sexta-feira, 15 de junho de 2012

PÁGINA DO ROSPO — 5


    O CHAMAMENTO DA LITERATURA


—Rospo, estive pensando: o filósofo é um ser para a vida, não é?
—Sim, um ser para a felicidade.
—Como seria o mundo se Epicuro tivesse vencido, em vez de Platão?
—Boa pergunta, Sapabela.
—E a boa resposta, meu amigo?
—"Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e tempestades"
—Que mais, Rospo?
—"Não temos nada que temer aos deuses"
—"Qual é para você o filósofo da felicidade?
—Espinosa.
—Sofreu muito.
—Que encanto a sua vida!
—Acredita em outra possibilidade para a filosofia?
—Não. Só a felicidade. Se a filosofia não causar alegria no ser, não terá cumprido a sua essência. Os momentos de tristeza da humanidade foram momentos de afastamento da alegria da filosofia.
—A filosofia tem uma irmã?
—Tem. A literatura.
—É possível afirmar que a literatura é também alegria e felicidade?
—Sim.
—Mas tem literatura que nos leva à reflexão, e outras que abordam questões tristes...
—Por isso mesmo.
—Esmiuçando, por favor.
—O leitor apaixonado fica feliz diante da reflexão. Esse é o bem maior da literatura. Assim, dessa forma, veja só: mesmo quando a literatura expôr situações de tristezas e infortúnios da humanidade, estará regando o espírito do leitor.
—Gosta da palavra espírito, não é, Rospo?
—Sanchoniaton !
—Isso é uma gíria nova?
—O "espírito"  não tem aqui nenhuma conotação religiosa. É a palavra em seu sentido filosófico.
—Verdade que ganhou de presente de aniversário um livro de Goethe e  nunca leu?
—"Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister". Mas li pelo menos umas cem páginas.
—Pretende ler o livro inteiro, Rospo?
—Pretendo, Sapabela, só não sei quando.
—Sobre a literatura eu pensava que só a infantil fosse sinônimo de felicidade.
—Nada, menina!
—Nunca me chamou assim. Gostei.
—Eu também, Sapabela. Veja só: às vezes sinto uma felicidade estranha. Essa felicidade estranha é a literatura. Quando Montaigne falou que na biblioteca estão os melhores espíritos, os espíritos encantados da humanidade, ele se esqueceu de dizer que esses espíritos estão com você, em você quando subitamente sente uma vontade inexplicável de reler um livro.
—Umas das maiores tragédias da humanidade foi o incêndio que destruiu a biblioteca de Alexandrina. Como será no futuro, se as bibliotecas, dizem, serão todas virtuais? Estará preservado para sempre o tesouro infinito?: Mas fale da vontade inexplicável.

Sim, repentinamente surge aquela vontade de reler um livro, de Jorge Amado, por exemplo, como Jubiabá...
Felicidade pura.
Ou "Memórias de minhas putas tristes", ou "Tia Júlia e o escrevinhador"...
Como você explica isso?
É o chamamento da literatura.
Chamamento da literatura?
Acredite! Quando você está em certas circunstâncias cotidianas a literatura a chama.
A poesia sempre pisca pra mim.
Pois é, esse chamamento é um mecanismo de defesa interior da mente, que busca, sempre, a felicidade.
Rospo, e eu comecei falando de filosofia.
Dessa irmandade não escapamos, Sapabela.
Vamos ao nosso chocolate expresso?
Sim, vamos, esse é o chamamento da amizade.
Só me faz rir, Rospo.



MV



quinta-feira, 14 de junho de 2012

As artes do vovô





AS ARTES DO VOVÔ

O vovô é bem velhinho,
Às vezes, fala sozinho
Esse vovô é de morte,
Diz que pratica um esporte:
Ficar de papo pro ar
E dormir até roncar.
Tem hora  que a coisa complica
Quando o vovozinho implica:
- Quem pegou minha dentadura?
- Quero comer rapadura!

A poesia "As artes do vovô" faz parte do meu livo de poesias REBENTA PIPOCA, publicado pela Poneira, cujos direitos retornaram para mim.
Ilustração de Marchi
Um abraço,
Regina Sormani

QUINTAS — 63


DANÇANDO NO TEMPO

Quando a valsa surgiu causou um escândalo. Como era possível tal coisa? Homem e mulher dançarem tão próximos? Furor. Assombro. Assim aconteceu.
O tempo seguiu e eles continuaram dançando. Boleros, sambas. Veio o twist, o Rock And Roll, e chegou a época em que homens e mulheres passaram a não dançar juntos.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A VOLTA DO ROSPO




Agora, de volta ao blog da AEILIJ PAULISTA, as histórias do ROSPO.
Semanalmente, aos sábados, a PÁGINA DO ROSPO.

PÁGINA DO ROSPO — 4


FALANDO DE “RALACIONAMENTOS”



Rospo encontra uma amiga.
—Rospo, não consigo me entender com meu namorado.
—O que não acontece?
—Perguntou errado, Rospo. Deveria ser "o que acontece?".
—Pois que seja.
—Ele quer controlar a minha vida.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

QUINTAS — 62





A NECESSIDADE IMPERDÍVEL



A revolta dos guarda-chuvas? O trem chegou atrasado? Meninos, o trem! Se não há encanto nos olhos de encharcar é porque a época tem um toque de tristeza que não pode ser desprezado. Comecei esta “Quinta”, com livros de Sidonio Muralha, um dos mais fecundos poetas para crianças. Dedicou sua vida apaixonante à literatura infantil. Nasceu em Lisboa e viveu aqui no Brasil.
Recentemente perguntei a uma menina de nove anos, se ela conhecia um poema de Cecília Meireles. “Quem é essa?”, perguntou a pequena, que aprende com uma velocidade estonteante tudo no celular. Jamais irei alcançar em destreza tecnológica essa nova geração. E lá vem Orkut, (quem ainda não se lembra?) e lá vai algo que no horizonte nos aponta um pedido de pausa.
Cecília? Nasceu no Rio de Janeiro, e foi criada por uma avó que cantarolava tudo que era cantiga, e recitava ditados populares, e parlendava o dia inteiro. Foi com ela que a menina aprendeu que “a vida é um conto que acontece”.
Crianças, não se sabe direito ainda se a vida é “Ou isto ou aquilo”.
Bartolomeu Campos de Queirós, é tanta felicidade, menina, que só caberia mesmo num poema.
Num circo! Onde mais? Onde mais? Vá buscar seu coração na poeira da tarde, vá nos capinzais, nas teias orvalhadas refletindo gotículas de arco-íris, vá nas páginas de um livro. Um livro? É, nos sonetos e versos de Carlos Drummond de Andrade. “Só fala de gente que não conheço!”.
Veja, no caminho da escola tem um mundo, tem um mundo.
Acredito, e só acredito, eu, que aqui escrevo, numa educação poética, de encantar meninas e meninos. Não tem mais espaço para tal coisa? A realidade agora é sinônimo de velocidade, será que não percebo?
Fast Food. O cinema não diz, não traduz. Os professores poderiam causar a revolução essencial. Mais isso não acontece, então, precisamos repensar tudo. Isso não acontece, mas é bom saber que tem muitos professores com a alma repleta de poesia, minha pequena.
Tem gente escrevendo em Portugal para crianças, tem na América Latina, tem em todos os lugares do mundo, e aqui também, naturalmente. Temos poetas, e dos bons, aos montes, menina, temos sim, meninos. A vida é uma doce caminhada na calçada, criança, a vida é Quintana, é mesmo, é um doce de Cora Coralina. Quando a poesia infantil adentrar de vez na sala de aula, o coração de giz irá se expandir de tal forma, que só quem for criança ou tiver o olhar repleto de espantos, irá sorrir um sorriso de pedrinhas de brilhantes.
Se alguém não souber por onde anda a poesia infantil, é só procurar, e ela se abrirá em mil girassóis. Poesia infantil não brinca de esconde-esconde. Ela está sempre onde uma criança estiver.


Marciano Vasques

QUINTAS— 62

segunda-feira, 4 de junho de 2012

QUEM CONTA UM CONTO


Oi, tudo bem?
Como o mês de junho é dos namorados, a escritora REGINA SORMANI aceitou o convite para deixar neste canto do blog OS FIOS INVISÍVEIS DO AMOR.
Envolva-se neles também!

Os fios invisíveis do amor
Li alguns anos atrás, uma fábula chinesa que contava o seguinte:
Cada pessoa, ao nascer, traz amarrados aos pés fios invisíveis e muito, muito longos que, durante sua vida devem encontrar seus pares, nos pés de outra pessoa. O destino se encarrega de juntar essas almas gêmeas, de forma, muitas vezes, inusitadas. Na fábula, a filha única do imperador se apaixona por um rapaz de família simples e se rebela contra a vontade do pai que pretende casá-la com um príncipe rico e cruel. O rapaz pobre é condenado à morte pela ousadia de se aproximar da princesa e tudo parece perdido para o casal de apaixonados. Porém, na hora da execução, o carrasco percebe que o moço traz no pescoço, um cordão com uma medalha e a entrega ao imperador. Este pedaço da fábula, todo mundo conhece: na verdade, o rapaz é o filho de um nobre e valente amigo do imperador, desaparecido num campo de batalha. A medalha é o documento de identidade do namorado da princesa. Desvendado o mistério, tudo acaba bem. Os fios invisíveis do amor cumprem seu destino. A princesa e seu amado casam-se e vivem felizes para sempre.
Deixando de lado a fábula chinesa e as artimanhas do destino, conheço alguns casos que acontecem no dia -a- dia e que merecem, pelo menos, alguns segundos da nossa atenção. Acompanhei de perto a história a seguir:
Osmar estava noivo, de casamento marcado com Patrícia. Lá no íntimo, ele não havia esquecido a Tereza, sua namoradinha de infância, que deixara há anos, no interior do Mato Grosso. Quase às vésperas do matrimônio, Osmar foi à Catedral da Sé para um momento de oração e reflexão. Na hora da saída, a moça que estava à sua frente deixou cair um livro de orações. Osmar apanhou o livro e quando foi entregá-lo, ficou frente a frente com Tereza. A partir daí, a história de Osmar começou a mudar. Sim, ele desfez o compromisso com Patrícia e até hoje está casado com Tereza.
Esse reencontro foi obra do destino? Coincidência? Teriam os fios invisíveis do amor se entrelaçado e unido Osmar e Tereza? O importante é que o amor venceu!

A todos, um belo e colorido mês de junho.

Regina Sormani

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LELECO ataca novamente; graças ao criativo ilustrador FÁBIO SGROI.
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