sexta-feira, 6 de julho de 2012

Um livro do qual gostei muito


BICHO HOMEM




O primeiro livro do autor. As ilustrações, que capricho, que beleza!Criança viu, adorou. Não saberia eu destacar uma página, a das rãs, é tudo de bom. Os olhos param.
A página daquele galho com as folhinhas, é demais. A artista: Marcia Misawa. Quando menina, gostava de desenhar no chão e ver a chuva passar.

Quer conhecer as vozes dos bichos? É poesia pura, por demais poético. Poesia nos verdes, nas páginas ensolaradas, nas quais bichos arrulhavam, um grasnou, alguns gorjearam. Num encanto só.

Tem até bicho sibilando! Li de uma só vez, feito menino puro, repleto de vontade de desbravar esse mundo.

O que acontece de trágico para essas vidas indefesas, é apresentado aqui com extrema delicadeza poética. O forasteiro vem aí.

Leio diariamente pelo menos um livro infantil. Isso tornou-se um hábito e uma necessidade em minha vida. E faz tempo não lia um assim com tanta alegria, aquela alegria intensa e súbita que brota declarando-se felicidade. Esse vozerio todo, esse alarido, amplia muito mais do que o vocabulário da infância, amplia um sentir, um modo de ser e de se posicionar diante da triste agressão à natureza e aos seus fiéis habitantes.

Quando li “Bicho Homem” ganhei a minha alvorada.

Na última página, o autor diz que ama bichos, crianças, velhos e livros. Ama bichos? Nem precisava dizer!

Livro:BICHO HOMEM

Autor: NELSON ALBISSÚ

Ilustração: MARCIA MISAWA

Editora: CORTEZ

32 páginas

Comentários de Marciano Vasques

quinta-feira, 5 de julho de 2012

QUINTAS — 66


O LÁPIS VERMELHO



Oal Aul Ial Lá estava eu, quem diria, com ele em minhas mãos. Entre tantas coisas tão importantes, como o pião, as bolinhas de gude de translúcidos verdes e azuis de pedrinhas iguais aqueles olhos.
Aquela menininha que segurava em minha mão na "O cravo brigou com a rosa", e agora, já homem sei porque os olhos já marejaram nessa cantiga mais de vez.
E eu, que já havia sido tudo: um palhaço de circo de quintal, o mocinho, o bandido, o índio, e corríamos e as palavras iam surgindo aos montes, em nossos corações, e então, porque se fizera assim tal menino, as palavras quando chegavam já iam direto para o coração.

E nos escondíamos atrás do anis, do poejo, já falei dessa miudeza toda.
Estou me arriscando escrever direto aqui pois está ameaçando chuva forte e até já andou trovejando, e se faltar a energia elétrica tenho receio de perder tudo, mas vou em frente. Então vou para o Blog, é mais seguro. É uma casa azul, não é? Com alguém que já está na janela.
Pois então eu ficava bobão mirando para ele, e falei das palavras, e elas vinham aos montes: romã, rã, mamona, mas naquele momento eu esquecia todas elas, porque não era um momento de palavras. E se pudesse laçar cada momento desses que passaram!, que não eram momentos de palavras. Como eu ficava com os olhos de nuvem diante da menina que eu queria namorar. Sardentinha, vestidinho, um anelzinho de vidro que ela exibia demais. Meu Deus! Mas eu estava lá, com ele, em minhas mãos. Hexagonal, um lápis tão grande, tão bonito, que lindo era! O meu primeiro lápis de cor, um lápis vermelho. Eu nem sabia como segurar um lápis assim daquela formosura e encanto.
De tudo que me encantava, começando pelos gibis e as manhãs nas trilhas dos eucaliptos, e ver sempre uma menina tão linda, que passava e nem sorria quando era perto do portão mas lá na ponta da rua ela se virava e acenava com um dos braços dando Tchau, e era de lua africana nos cabelos, era toda áfrica aquela menininha e nunca soube ao certo se era um truque de fada africana que a mandou só para embelezar mais aquela rua, e outras tantas coisas que encantavam, pois o que mais tinha era encantamento, era diferente, não tinha esse prazer de ficar dedilhando joguinhos, era uma coisa viva. Se o tempo era melhor? E eu sei lá! Isso tem que perguntar pro tempo. O que sei é que naquele dia, que era frio, e então, para ficar tudo mais bonito eu estava resfriado, pois não obedecia e isso agradeço muito quem fingia que eu obedecia e então lá estava no caule da goiabeira e varando ventos e capinzais zarpando no vento frio que era de tremer, e na chuviscada até que não tinha jeito e entrava em casa, naquela casa rica de folclore.
Mas quero falar dele. Ele, de madeira, a madeira da árvore, que nos acompanha vida toda, e até naquele dia, que agora é melhor afastar pensamento e falar dele, não só da formosura, que isso nem precisa dizer, pois todos sabem, ou deveriam saber que um lápis é a coisa mais bonita que tem na mão de um menino, inda mais um lápis vermelho todo geométrico. Quero é falar da felicidade, essa coisa que sempre surge e adulto nem sabe direito o que é, e ela é feita de momentos, de riscos, de traços, tudo coisa passageira, mas vale tanto, meu bem...
E ele estava lá, em minhas mãos, e eu apertava forte para que ele não escapasse. Que lápis maravilhoso! Como me arrependo por não ter guardado nem um pedacinho dele. Já pensou?
E foi assim. Nada importou mais naquele dia. Nem a nuvem de tanajuras, nem os gansos fazendo escarcéu nas ruas, nem os alaridos das crianças, nem sequer as histórias com rabanadas ou bolo de fubá. Nada, só ele. Lindo, dono de minha alma. Ah, se essa alma tivesse sido desenhada e eu colorisse com ele!
Mas acho que fiz isso, sem saber, afinal menino é uma estrutura maravilhosa. E como me lembrava que eu o beijava naquele dia de tão feliz que estava, lápis vermelho, hoje, um beijo. Faz bonito com as outras crianças,

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Um livro do qual gostei muito


O monstrinho medonhento

Olá, pessoal!

"O monstrinho medonhento" obra do grande ator, autor e compositor Mário Lago é uma história interessante, um pouco alegre, um pouco triste. Surpreendente.
Creio que não será muito fácil encontrá-la nas grandes livrarias, pois foi publicado pela editora Moderna em 1984, tendo alcançado mais de 20 reedições. Recomendo que procurem num sebo, onde, sabendo-se escolher, pode-se encontrar bons livros. Meus filhos leram esse livro para trabalhos escolares e lembro-me que gostaram muito.


Quando os habitantes da Cidade dos Homens souberam que um monstro iria nascer, ficaram assustados e muitos deixaram a cidade. Medonhento nasceu no Palácio dos Horrores, herdeiro do senhor Monstro Terrível e de dona Monstra Perigosa. Para esperar pelo momento do nascimento, vieram monstros, feiticeiros, bruxas e todo tipo de criaturas pavorosas. Todos, muito ansiosos para ouvir o primeiro urro de Medonhento. A imprensa e a televisão lá estavam, é claro, para noticiar tão impressionante evento.
No exato momento do nascimento, o mensageiro do palácio gritou:
- Parem com essa barulheira! Está nascendo!
Quando Medonhento acabou de nascer, a multidão rodeou seu berço que era uma panela feita de esqueletos e todos ficaram aguardando o tal urro medonho. O urro que iria rachar o mundo no meio. O monstrinho abriu a boca e...sorriu ao dizer:
- Com licença...
Disse isso, com voz de anjo, o que é muito pior, em se tratando de um monstro.


Numa entrevista, o autor explicou que a história surgiu de uma pergunta feita por sua esposa, durante uma conversa a respeito dos dias atuais:
- Será que os filhos dos monstros não acham desagradável a profissão dos pais?
Convido o leitor a responder essa pergunta e descobrir outras respostas, lendo este livro muito, muito interessante.
Um beijo,
Regina Sormani

domingo, 1 de julho de 2012

PÁGINA DO ROSPO —7


DIÁLOGOS ANCESTRAIS



Rospo, precisa ser um pouco vaidoso.
A vaidade deixo com exclusividade para você, Sapabela. Uma sapa vaidosa é tudo de bom.
Hoje, Rospo, o sapo também se preocupa com a aparência. Ele também se cuida.
?
Se ficou mudo é sinal de que vai pensar. Promete? Vai?

Vice&Versa de julho de 2012


Queridos amigos!

Em julho, as escritoras Laura Bergallo e Stella Maris Rezende da AEILIJ RJ, fazem um belo Vice-Versa.
Parabéns e obrigada pela participação.
Um beijo,
Regina Sormani




Perguntas de Stella Maris Rezende para Laura Bergallo



1. Escrever para jovens e não ter o claro objetivo de ensinar, dar lições de moral, facilitar o entendimento, escrever sobre coisas que se acredita serem do interesse deles, ou seja, tudo o que distancia o texto da verdadeira Literatura, que é transgressão, rompimento com a expectativa, trabalho árduo com a linguagem, não fazer concessões, lidar com metáforas e elipses, com entrelinhas ou silêncios carregados de diferentes significados, tudo isso é um grande desafio para nós. O que pensa sobre essa imensa dificuldade em fazer Literatura e ao mesmo tempo encantar e seduzir o leitor jovem?

R - Acho que o maior de todos os desafios não é exatamente fazer Literatura e ao mesmo tempo encantar o jovem leitor. Esse é, sem dúvida, um grande desafio, ainda mais nos nossos tempos de tantos “brinquedinhos” tecnológicos de assimilação bem mais “fácil” e mais passiva, e de marketing muito mais poderoso. Mas, com relação a escrever literatura juvenil sem o claro objetivo de ensinar ou dar lições de moral, na minha opinião o maior desafio, mesmo, é ser capaz de romper as amarras do “politicamente correto” e ter a coragem e a ousadia de desafiar padrões estabelecidos pelos editores, por setores importantes da crítica especializada e por muitos daqueles que, em última análise, fazem a seleção dos livros que os jovens vão ler (uma vez que, infelizmente, no Brasil, a literatura para jovens só é maciçamente consumida através da escola, pública ou privada). Esse é um desafio realmente complicado, já que quem vai “consumir” o livro não foi quem o escolheu; são dois públicos distintos, em alguns aspectos até mesmo opostos. Encaixo aqui um pequeno texto do escritor Mario Vargas Llosa, que expressa exatamente o que sinto a esse respeito: “A literatura não é edificante, ela não mostra a vida como ela deveria ser. Ela antes, mais amiúde, ilumina em suas expressões mais audaciosas, com suas imagens, fantasias e símbolos, aspectos que, por uma questão de tato, bom, gosto, higiene moral ou saúde histórica, tratamos de escamotear da vida que levamos”. Como conciliar essa postura com as “necessidades” de um mercado (de literatura infanto-juvenil) que precisa “prosperar”? Pergunta dificílima de ser respondida...

2. Quais são os seus autores preferidos, entre estrangeiros e brasileiros? Se quiser, diga o motivo da preferência.

R - Desde que me alfabetizei li de tudo um pouco. Sempre tive uma imensa curiosidade de conhecer todos os tipos e estilos literários, de todas as épocas e lugares, sem preconceitos de nenhuma espécie. Ler, para mim, sempre foi uma viagem, um inigualável prazer. Assim, entre os clássicos brasileiros, posso citar meu preferido (que é um lugar- comum, sei bem): Machado de Assis. Entre todos os seus livros, dois me chamam especial atenção: “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Esaú e Jacó” – duas obras tão diferentes entre si que não saberia responder o porquê dessa minha preferência. Também gosto demais dos escritores latino-americanos, com destaque especial para Gabriel Garcia Marquez e Mario Vargas Llosa. “O Amor nos Tempos do Cólera” (entre outros igualmente maravilhosos), do primeiro, é um dos mais emocionantes livros que já li, e se liga muito estreitamente a um período de minha vida do qual sinto imensa saudade. Do segundo, amo em particular “Pantaleón e as Visitadoras”, “A Casa Verde” e “Tia Julia e o Escrevinhador”. Finalmente, não poderia esquecer a autora de livros tão emocionantes quanto “A Casa dos Espíritos”, “De Amor e de Sombra”, “Eva Luna” e “Paula”: Isabel Allende, em sua primeira fase (não gosto tanto de suas obras mais recentes). Quanto aos escritores de países mais longínquos que me vêm agora à memória, poderia citar Émile Zola, Eça de Queiroz, Kafka, Milan Kundera, José Saramago, Lewis Carroll e muitos outros por quem me apaixonei. Lista eclética, não é mesmo? E, como eu disse antes, totalmente sem preconceitos...

3. O que pensa dos best-sellers? Vendem muito bem, mas em geral não recebe prêmios literários, não são considerados Literatura. Existiria um modo de um livro se tornar best-seller e ser de alta qualidade literária? Poderia citar alguns exemplos?

R - Também não tenho nenhum preconceito contra best-sellers, a priori – isso seria uma redundância? Já li alguns de que gostei bastante, e muitos outros que detestei, me perguntando como é possível alguém gostar de tamanha porcaria. Como não especialista (sou amadora) na área de Literatura (tenho formação em Comunicação Social, sou apenas uma jornalista que escreve livros), posso somente falar de gosto, de opinião; não me sinto à vontade para fazer julgamentos técnicos. Entretanto, acho precipitado colocarmos todos os best-sellers no mesmo saco – o que cai na preferência do público nem sempre é bom, mas não é necessariamente ruim.
Um exemplo de best-seller que achei incrivelmente ruim: “A Cabana”, de William P. Young (chega a ser inacreditável que alguém tenha publicado uma “coisa” dessas). Dois exemplos de best-sellers de que gostei muito: toda a série Harry Potter e “O Filho Eterno”, de Cristóvão Tezza.


4. Amo seu livro “Jogo da Memória”, tanto o texto quanto o projeto gráfico. Ele foi finalista do Prêmio Brasília de Literatura agora em 2012, quando fiz parte da Comissão Julgadora. Pode me dizer qual é o seu livro preferido (de sua autoria) e o porquê?

R - Em primeiro lugar, gostaria de expressar minha surpresa: realmente não sabia que “Jogo da Memória” foi finalista do Prêmio Brasília de Literatura. Legal saber... Quanto à pergunta, ô perguntinha difícil de ser respondida! É mais ou menos como se alguém perguntasse de qual dos meus filhos eu gosto mais... Posso tentar escapar pela tangente, dizendo que recentemente tive uma experiência com a escrita que me trouxe muito prazer: escrever contos. E de terror. Com tecnologia no meio. Trata-se de meu mais recente livro, “Cibermistérios e Outros Horrores” (Rocco Jovens Leitores, 2011). Foi realmente muito divertido escrever esse livro. E com ele descobri que escrever contos é mais light. É que, quando estou escrevendo uma novela, fico o tempo todo envolvida, “tomada”, quase “mediunizada”. As ideias vêm com tanta força e tanta teimosia que não me deixam nem dormir. Um turbilhão interminável. E isso (embora seja muito bom!) cansa, sabe? Já quando escrevo um livro de contos posso fazer uns intervalos, entre um conto e outro, para relaxar da “tensão criativa”. O que me deixa mais zen... e eu adoro ficar zen!

Rio de Janeiro, 27/6/2012.


cred. (Foto de Ana Lasevicius)


Perguntas  de Laura Bergallo para  Stella Maris Rezende 


1. Você é uma campeã em premiações e menções honrosas, tendo inclusive um livro (Último Dia de Brincar, de 1987) entre os Melhores Livros de Literatura Infantil do Século XX. Mas é também professora, cantora, atriz, artista plástica e dramaturga – é uma artista completa. Como faz para conciliar tantos talentos, e ainda ter essa produção literária tão vasta e tão amplamente aplaudida pela crítica?

R - Desde menina, sempre gostei de teatro, de ler, escrever, cantar, desenhar, pintar, dar aulas, contar histórias, encantar as pessoas com palavras e silêncios misteriosos. Já participei de festivais de música, compondo e cantando. Já fiz televisão, quando interpretei a Fada Estrelazul do Programa Carrossel na TV Brasília/Manchete, e a Tia Stella na TV Capital/Record, no final da década de 1970 e no início da de 1980. Ganhei prêmios como pintora e fiquei muito conhecida em Brasília, onde morei por mais de 30 anos, principalmente devido ao sucesso da Fada Estrelazul e dos vários prêmios literários em nível nacional. Penso que sou muito organizada, metódica, o que me faz ter tempo para fazer coisas diferentes e ao mesmo tempo interligadas pelo objetivo único de encantar e emocionar as pessoas. No início, era mais complicado, porque eu lecionava o dia inteiro e à noite, para pagar as despesas. Escrevia, lia, desenhava, atuava na televisão e no teatro, cuidava dos filhos e da casa. Quando me aposentei como professora, tudo se tornou mais fácil, principalmente agora, que meus filhos são independentes e eu moro sozinha em Botafogo, de frente para a enseada e o Morro da Urca. Deixei de lado as artes plásticas, mas sinto que elas continuam no meu trabalho, ao descrever o cenário de um romance ou a figura de uma personagem. Nas escolas, ao conversar sobre meus livros, a atriz reaparece, quando leio um trecho ou um capítulo. Canto um pedacinho de música que faça parte do texto e isso me traz de volta a cantora que sou e que não pôde seguir carreira, porque a Literatura sempre foi a minha maior paixão, o meu maior sonho, a minha vocação mais verdadeira e mais exigente.

2. Nascida em Minas Gerais, você viveu algum tempo em Brasília e hoje mora no Rio de Janeiro. De que forma essa vida de certo modo “itinerante” influencia (ou influenciou) sua obra e seus múltiplos talentos? Para escrever bem é preciso viver bem?

R - Como sou mineira de Dores do Indaiá, perto da Serra da Saudade, e a mineiridade é impregnada de inquietude, um tresmodo de ouvir e falar na hora certa, com a palavra que surpreenda pelo humor, siligristida de sonoridades, ardilosa e tranchã, e por me chamar Stella Maris que significa estrela-do-mar, sempre me senti atraída pelo mar. Quando estive no Rio pela primeira vez, aos quinze anos, disse para mim mesma: eu quero morar nesta cidade. O sonho demorou a ser realizado, mas como diz a protagonista do meu romance “A mocinha do Mercado Central”, Globo Livros, “sonhar é uma boa prática”. No final de 2006 comecei a me organizar para mudar para esta cidade que amo cada vez mais, embora a mineiridade permaneça em mim e seja a matéria-prima do meu trabalho de escritora. Gosto muito de viajar, conhecer outros lugares e outros costumes, tudo isso enriquece o meu olhar sobre a condição humana. Para escrever bem é preciso viver bem, mas viver bem não é só viajar e conhecer outras pessoas e outros lugares. Machado de Assis é o nosso maior escritor e pelo que sei quase não viajava, nunca saiu do Brasil. “Viver bem” é principalmente observar e ouvir muito, ler e reler livros, prestar atenção em tudo, em cada detalhe, porque qualquer coisa tem algo a nos dizer, mesmo que seja uma simples xícara com a asa quebrada.


3. Você desenvolve a oficina Letras Mágicas, com a qual viaja pelo Brasil e por outros países de língua portuguesa a convite de escolas, universidades, bibliotecas, centros culturais, congressos e feiras do livro. Nessas andanças, como tem sentido a receptividade do público, especialmente o infanto-juvenil, à leitura e às atividades literárias? Você acha que as novas tecnologias estão diminuindo (ou podem vir a diminuir) o interesse e o tempo disponível para os livros? O que sugere a esse respeito?

R - A oficina Letras Mágicas tem tido uma receptividade maravilhosa, porque trabalho com simplicidade e provoco nos participantes o encantamento pela palavra e pelo silêncio, a entrelinha, a pausa, o que não foi dito claramente, o que foi apenas sugerido. Penso que o ser humano nasceu para a sofisticação, para o mais bonito e o mais bem-feito. Só precisa ter acesso a boas oportunidades de fruição estética. As novas tecnologias podem conviver muito bem com o texto literário, com o livro em papel ou em tablet, não importa. É claro que o livro em papel ainda vai encantar por muito tempo, é um prazer especial e mais poético. Meu filho mais velho, que adora
cinema, praticamente só lê Literatura e Filosofia em tablets, mas isso não diminui o valor artístico da obra que ele lê. Em resumo, haverá um dia em que o suporte não será o mais importante e sim a permanência da busca pela beleza da arte. A Literatura fala por silêncios e cala por palavras. Enquanto isso existir, existirá boa qualidade literária, e haverá leitores apaixonados por essa magia delirante da linguagem. Todas as artes são importantes, mas creio que só o texto literário toca mais profundamente a alma humana, permeia a perplexidade da existência, estimula a imaginação, o sonho, a criatividade, a vontade de reinventar o mundo. Lutar por um Brasil Literário, que era o maior sonho do nosso querido e inesquecível Bartolomeu Campos de Queiros, pode ser o modo de os livros continuarem a encantar as futuras gerações. Uma das maneiras de se lutar por um Brasil Literário é o escritor não abrir mão da boa qualidade literária e ter garra e coragem de falar sobre a importância dessa arte, ainda que use outras mídias, não importa, porque ao se tornar leitor de um texto literário, a criança, o jovem ou o adulto refinou o gosto, aprendeu a exigir mais, está mais rico em perguntas, questionamentos, sonhos e imaginação.

4. Finalmente, gostaria de conhecer um pouco de seus planos para o futuro. Quais são seus próximos projetos, entre livros, vídeos e outras obras?

R - Fiz o roteiro para um curta-metragem de um dos meus livros e é bem provável que eu atue como atriz. Além disso, ainda tenho o sonho de gravar um CD com uma velha letra composta por mim e musicada por Didi Moreno e outras letras com as melodias compostas pelo meu filho mais novo, Renato de Rezende. Estou trabalhando em novos romances e contos. Lancei 2 livros em 2011, outros 2 em 2012 e possivelmente lançarei mais 2 em 2013. Mas são textos com que venho trabalhando há vários anos. Nenhum livro meu demorou menos que 1 ano para ser escrito. Meu processo de escrita é longo e demorado, e como escrevo dois ou três textos ao mesmo tempo, de vez em quando lanço 2 ou até 4 num ano só, como aconteceu em 1988, ao ganhar o Prêmio Bienal Nestlé. Quero continuar gravando vídeos para o Youtube, falando primeiramente de cada livro meu, do meu fã-clube (jovens de Nova Iguaçu que conheci no Salão do Livro da FNLIJ em 2009 e se tornaram meus fãs, me acompanham em todos os lançamentos e me ajudam na divulgação da minha obra), dos meus tempos de Fada Estrelazul e Tia Stella. Depois, quero falar de livros de outros autores que admiro, entrevistá-los, trocar ideias, continuar lutando por um Brasil Literário. O importante é dar asas à atriz que nunca deixei de ser. A atriz que ama a Literatura, as metáforas, as elipses, segredos e revelações da misteriosa condição humana.

sábado, 30 de junho de 2012

Canto&Encanto da Poesia - História mal contada -


HISTÓRIA MAL CONTADA

Quis fazer a quarta história
com rainhas bem malvadas,
princesinhas delicadas
e os nobres mais diversos.
Quis também fazê-la em versos.
bem rimada e na medida
pra ficar mais divertida
de contar para vocês.

No início, até foi fácil:
inventei que um certo conde
escondeu, sei lá eu onde,
o chapéu da princesinha,
a coroa da rainha
e a peruca da duquesa,
pra depois, por malvadeza,
por a culpa no marquês.

Foi então que o feitiço
virou contra o feiticeiro:
o tal conde, traiçoeiro,
do marquês roubou a rima
e depois, ainda por cima,
afirmou que duvidava
que eu achasse a tal palavra,
mesmo que levasse um mês.

Não gostei da brincadeira
mas fingi que nem dei bola...
revirei minha sacola,
espiei atrás do armário,
procurei no dicionário,
no chapéu, no meu chinelo
e por todo esse castelo,
com apuro e rapidez.

Vasculhei quarenta quartos,
cem caixotes, mil gavetas,
cento e trinta e três saletas
e um porão empoeirado.
Tudo em vão! Desanimado,
sem poder fingir mais nada,
eu gritei: “Que palhaçada
que o maldito conde fez!”

Eu já ia desistindo
quando tive uma surpresa:
descobri, perto da mesa,
um baú misterioso
que eu, muito curioso,
logo vi estar trancado,
mas um pontapé bem dado
fez a coisa abrir de vez.

Achei lá uma coroa,
um chapéu, uma peruca
e- que coisa mais maluca-
um gatinho siamês,
um cachorro pequinês,
uma taça de xerez,
um boné de lã xadrez
e o coitado do marquês.

O chapéu, dei pra princesa,
a peruca, pra duquesa,
 a coroa, pra rainha,
um ossinho pro cachorro,
uma anchova pro gatinho
e um golinho no xerez;
pus o boné na cabeça...
e dei adeus pro marquês!

Poesia de May Shuravel Berger,associada da regional paulista da AEILIJ
Livro: Na casa do curinga publicado pela Companhia das Letrinhas.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

QUINTAS — 65

FRAGMENTOS

Mastigando mágoas em vez de buscar um alimento mais nutriente para a alma. Assim se comportam alguns.
Mal sabem que talvez devesse ser melhor desbloquear a audição e passar a ouvir o que está além das asperezas.
Seria bom resistir aos insensatos confrontos do cotidiano, às intempéries inócuas, aos desacertos, e olhar no pasmo das coisas que realmente importam o desassombro da alegria que espreita e vela pelos nossos almejares.
É mais fácil se perder ou perder aquilo que jamais deveria escapar entre os dedos. Por isso é preciso firmeza e audácia.
O que já foi sonho, o que já foi ilusão. Nada disso deveria se desfazer nas nódoas diárias.
Voltar ao que sempre nos alegrou. Ao que nos trouxe a alegria particular. O que foi colhido nos momentos mais solitários, aquilo que jamais nos irá trair. Pois fez-se parte integrante do que somos e do que seremos sempre.
Tem algo que a multidão não leva, que a arrogância não consegue desbotar, que o tempo não conseguirá desfazer, destecer. Algo que não escolhemos, mas nos foi agraciado, nos foi ofertado na infância, e nos mais íntimos encontros com nossa existência.
Sou o que fui. Fui o que serei. O exato querer do recolhimento, das escolhas e da alegria. Só essa alegria como vela votiva, só essa alegria me persegue, me protege.
Anos foram necessários para que eu compreendesse que jamais estive na multidão.


Marciano Vasques