre o colapso do trânsito, e os sintomas são os famosos estacionamentos em fila dupla, em frente a prédios que não foram projetados para usuários de automóveis. A esses edifícios – sempre de poucos andares – foi adicionado um elevador com o passar dos anos (um modelo de mínimas dimensões, para caber no que antigamente era um suntuoso e espaçoso hall).



Lembro-me do Vento de Bora, misterioso e frio, atravessando o Mar Adriático, invadindo o golfo na época de neve e gelo. Andar nessas épocas é um exercício de resistência. Por vezes, faz-se necessário colocar cordas amarradas nas fachadas para que as pessoas consigam vencer a força do oponente invisível.



Trieste vive a mistura dos povos esloveno, croata e italiano, assim como nós vivemos com tantos povos. Ainda hoje, degustamos a miscigenação com italianos, não somente nas taças de vinho, mas em nossa cultura bordada por esse povo que atravessou mares, superou guerras e veio semear nosso solo com a cor da uva e nossos corações com exemplos cor de ouro. 

Simone Pedersen


Simone é escritora, associada da regional paulista da AEILIJ


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Homenagem às mães



Mãe

(Mario Quintana)


São três letras apenas
As desse nome bendito:
Também o Céu tem três letras...
E nelas cabe o infinito.

Para louvar nossa mãe,
Todo o bem que se disse
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer...

Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!


sábado, 5 de maio de 2012

MURAL 29 - MAIO DE 2012




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NÚMERO 28 - ABRIL DE 2012
O Mural é uma agenda cultural postada todo início de mês,
porém, editada ao longo do mês conforme os eventos surgem.
A agenda das bibliotecas é renovada semanalmente.
Amigo associado de qualquer cidade do Estado de São Paulo,
contribua...
aguardamos notícias dos eventos do interior.
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NOTICIAS DE ASSOCIADOS
Colega associado, de toda parte, se tiver uma noticia para nós,
por favor nos envie para que possamos divulgar.
Jamais se sinta desprezado;
sua noticia pode não estar aqui
porque não sabemos a respeito dela,
nos ajude. Obrigado
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LANÇAMENTO DE ROSANA RIOS

É neste sábado, dia 05 de maio, a partir das 15h30.
Apareçam para conhecer alguns contos tenebrosos de autores do século XIX, com tradução e comentários de Rosana Rios e Martha Argel:

Contos de Horror - Histórias para (não) ler à noite

Livraria Martins Fontes da Paulista - Av. Paulista, 509.
 
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FESTA LITERÁRIA DE SANTA TERESA

Acontece no Rio a quarta edição da FLIST, com várias atividades dos associados AEILIJ,
entre elas a discussão sobre "O diálogo da narrativa visual com o texto", com Fabio Sombra e Thais Linhares, mediação de Sandra Ronca. Neste sábado dia 05 às 11 horas.
No domingo, dia 06, às 16 horas, o lançamento da Coleção Dorina Nowill/Aeilij solidária com a presença dos autores participantes.
Confira programação completa aqui.

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LANÇAMENTO DE IEDA DE OLIVEIRA

Viva o Reino da Terra, escrito por Ieda de Oliveira, ilustrado pela associada paulista Fabiana Salomão e editado pela Prumo terá seu lançamento no dia 5 de maio, às 15h, na Livraria Saraiva do Botafogo Praia Shopping, Praia de Botafogo, 400.
Este texto já foi vencedor do Prêmio Alice da Silva Lima de Teatro Infantil  na categoria Texto Inédito.
O livro vem acompanhado de um CD com a história narrada, cantada e representada. Junto ainda vem um marcador de livro, que é semente, para, após a leitura do livro, a criança plantar.
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ENCONTRO DE ESCRITORES E ILUSTRADORES
NA CASA DAS ROSAS
Av.Paulista, 37 - Bela Vista Cep.: 01311-902 - São Paulo - Brasil (11) 3285-6986 / 3288-9447 contato@casadasrosas.org.br
 
A Casa das Rosas agora é parceira da AEILIJ
E no Domingo, 20 de maio às 16h acontecerá o encontro de associados
16h às 17h30 - Encontro da AEILIJ
- Assuntos referentes à AEILIJ, Bienal do Livro e escolha do homenageado de 2012.
17h30 às 20h - Sarau: Histórias Mágicas
- O Sarau será aberto à todos que queiram participar (enquanto a história for narrada, um ilustrador fará a ilustração).
Veja a programação no site da Casa das Rosas: http://www.casadasrosas-sp.org.br/
 
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Confira nospróximos dias 
as atualizações deste mural 
com outros eventos

 

sexta-feira, 4 de maio de 2012

QUEM CONTA UM CONTO

Olá!
Mais um mês se passou e cá estamos nós para mais um encontro no Quem Conta um Conto; agora com a colaboração de nossa colega, a escritora Lia Zatz.
Acompanhe e pense sobre o que a Lia tem a nos dizer.

Semelhanças e diferenças

Porque escrevo para crianças e jovens, certo dia, um psicólogo amigo, que costuma organizar rodas de conversas em seu consultório, me convidou para participar de uma mesa cujo tema seria “semelhanças e diferenças”.

Sem qualquer pretensão, relato uma das reflexões que fiz ao me preparar para esse papo.

Fazia poucos dias, tinha saído no jornal que um menino de 10 anos, negro, foi levado para a sala de segurança do supermercado Extra, na Penha, acusado de ter roubado, tratado de negrinho sujo e fedido, obrigado a tirar a roupa etc. O menino tinha comprado bolachas e mais alguma coisa e estava com a nota fiscal da compra. Imaginem o que não causa tamanha humilhação em qualquer pessoa, muito mais numa criança.
Sabendo que encontraria pessoas que lidam com crianças e adolescentes, como educadores, terapeutas e também pais, essa notícia me convenceu que seria importante conversar sobre o potencial de cura e de desenvolvimento da autoestima que tem o livro infantil.
Quando comecei a escrever para crianças, na década de 80, o negro era quase um ausente no livro infantil.
Ausente como assunto porque eram poucos os livros que abordavam racismo, preconceito, escravidão. E quando abordavam, a visão ainda era aquela da princesa Isabel que do alto da sua bondade decretou a abolição.
E ausente como pessoa. Num país como o nosso, eram raros os livros em que os personagens fossem ilustrados como negros. Claro que havia exceções: o Joel Rufino dos Santos por exemplo, historiador e autor de muitos livros, inclusive infantis, era uma delas.
A pergunta óbvia era: como a criança negra podia desenvolver sua autoestima e a criança branca vê-la como parceira igual, se a sua imagem não aparece ou aparece de forma negativa?
Foi incrível perceber, quando tive a oportunidade de acompanhar o trabalho de ilustradores de livros meus, como o “normal” era, talvez ainda seja, desenhar os personagens de uma história como brancos. Os ilustradores não são racistas por natureza, é evidente. E bastava dar um toque sobre isso que a ficha caía imediatamente.
Nessa questão, não tem jeito, temos uma herança maldita que precisa ser combatida cotidianamente. Isso está entranhado dentro da gente, sejamos negros ou brancos, ricos ou pobres. Enquanto o negro não conquistar de fato o lugar do semelhante, ele será o diferente e a intolerância vai surgir.
Muita coisa já mudou, mas falta muito ainda a mudar. Há pouco tempo, uma tese de mestrado de uma educadora mostrava situações de racismo acontecendo, atualmente, em escolas de educação infantil.
Na literatura infantil, faltam ainda, mas já são bastantes os livros em que os personagens são negros. Cito apenas um, já antigo, que, para mim, continua sendo um ícone: “Menina bonita do laço de fita”, da Ana Maria Machado. Acabo de recomendá-lo para uma amiga que veio me pedir indicação de livros para conversar com seu neto de quatro anos que, ao encontrar no elevador uma menininha negra, lhe perguntou por que sua pele era daquela cor.
Faço parte de uma geração que acreditava e lutava por suas utopias. Hoje, ter utopias é uma utopia a ser construída.
Como? Não faço a mais mínima idéia. Tenho poucas certezas atualmente. Mas essas poucas são fortes.
A primeira é que não dá para ficar parado. O Hobsbawn, aquele genial historiador inglês, disse em algum dos seus livros a seguinte frase: “... em algum lugar dentro de mim há um fantasminha que sussurra: ‘Não se deve estar acomodado num mundo como o nosso’”.
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Agora, divirta-se com as aventuras do: LELECO, O ILUSTRADOR, criação do associado Fábio Sgroi.


terça-feira, 1 de maio de 2012

Vice-Versa de maio de 2012


Amigos!

No Vice-Versa de maio vamos encontrar as entrevistas dos escritores: Eliana Martins  e Manuel Filho, associados da regional paulista.
Agradeço a participação de ambos. Um abraço a todos.
Regina Sormani



Respostas de Manuel Filho



1) Manuel, você, que já era cantor e ator, por que desejou ingressar na literatura?

Eli, eu nunca fui nada, as coisas foram entrando na minha vida. Como sempre digo, eu conheci as variadas atividades artísticas quando comecei a frequentar a biblioteca pública. Lá eu ouvia discos (cantor), fazia peças de teatro de vários tipos (ator), lia bastante (escritor). Também desenhava e, durante um tempo, fiz alguns desenhos, mas abandonei, não tenho talento para essa atividade. Depois de, ao longo da minha vida, refletir sobre o assunto, descobri que todas as minhas manifestações artísticas partem de uma mesma raiz: a palavra. Só canto palavras que acredito, tenho muita dificuldade em me imaginar cantando palavras que não tenham a ver comigo. Na literatura, também busco criar histórias que me motivem a colocar palavras no papel e, no teatro, sou mais flexível. Sempre posso acabar interpretando personagens que podem dizer coisas que eu jamais diria.


2) Qual dessas três artes acha a mais completa: música, teatro ou literatura?

Acho que nenhuma supera a outra, cada uma possui uma coisa divertida, aspectos diferentes. Como cantor, gosto de cantores que me desafiem, que façam coisas que eu admiro. Não estou falando de alcançar notas muito agudas ou graves, apenas, mas que apresentem alguma capacidade interpretativa que me provoque. Acho que, como cantor, é o momento em que estou mais exposto, não dá para me esconder atrás de figurino, cenário, páginas... Estou ali, mostrando quem sou e oferecendo o meu melhor, ao vivo. No teatro, existe uma necessidade imensa de cumplicidade. Acho que a atividade só “rola” se você confiar em todo mundo que participa dela: do bilheteiro ao seu parceiro de palco. Já tive esses momentos e também os opostos. A literatura, de todas, me parece ser a atividade mais generosa: não te julga pela idade, pelo aspecto físico, pela beleza, mas sim, pelo que você é capaz de criar e, talvez, seja uma das mais duradouras que existem.


3 - Dizem que para se tornar um escritor é preciso ser rato de biblioteca. Você era um?

Eu não tinha livro em casa e não havia biblioteca na minha escola. Na biblioteca pública Monteiro Lobato eu encontrava tudo o que eu desejava. Havia o setor infantil onde eu sempre me divertia muito e o livro era parte da brincadeira. Acho que é por isso que acabei gostando tanto deles, nunca me foram colocados como obrigação. Não me considero um rato de biblioteca, mas ela foi meu playground, um dos lugares que eu mais amava ir diariamente, sim, diariamente. Muitas vezes minha mãe teve que ir me buscar, rs


4 - Qual a sua receita para transformar uma criança não leitora em leitor?

Acho que é dizer a verdade: você não precisa ler até o fim um livro do qual não goste, não se torture. É claro que haverá situações em que isso não será possível, mas, quando a escolha por um livro for de alçada do leitor, sugiro que ele não sofra. Penso que seja mais adequado que a leitura seja entendida como um prazer, nunca como obrigação.. 






Respostas de Eliana Martins


1 - Sei que você é cheia de ideias. De que maneira você as prioriza?
Realmente, as idéias pululam, nas cabeças de todos nós, escritores. 
Procuro triá-las fazendo uma pesquisa do que o mercado está pedindo, os professores estão precisando e os editores buscando. Assim, uno o útil ao agradável: parte criativa com parte comercial.

2 - Qual a sua expectativa diante dos livros virtuais?
Como gosto sempre de me reciclar, acredito que os leitores e editores também. Assim, creio que há, entre nós, lugar tanto para os virtuais como para os impressos.
Eu prefiro manusear o livro, sentir o cheiro do papel. Mas a geração virtual chegou para ficar. Assim, que venham os livros virtuais. Um não concorre com o outro.O que importa é aumentar o número de leitores, no Brasil. 


3 - A vida do escritor seria mais fácil se... 
De minha parte, respondo a essa pergunta com toda sinceridade e rapidez: a vida do escritor seria muito mais fácil se houvesse mais respeito, por parte dos editores, ao nosso trabalho. Se nunca atrasassem os pagamentos. Se pagassem, sempre, direitos autorais justos. O ato de escrever é o emprego do escritor. Uma editora não sobrevive sem os escritores, bem como nós sem elas. Portanto o respeito entre um e outro deveria ser o mesmo. Infelizmente, nem sempre é assim.

4 - Qual pergunta que nunca te fizeram e você acha que ainda vão te fazer?
Nunca fizeram, mas gostaria que fizessem, a pergunta seguinte:
Por que, apesar de todas essas dificuldades, você ainda quer continuar escrevendo?
E a resposta seria:
 Por que amo escrever. . .