quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A história de Heitor


A História de Heitor
Capítulo V

  Quatro luas depois do nascimento, Heitor, Hiran e Horácio já tinham a cor dos adultos, castanha, de um vermelho puxando para o dourado, a pontinha do rabo e das orelhas branca. Os pelos do
cangote já estavam mais longos e formavam uma pequena juba; na região dorsal tinham uma faixa de pelos pretos e as pernas, inteiramente pretas, como se acabassem de passar por um charco
cheio de lodo.
– Como estão crescidos –pensou Lorena – e lindos!
A tarde já estava pelo meio. Naquele dia os três filhotes brincavam com uma bola de capim seco. Ainda eram desajeitados e perdiam o equilíbrio, rolavam pelas inclinações do terreno, junto com a bola, levantavam uma nuvem de poeira. Com isso, pequenos pontinhos cintilavam como um arco-íris contra a luz do sol. Faziam barulho, rosnavam uns para os outros, disputavam o brinquedo. De repente, trocavam a brincadeira por algum outro interesse, cada um por seu lado: – um inseto, o voo de uma ave, algum bichinho rastejando.
Geralmente Heitor ficava mais isolado dos irmãos; era mais curioso e mais independente... e mais peralta. Ao ver aquela cena, Lorena sugeriu a Mercúrio que os levasse junto na caçada daquela tarde.
– Bem que pensei nisso – comentou ele. Foi na direção deles e avisou com firmeza que iriam caçar.
– Tenho algumas coisas para ensinar-lhes – disse. – E está na hora.
Chega de brincar por hoje.
Partiram para o interior da savana, na direção oposta ao rio. Logo desapareceram, confundiram-se com a paisagem, a cor do pelo misturada à cor do capim seco. O comportamento de Heitor e de seus irmãos mudou. Embora ele fosse o mais esperto e o mais atento, todos queriam aprender e imitavam o lobo, farejando, remexendo as narinas, ouvindo, mexendo as orelhas alternadamente, observando, procurando lugares mais altos, pequenas encostas, pedras ou cupinzeiros que fossem pontos de observação. Eles aprendiam muito rápido. Já sabiam o que fazer; só precisavam de um empurrãozinho para descobrir que sabiam.
Quando os lobos começaram a perseguir suas presas, um casal de falcões da região estava por perto. Túlio e Tina já sabiam que Mercúrio caçava por ali. Nem sempre as tentativas, ainda mais desta vez com os filhotes, de capturar uma codorna avistada dava certo.
Quando a ave escapava piando e conseguia voar, era a vez dos falcões fazerem um voo de mergulho para pegá-la. Quando terminou de escurecer, voltaram para a toca e caíram no sono.
No dia seguinte, foi Lorena que resolveu caçar com eles, porém no rio, aonde as aves vinham alimentar-se e os pequenos peixes e moluscos, com as águas mais baixas por causa da estiagem, estavam mais expostos e eram mais facilmente percebidos. Mais habituados ao convívio com a mãe, a responder aos seus estímulos e sinais, saíram-se muito bem e, ainda, divertiram-se muito. Porém, logo que começaram a algazarra, afugentaram tudo que havia naquele pedaço de rio...
– Coisas de filhotes – ponderou Lorena – quando tiverem que cuidar de si mesmos e conseguir alimento sozinhos; quando estiverem com fome, isso vai mudar.
Nilza Azzi

Apoio teórico:
Fernando Magnani - Biólogo
Diretor do Parque Ecológico de São Carlos / SP

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A história de Heitor



A história de Heitor - Capítulo IV

A região em que Mercúrio, Lorena e os filhotes viviam era habitada por vários lobos, dentro de territórios escolhidos e demarcados, nessa época reunidos em clãs, pois era o período de reprodução. Mercúrio percorria longas distâncias à procura de comida; ele era um hábil caçador, também muito elegante e altivo, capaz de avistar suas presas de longe. Como todos os de sua raça, tinha as pernas longas e um caminhar ondulante, porque mexia as duas patas de cada lado ao mesmo tempo; primeiro as duas de um lado e depois as duas do outro; muito diferente do andar dos outros animais que mexem as patas de forma alternada. Naquele dia de começo de primavera, Mercúrio havia subido no alto de um cupinzeiro de quase dois metros. Queria enxergar mais longe a savana abaixo, para poder vasculhar melhor seu território de caça. Decerto ele encontraria alimento, mas já não era tão fácil, principalmente com as secas prolongadas. Ele chamara Heitor para acompanhá-lo, mas o filhote não o seguiu; preferiu ficar ali perto do rio, com as brincadeiras habituais.
– Ainda não está pronto – pensou Mercúrio – mas da próxima vez os três virão comigo!

Foi nesse momento mesmo que avistou uma codorna. Deu um salto, com as duas patas da frente dobradas, prendeu a codorna contra o chão e devorou-a inteira, ali mesmo; há três dias não se alimentava.
Em seguida saiu a procurar outra caça para levar para os filhotes...
Quando chegou, já estava escuro e foi a vez dos filhotes refestelarem-se. Lorena saiu para caçar ali por perto; ainda não se afastava muito de suas crias. Quando amanheceu, todos dormitavam entre as palhas do capim.

Começara a esquentar e o clã estava perto do rio, numa região do cerrado que ficava mais perto do campo aberto, longe da mata. 
O capim estava cada vez mais seco e o calor, mais forte. A árvore onde Samantha costumava ficar estava com poucas folhas. Ela deslizava para o chão, logo cedo, e descia para as margens do rio. Algumas vezes entrava na água para caçar e se refrescar. No seu caminho, passava pela toca de Lorena, mas a loba estava sempre atenta; ela tinha poucas chances com os filhotes, que já estavam grandinhos e cada vez mais espertos, preparados para se defender.
Tudo que se via era terra ressecada, alguns grupos de árvores tortas e o capim da savana, também amarelado, onde um lobo poderia esconder-se, misturar a cor da pelagem com a do capim, mas onde o alimento era cada vez mais raro. Àquela altura, muitos animais passavam a maior parte do tempo refugiados na mata, onde ainda havia sombra e frescor. No solo inerte, porém, a vida apenas dormia, à espera das primeiras chuvas.

Rio acima, a família de lavradores, um casal com quatro crianças, também sofria com o calor. No quintal da casa, havia um balanço,numa das poucas árvores frondosas que oferecia sombra.
 Ali, as crianças brincavam até não aguentar mais o calor e a poeira. Então desciam para as margens do rio, entravam na água de roupa e tudo, para um banho gostoso e refrescante.

Nilza Azzi
A escritora Nilza Azzi é associada da AEILIJ regional de São Paulo

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Livro do mès




Olá pessoal!

Este livro, UM VERSO A CADA PÀSSO - a poesia na estrada real - com texto e ilustrações da minha querida amiga Angela Leite de Souza, é espetacular. As poesias são deliciosas e as ilustrações primorosas, utilizando colagens com material de costura e bordados. Simplesmente imperdível! Fotografia de Sylvio Coutinho. Autêntica Editora, Prêmio FNLIJ. São palavras de Angela, a respeito deste  trabalho que ela dirige ao leitor;

" E e assim que eu gostaria que você percorresse este livro: escolhendo à vontade o seu roteiro e como eu, guardando "na mochila" a poesia das ideias e emoções".....

Acima, a capa e abaixo, algumas belas ilustrações do livro.
Parabéns, Angela!


O CAMINHO VELHO



O CAMINHO DA BAHIA



UMA HISTÓRIA CAUDALOSA



VENEZA FLUMINENSE


sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Tatiana Belinky - intelectual do ano de 2012-


Tatiana Belinky eleita Intelectual do Ano 

Nota do Jornal da UBE nacional set.de 2012 nº36

Escritora teve 119 votos contra 58 de Adib Jatene
“Para receber o Juca Pato vou até de padiola”. Foi assim, esbanjando a alegria de uma menina de 93 anos, mesmo com a mobilidade restrita, que Tatiana Belinky reagiu quando o presidente Joaquim Maria Botelho perguntou-lhe onde gostaria de receber o Troféu Juca Pato como ganhadora do Prêmio de Intelectual do Ano. Ela obteve 118 votos contra 58 do cardiologista Adib Jatene, A entrega do prêmio deverá ser no auditório da Academia Paulista de Letras, em data ainda a ser confirmada.
A escritora que nasceu na extinta União Soviética e veio para o Brasil com 10 anos, concorreu com a mais recente de sua rica produção de contos e poesias para crianças: Língua de Criança - Limeriques às soltas, livro lançado pela Global Editora em 2011. A disputa entre ela e o cardiologista Adib Jatene – que concorreu com olivro 40 anos de Medicina – o que mudou? - em parceria com o ministro Alexandre Padilha, quebrou jejum de oito anos sem eleição direta do Prêmio Intelectual do Ano.
- A disputa reuniu dois candidatos fortes e carismáticos, avaliou Joaquim Maria Botelho, presidente da UBE. . Talvez, por isso, a eleição tenha sido mais qualitativa do que quantitativa. Eles foram votados em pelo menos 10 estados brasileiros e também por associados que moram nos Estados Unidos, França, Alemanha, Costa Rica e Nova Zelândia.


Parabéns Tatiana!
Muitos beijos de todos nós.

Regina Sormani

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A história de Heitor -



A história de Heitor

Cap. III

A pelagem de Heitor já estava mudando a cor para um marrom dourado. Isso lhe seria muito útil para a camuflagem no capim alto do cerrado. Mas as mudanças apenas começavam. Ah! Aquele jeito
de filhote indefeso, com as orelhas caídas e um olhar doce, estava desaparecendo. Surgia um jovem lobo de estirpe, as orelhas em pé, olhar atento, investigando o ambiente

Viver perto do rio era uma festa. Correr pelo raso, forrado de pedregulhos, espirrando longe a água limpa, a perseguir qualquer presa que se mexia – marrecas, aves aquáticas, peixes, moluscos –criava um rebuliço danado. O nado das marrecas era lento; já Heitor era rápido ao saltar e, com o treinamento, ia se tornando cada vez melhor caçador. Em terra, ele também aprendia a colher os frutos da lobeira, importante para a sua saúde e sobrevivência, e alguns outros da região, pois muitos eram os que podiam lhe servir de alimento. Ele também perseguia ratos ou codornas, quando encontrava alguma ciscando o chão.

Certo dia Lorena viu Heitor parado, observando alguma coisa. Ele não estava caçando... De vez em quando esticava a pata, mexia no capim e depois se afastava. A loba aproximou-se, seguida por
Hiran e Horácio, que andavam sempre mais perto dela. 
Heitor havia encontrado um ninho no chão e mexia nos ovos, mas quando rolavam, ele se assustava e recuava. Ao perceber que estavam bem próximos, querendo ser mais esperto, ele deu um salto, caiu sobre o ninho e os ovos estouraram, esparramando-se no capim, melando suas patas e seu focinho. O estrago já estava feito; os três irmãos dividiram o banquete e comeram até as cascas. Depois lamberam capim e as sobras do que havia espirrado no pelo.

Samantha espiava com interesse, enroscada em sua árvore de sempre, frustrada pelo fato de Lorena estar sempre junto dos filhotes, muito esperta em proteger suas crias. Mas ela ainda esperava por uma chance melhor. O território dos lobos era marcado com fezes e urina, um aviso para que os invasores ficassem longe de seu território. Mercúrio e Lorena também usavam sinais vocais, um uivo que ecoava longe – raouuuul..

O fim da tarde era o preferido para aquelas aventuras e, naquele dia, ainda houve outra, muito interessante. Eles estavam deitados no capim dourado e perceberam um movimento. Heitor foi o primeiro a ir atrás, mais esperto, como sempre. Era um calanguinho que ondulava pelo chão, tão rápido quanto podia. Heitor quase o perdeu, mas aquele era o dia dos lobos. Contra os três filhotes, o calango perdeu, pobrezinho; não teve chance. Nem houve caça à noite.
Aquele fora um dia perfeito.

Não muito longe dali, não o suficiente, acabara de mudar-se uma família de lavradores.
Enquanto, nos confins do cerrado, os lobos uivavam – raouuul, raouuul... – em sintonia com sua natureza, nos limites com  território dos humanos, podia-se ouvir o latido dos cães – au! au, au,
au, au, au! – auuul...


Nilza Azzi




Nilza Azzi é escritora associada da AEILIJ regional de SP

sábado, 15 de setembro de 2012

Caros leitores!

Na continuação de A HISTÓRIA DE HEITOR, da escritora Nilza Azzi, segue o segundo capítulo.
Um abraço da Regina Sormani

A história de Heitor

Capítulo II

Mais uma lua se passou. Os filhotes já se aventuravam até a entrada da gruta, curiosos por novas descobertas.
 Lorena, porém os disciplinava, agarrava-os com os dentes pelo cangote e os trazia para perto dela. Havia alguns nacos de caça para os filhotes, que Mercúrio havia deixado no chão, no meio da gruta. 

Foi coisa de uma pequena distração; enquanto Hiran e Horácio comiam sossegados, do outro lado, Lorena viu Heitor e um filhote de javali cobiçando o mesmo pedaço de carne. O filhote desgarrado estava com o bando que viera até o rio para refrescar-se. Heitor estava zangado e prestes a brigar, mas a loba não queria confusão na gruta, com seus três filhotes.
Então, apenas foi chegando perto, pata ante pata, até que o intruso, amedrontado saiu correndo.

– Ufa! Essa foi por um triz! – pensou Lorena.

Depois de duas luas, os filhotes começaram a sair e acompanhar as excursões pelas redondezas. Eles eram muito brincalhões; corriam, rolavam no capim, provocavam os irmãos, distraíam-se com tudo que havia pelo caminho.

Por essa época, Samantha, a sucuri, estava com fome e da árvore onde estava, espreitava qualquer movimento. Os lobinhos eram presas fáceis, distraídos enquanto brincavam ainda indefesos.
Apesar de acompanharem os pais, procuravam esconder-se, não saíam para o descampado.

Naquela manhã, Samantha achou que podia conseguir alguma caça e deslizou vagarosamente para o chão. Todos estavam bem perto do rio, pois o tempo estava seco e quente.

Heitor viu uma carreira de formigas cortadeiras e começou a acompanhar seu movimento. 
Elas carregavam pedacinhos de capim; paravam, trocavam cheiros, sinais, e continuavam seu caminho para o cupim, ali perto. Com isso, pela primeira vez, ele distanciou-se perigosamente da proteção de Lorena. E foi indo... foi indo... foi indo  cada vez mais para perto do rio – e de Samantha.

Ocupada em procurar frutas para comer e ensinar aos filhotes como reconhecê-las, a loba não notou a peraltice de Heitor.
A sucuri estava cada vez mais perto de Heitor. As formigas começaram a entrar pelo oco de um tronco e Heitor subiu nele para observá-las melhor. O tronco rolou um pouco, mas ele não ligou
equilibrou-se e continuou ali apoiando as patinhas com esforço.

De longe, Lorena viu o que ia acontecer. Samantha estava pronta para o ataque. Lorena correu, mas não deu tempo.
 Heitor perdeu o equilíbrio e antes que Samantha pudesse enlaçá-lo, o tronco rolou, junto com Heitor que cravara as unhas para agarrar-se, e caiu no rio, foi descendo com a correnteza, rio abaixo, levando o filhote assustado. Com a aproximação de Lorena, a sucuri esgueirou-se, sinuosamente pelo capim...

Por sorte, o rio ali era raso. Logo adiante havia uma curva e Heitor conseguiu pular para a margem. 
Lorena logo chegou, para colocar ordem e mandar o filhote com as orelhas baixas e o rabo entre as pernas, de volta para o lugar onde estavam os outros lobinhos

– Que dia! – disse Lorena quando encontrou Mercúrio.


Nilza Azzi

Apoio teórico:

Fernando Magnani - Biólogo

Diretor do Parque Ecológico de São Carlos / SP

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Técnicas de Ilustração - nº 3 -


ILUSTRADOR  ALEX GUENTHER  WWW.ALEXGUENTHER.COM(contato@alexguenther.com)

TITULO DA OBRA: MUNDO PERDIDO
TÉCNICA UTILIZADA: PINTURA DIGITAL COM O ADOBE PHOTOSHOP
SEGMENTO: LITERÁRIO INFANTO-JUVENIL


Descrição do Processo.




Fase1: Com base no objetivo proposto para a ilustração do livro é realizado um esboço, a lápis, da cena, e posterior pesquisa de imagens. Selecionadas  as imagens que mais se adequam aos objetivos do projeto, é feita uma fotomontagem, uma composição na qual se baseará todo o trabalho de pintura. Esta fase é trabalhosa e muito importante para definição de cores e texturas da pintura.



Fase 2: Com a composição montada, é hora de criar uma nova camada acima da montagem fotográfica e desenhar digitalmente com um lápis cinza os traços principais das imagens para delimitar os espaços de cores a serem preenchidos. Cada elemento ganha uma camada própria de cor.


Fase 3: Começa então a fase de pintura, com base na observação das imagens. Nem sempre a cor da imagem vai estar em harmonia com os outros elementos então, às vezes é bom testar cores similares. Preencho todos os elementos separadamente, muitas vezes já inserindo luzes e sombras primárias para verificar o contraste no todo.

Fase 4: Nesta fase o contraste geral já está definido. Com a criação de pincéis digitais personalizados consigo criar várias texturas, efeitos de água da cachoeira ao fundo, fogo no topo da montanha e fumaça do vulcão. Texturas dos dinossauros, rochas e pele da mulher também são feitas desta forma. Começo a inserir algumas fotografias de reforço para imagem, mesclando-as com os desenhos. Apenas a imagem do planeta e algumas texturas para o T- Rex foram utilizadas nesta composição.



Fase 5: Nesta etapa a imagem está quase finalizada. Faço camadas de ajustes de brilho e contraste, cores e ajusto pinturas mal acabadas. Reflexos e pequenos detalhes são feitos nesta fase final.