quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Conheça como funciona o Ônibus-Biblioteca - Roteiro de Leitura

O Ônibus-Biblioteca é um projeto da Secretaria da Cultura, idealizado por Mário de Andrade em 1935. Hoje, o projeto atende as regiões perifericas de São Paulo, que são desprovidas de bibliotecas.
Existem doze ônibus funcionando, cada um atende seis pontos, perfazendo setenta e dois locais.

Conheça este belo projeto assistindo a entrevista do bibliotecário João Batista para o Canal do Ônibus:

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

QUEM CONTA UM CONTO

Olá!
Mais um mês se passou e mais um ano chega ao fim. Foi ótimo passá-lo com você!
E para encerrar 2012 com chave de ouro, convidamos a escritora paulista
SIMONE PEDERSEN. Ela nos trouxe uma auto-reflexão que, de forma delicada, traduz o espírito natalino.
Curtam, pois

UM ENCONTRO DO DESTINO
Ontem, eu estava em Araraquara a caminho de uma escola. Havia me hospedado em um confortável hotel do outro lado da cidade e pelo mapa parecia um caminho bem simples.
E era. Para quem lá vive. São tantas rotatórias, e eu, que nunca me perco, parei para pedir informações 28 vezes. Na última, já nas redondezas segundo meus cálculos infalíveis, interpelei um homem que passava calmamente na calçada. Eu havia sido muito bem tratada até então, com sorrisos e pequenas reuniões sobre qual seria o melhor caminho para uma paulista com cara de perdida. O que eu não esperava era que se esse homem dissesse que ia para aqueles lados exatamente, e se eu quisesse, ele iria comigo para mostrar o caminho que era um tanto complicado, apesar de estarmos perto do local.
Em um segundo eu me lembrei de todos os conselhos de menina: “nunca pegue carona de estranhos”, pensei nos filmes de terror, seriados e serial killers da vida. Respondi seca que eu não costumo dar carona para estranhos. E foi nesse momento que meu mundo desmoronou. A minha voz soou tão seca que me fez tremer, como se tivesse rachado o coração ao meio. Até tive tempo de me perguntar quem eu era, quando ele se debruçou na porta colocando parte da cabeça dentro do carro, tirou o boné e me disse:
- Eu tenho 86 anos, sou pai de três e avô de cinco, a senhora não precisa ter receio algum de mim. Em sou um homem de bem.
Realmente, como eu poderia desconfiar de alguém que eu escolhi aleatoriamente? Um senhor de tanta idade. Talvez pelo leve cheiro de cachaça. De qualquer forma, eu me senti diminuir até virar algo invisível aos meus olhos. Envergonhada, pedi que entrasse culpando os dias de hoje e a violência pela minha falta de educação e humanidade. Ele entrou e continuou a me ensinar que eu realmente havia sido uma árvore seca de galhos afiados:
- A senhora não repare nas minhas roupas, é que eu estava trabalhando em casa e sai de qualquer jeito.
Foi então que reparei as calças costuradas no meio da perna, de forma caseira, tentando remendar o que há tempos eu e outros haveríamos jogado fora. Se me sentia invisível, comecei a sentir certa tontura. Acho que era vergonha, vergonha de mim, que justamente nesse dia estava um tanto arrumada. Ele falou em trabalhar com aquela idade. Tive medo de perguntar o que ele fazia.
- O senhor não viu como eu fico em casa, respondi tentando remendar o nosso encontro, que como a calça dele já não tinha mais conserto.
Ele me ensinou todo o percurso, com todas as rotatórias e possibilidades para alguém que eu havia pré-julgado estar embriagado.
Na porta da escola, me mostrou a entrada principal, falou um pouco sobre a fábrica de suco de laranja na frente e se despediu. Eu disse que poderia levá-lo até a casa do amigo, mas ele declinou. Disse-me que preferia chegar a pé, que um carro com placa de uma cidade tão distante chamaria muito a atenção.
Quando chegou à esquina, ele se virou e acenou para mim com um sorriso largo e o boné na mão direita. E eu fiquei sentada no carro, o observando diminuir a passos largos, assim como eu mesma diminui a cada palavra dele.
Ainda hoje continuo pequena. E essa crônica não é história de escritora. É a história de uma pessoa que não enxerga mais a bondade humana, mesmo quando ela se apresenta vestida de bom velhinho. Shame on me.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A história de Heitor



Capítulo X

Heitor caminhou a noite inteira, guiado apenas por seu instinto e pelos sentidos, com a enorme necessidade de encontrar comida. Mas o solo, que mais parecia um carvão, não mais guardava os odores de quem o povoara, fosse vegetal ou animal. Algumas sementes ainda brotariam, se os campos não fossem invadidos, mas isso ainda ia demorar.
Ele seguia sem um rumo certo, num território que não lhe pertencia, numa terra estranha e meio morta.  Mas o horror que lhe causara a cena dos lobos, naquela colina que levava à toca dos humanos, lhe dava forças para afastar-se cada vez mais daquela região.
 Heitor ainda custava a acreditar no que vira; aqueles belíssimos animais perto dos homens, quase comendo em suas mãos, sem nenhuma distinção mais dos outros bichos que tinham aquela linguagem estranha que ele já ouvira – au, au, au... auuuuul! – Aquilo era triste demais.
Quando estava quase amanhecendo, ele encontrou um ninho abandonado, que caíra de uma árvore, com dois ovinhos. Foi tudo que comeu. Ali mesmo deitou-se na sombra, encolheu-se e dormiu um pouco.
Heitor encontrou uma bela mata, com uma nascente de água limpa e fresca no meio de uma clareira. Finalmente havia caça abundante, água e frutos. Aproximou-se, subiu numa pedra e ficou esperando o melhor momento, escolhendo qual seria a sua presa. Depois de comer e beber, deitou-se e dormiu de novo. Mas, quando menos esperava, ouviu aqueles estalidos e aquele cheiro dos humanos que o perseguiram. Ele quis correr, mas dessa vez suas pernas não obedeciam; não conseguiria escapar, era seu fim.  Tudo ficou escuro como a noite fechada, ele deu alguns passos, perdeu o equilíbrio e começou a cair. Com o susto, abriu os olhos e viu que nada daquilo era real; estava delirando por causa da fraqueza ou talvez tivesse sido um sonho.
Ele não prosseguiu antes do fim da tarde, cada vez com menos forças.  Continuou como no dia anterior, com suas últimas forças. Depois de algum tempo encontrou uma poça de água, retida num tronco oco e comeu alguns insetos, mas era pouco para suas necessidades.
Heitor já não conseguia sustentar a marcha por muito tempo. Percorria certa distância, na direção que seu instinto indicava, mas logo parava, acreditando que não iria mais em frente.
Estava cochilando, numa dessas pausas, quando sentiu que estava sendo cheirado. Era outro lobo, logo percebeu. Abriu os olhos e viu um lindo lobo vermelho, parecido com Mercúrio.
Heitor encolheu-se, mas o outro logo disse:
– Perdido por aqui? – e continuou – Sou Cacá e vivo em terras vizinhas.
– Estou vagando, sem água e sem alimento – Heitor respondeu. Estou muito fraco, sem forças para continuar.
– Depois você me conta o que aconteceu. Parece mesmo que está muito fraco para caçar, mas se conseguir reunir um pouco, só um pouquinho mais de forças, eu o levo até uma lobeira perto daqui, carregada de frutos.
Ele conseguiu! Não era à toa que ele era um habitante do cerrado, um animal resistente.

Nilza Azzi




Desenho  de Dener (E.E. Coronel Adolfo de Aguiar - Araxá - MG)



quarta-feira, 28 de novembro de 2012

PÁGINA DO ILUSTRADOR - 26 - LAERTE SILVINO

PÁGINA DO ILUSTRADOR - 26


Nesta edição apresentamos LAERTE SILVINO

Laerte Silvino nasceu em Recife, é ilustrador e quadrinista. 

Trabalhou em diversas empresas como ilustrador e hoje divide suas atividades entre seu estúdio e o jornal em que trabalha. Já publicou seus desenhos e quadrinhos em várias revistas nacionais, livros didáticos, de quadrinhos e de literatura infantil e juvenil. 


ILUSTRAR É PRECISO
Laerte Silvino

Ilustrar não é tarefa fácil, ao contrário do que muitos pensam. Conceber uma única imagem para tantas palavras é algo muito difícil. Tem que ter a precisão e a paciência de de um cirurgião para escolher a forma, a técnica, as cores, a síntese e a ideia certa e certeira para aquele texto. E a imagem tem que acrescentar alguma coisa ao texto, se não, para quê serviria a ilustração?

Por ser um trabalho por diversas vezes e por diversos motivos árduo, a gente de vez em quando pensa em desistir. Largar os pincéis, os lápis e o computador e se enfiar numa gravata, num escritório, bater ponto, ter horário normal. Mas, e aí, a vida não ficaria com menos cores? Como viveríamos sem nunca mais ver o olhar alegre de uma criança maravilhada por aquele livro que você ilustrou?

Uma vez que se tem essa sensação não há como voltar. Não há como desistir. Não há como querer gravatas, escritório, ponto e horário. Pelo contrário, você quer fazer mais desenhos, fazer mais livros, fazer mais crianças felizes.

Como disse Fernando Pessoa: "Viver não é necessário; o que é necessário é criar". Acrescento que criar também é uma forma de viver, por isso Ilustrar é preciso, é tão preciso.

CONHEÇA MAIS 
SOBRE O TRABALHO 
DE LAERTE SILVINO
PRÓXIMA EDIÇÃO: BRUNO GROSSI (BEGÊ)

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SOBRE A "PÁGINA DO ILUSTRADOR"
DO BLOG AEILIJ PAULISTA
Venho convidar os colegas ilustradores para participar da página do Ilustrador no blog AEILIJ Paulista.
Não é necessário ser de São Paulo, pode ser de qualquer Estado ou mesmo fora do Brasil; o importante é ser associado.
 
Covido também os coordenadores regionais a repassarem estas informações aos ilustradores para que todos tenham conhecimento deste canal.
Não há regra, você pode colocar um passo-a-passo ou falar um pouco sobre seu trabalho...
Abaixo vocês podem conhecer as outras edições:

domingo, 25 de novembro de 2012

A história de Heitor


Capítulo IX

Estava no meio do descampado, debaixo de uma árvore baixa e retorcida, quando viu uma sombra que avançava lentamente em sua direção. Prestou um pouco mais de atenção e viu que não era uma sombra: Era Tinoco, naturalmente acompanhado da própria sombra. Heitor não sabia como seu amigo aguentava aqueles pelos tão compridos. O rabo, imaginava, era para que ele não se desequilibrasse e inclinasse todo para frente com aquele focinho tão comprido. Não teve ânimo para sair do lugar e esperou por Tinoco ali mesmo. O  tamanduá chegou bem perto e só então Heitor reparou em suas unhas enormes. Ficou feliz por serem amigos.
– E então, Heitor? O que faz aqui tão desanimado?
– Tive um encontro com os humanos. E o meu não foi dos bons; fugi de lá e não posso voltar. Concordo com você: aquele é um lugar muito perigoso. O pior, Tinoco, é que já procurei, mas aqui não há comida para mim. Estava esperando o começo da tarde para caminhar mais um pouco, procurar alguma coisa para comer. Há dois dias saio para caçar e nada encontro, nem caça, nem frutas; nem mesmo no rio acho alimento.
– Outros animais passam por aqui e eu fico sabendo das coisas. As notícias correm.
– Vou chamá-lo de Toró, posso? Cada vez mais acho que este novo nome lhe cai muito bem. E Tinoco ria todo contente. "Lembra" do toró que caiu quando nos conhecemos? Desde aquele dia não vejo a hora de nos encontrarmos, para falar sobre isso; aquela chuva foi seu batismo, Toró. – O que acha?
– É bonito, Tinoco, obrigado. Combina mais com um lobo do cerrado?
– Certamente, Toró. Soa muito bem.
– E será que vou me acostumar?
– Claro, Toró. Você ainda é novinho; terá muito tempo.
– Está bem! – disse – Talvez você tenha razão, mas tenho um assunto mais urgente para resolver e não sei como: Estou começando a ficar com muita fome.
– É sobre isso mesmo que eu ia falar, Toró. Alguns lobos, de passagem por aqui, contaram sobre um lugar onde os humanos – imagine – os humanos estão dando comida aos animais famintos por causa da destruição de seus territórios. É só caminhar na direção daquele cumaru enorme, dali siga sempre em frente até a Pedra do Tamanduá, – você vai reconhecer, porque é parecida comigo – logo se avista um campo e, bem longe, no fim desse campo, o lugar onde a comida está. É só comer.
– Sem precisar muito esforço?
– Isso mesmo. Sem precisar gastar tanta energia!
– Frutas ou bichos?
– Carne, respondeu, pondo a língua para fora. Pena que não haja frutas e algumas formigas.
– Obrigada, Tinoco. Vou procurar esse lugar, então.
– Por nada, Toró. Amigo é pra isso mesmo.
Heitor ergueu-se, espreguiçou e partiu na direção indicada. O cumaru era muito grande mesmo e passara bem pela queimada, por ser muito alto. Mas não havia uma sombra sequer dos bichos de poucas luas atrás, qualquer das espécies que vinham em busca de seus frutos, tanto do chão, como do ar. Porém, dava para perceber uma trilha no chão, rastros de outros animais que haviam passado por ali. Depois de caminhar um  bom tempo, um longo tempo para um lobo faminto, ele avistou a pedra. Com boa dose de imaginação ela podia parecer com um tamanduá.
– Que vaidoso! – pensou Heitor.
O campo era enorme e, de onde estava, Heitor não avistava nada, mas como tinha confiança no amigo, seguiu em frente. Andou e andou, e só ao cair da tarde avistou o lugar. Aqueles humanos eram diferentes dos que encontrara anteriormente; usavam umas peles compridas que o vento sacudia. Eram muito estranhos, mas não inspiravam medo; pareciam bondosos e amigáveis. Era um lugar bonito, com uma colina de pedra toda arrumadinha em pedaços iguais.
Heitor viu alguma coisa ser colocada no alto daquela colina; viu um lobo desconhecido subir, agarrar o alimento e sair correndo. Ouviu o barulho do osso que ele fora roer no escuro, depois viu mais um outro e mais outro. Sem conseguir resistir, iam buscar o alimento que lhes eram oferecidos, mas logo saíam nervosos e assustados, com o rabo entre as pernas. Ele também percebeu vários humanos parados lá em cima. Não eram ameaçadores; nada fizeram a não ser olhar. E um daqueles humanos trazia a comida e soltava uns sons estranhos, que seu instinto não percebia como ameaça, mas ainda assim entendia como perigo. O cheiro dos humanos não era familiar, nem agradável.
Heitor, um lobo-guará altivo, belo, já com quase um metro de altura, misterioso e selvagem, um verdadeiro filho do cerrado, não podia aceitar aquilo. A fome era muito grande, mas ele era garboso demais para sofrer aquela humilhação. Ele queria seguir seu instinto, procurar, de acordo com os seus sentidos, aquilo que a natureza pródiga do cerrado oferecia, fossem frutos, caça ou aqueles animais que encontrava no rio enquanto ainda era um lobo filhote. Decidido, virou-se e foi embora dali.

Nilza Azzi


Desenho de Bruna Carolina Lourenço
E.E. Coronel José Adolfo de Aguiar - Araxá - MG

Canto & Encanto da Poesia






O trem e o rio


Por cima daquela ponte
Vai um trenzinho dizendo:
Vou correndo, vou correndo, vou correndo!

Debaixo daquela ponte
Passa um riozinho cantando:
Vou levando, vou levando, vou levando!

Afinal, pra que a pressa,
Que coisa, que força é essa,
Por que toda essa corrida?
O trem e o rio respondem:
É a vida, é a vida, é a vida!


Do livro REBENTA PIPOCA de Regina Sormani, editora Pioneira. Ilustrações de Marchi

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Imagens da Homenagem AEILIJ SP 2012

Queridos amigos
Aconteceu, dia 21 de novembro, às 19,30 hs, na Casa das Rosas, a homenagem prestada pela AEILIJ paulista à ilustradora Eva Furnari.
Parabéns aos organizadores do evento, aos associados, e  à homenageada.
Um beijo,
Regina Sormani