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domingo, 5 de agosto de 2012

PÁGINA DO ROSPO — 12


NA PADARIA RUBI


—Qual a razão do ódio às sapas nos últimos 2000 anos?
—Gore Vidal responde, minha querida.
—Obrigado, Rospo, mas sei que tem algo a ver com...
—Isso mesmo!
—Já aconteceu no passado, no período medieval, por exemplo, de se disfarçar a defesa de um totalitarismo com...?
—Com...?
—Bem, todo poder centralizado resvala no totalitarismo... ou serve de cobertor...
—Sapabela, hoje é domingo, dia de se refletir leve.
—As coisas imensas não sossegam...
—Verdade, mas às vezes você quer pensar pelo mundo...
—Rospo, acredite, não estou sozinha...
—Eu sei, milhões de sapas no mundo também já estão refletindo sobre as razões da opressão e do ódio às sapas nos dois últimos milênios.
—Rospo, você anda esquecido...
—Você que pensa! Quero convidá-la agora para...
—Aceito!
—Vamos até a padaria Rubi.


*
—Rospo, nada como o licor de domingo... Logo ao amanhecer, abrindo o dia...
—Verdade, Sapabela. Estarei aqui sempre, com você...
—Às vezes, ser alienada é uma opção. Você pode ficar parada, com seu barco, na beira do cais, esperando a noite chegar... E depois, adormecer... E então se dar conta da sua dormência durante o dia...
—O entorpecimento seria a vida sem autenticidade, não é?
—Escritores, poetas, filósofos, artistas, sempre alertaram, emitiram seus gritos como feixes de luzes sonoras de besouros celestiais, sempre alertaram, clamaram, pela vida autêntica...
—Por que me disse que ser alienada é uma questão de opção?
—Às vezes, Rospo. Na maioria dos casos é opressão mesmo... Mas tem casos em que a sapa se nega a ver, e a lutar... Prefere viver uma circunstância de acomodamento... Se todas entendessem que o sacolejar da alma é tudo. As aventuras só querem existir... Não podemos bloquear a energia universal que nos perfura, nos atravessa, a cada nova manhã...
—Uma coisa é o medo... do desconhecido...
—Uma vez, faz tempo, uma sapinha perguntou: “Por que devo temer em vez de somente amar?”
—Incrível! Você voltou ao ponto de partida!
—Rospo, certa vez estava lendo um livro e o considerei meio difícil, porém saboroso...
—E então?
—Então, compreendi pela primeira vez que eu era a grande parceira do autor... E compartilhei o livro com a minha alma... Fui em direção ao livro. Estive nele... Descobri que ele estava lá, em minhas mãos, esperando por mim...
—Sapabela, você é a alegria da minha vida.


sábado, 28 de julho de 2012

PÁGINA DO ROSPO — 11





A GRANDE QUADRILHA




Lá ia o Rospo, braços agitados, correndo pela praça, quando foi avistado pela velha amiga:
—O que aconteceu, meu caro amigo? Está apreensivo... Posso ajudar?...
—Só de ouvir sua voz, Sapabela, já me sinto amparado.
—Mas o que o aflige, meu sapo?

—A quadrilha, a grande quadrilha...
—Que quadrilha?
—Roubou o tempo, o tempo precioso...
—Sem pleonasmo, meu querido. Assim como o amor é sempre grande, o tempo é sempre precioso...
—A quadrilha o roubou...
—Que quadrilha roubou o seu tempo, meu amigo?
—O meu não, o tempo da multidão...
—Vamos com calma. A multidão anda tão ordeira, que parece em nada ter sido “surrupiada”...
—Pois foi mesmo roubada, Sapabela! Essa quadrilha é implacável...
—Que quadrilha é essa, Rospo?
—Seus membros, os piratas da vida...
—Que piratas da vida?
—A vida anda sendo pirateada... Às vezes um glamour nada mais é do que a ausência de clamor.
—Rospo, assim me pego de poesia...
—Essa quadrilha está dispersa, em todos os cantos e nos recantos, que são os supostos aconchegos requentados...
—Muito bem, como o sapo simplesmente nasceu para o requinte deveria recusar o requentado, que é a vida sem autenticidade...Mas, fale mais um pouquinho dessa quadrilha...
—Falarei de seus comparsas...
—Estou esperando.
—Só um pouquinho de alento, Sapabela.
—Claro, veio correndo agitado, todo apavorado...
—Seus membros são: o excesso de televisão.
—Que mais?
—As conversas infrutíferas, as flores banais do cotidiano, os desentendimentos trazendo atritos improdutíveis, inférteis...
—Tem atrito fértil?
—A vida é atrito, o universo, o amor...
—Sei, mas...o que seria um atrito infértil?...
—Indelicadezas, pirraças, invejas, ciumes...
—Engraçado, Rospo... Quando tomo conhecimento de que alguma colega está com inveja ou ciume de alguma conquista, alguma vitória minha, sempre fruto da minha luta, fruto, e não furto, pois às vezes somos furtados em nossos melhores sentimentos. Pois bem, quando sei que despertei ciumes ou inveja, comemoro...
—Comemora?
—Sim, faço um bolo de cenoura, e vivo esse momento tão gostoso na casa onde moro... Festejo, em mim, o fato de provocar ciúmes, inveja...
—Muito bem, mas não se esqueça: Quando for comemorar a inveja de alguma amiga, convide-se.
—Convide-se?
—Sim, isso quer dizer, convide-me. Assim, reforça duplamente a sua alegria, pois estarei ao seu lado...
—Amigo, isso é papo de “paixão por bolo de cenoura”...
— Pois bem sabe, adoro bolo de cenoura...
—Então, Rospo, entendi essa sua quadrilha...
—É isso mesmo! A quadrilha composta dos mais terríveis malfeitores, que são as piadas preconceituosas, as conversas infrutíferas, as agressões, as indelicadezas, os temores, a falta de iniciativa, o marasmo, a rotina... Tudo a nos roubar o tempo, pois, se não sabe, o tempo que se perde jamais se recupera...
—Rospo, qual o primeiro passo para se livrar dessa grande quadrilha?
—Uma vassoura para retirar os entulhos da mente, varrer a mente, deixar a “alma” bem limpa, transparente, se for necessário, um esfregão...
—Sei, ler um bom livro, ouvir uma boa música...
—O passo seguinte é disciplinar o seu querer.... Pois o querer está a nos piscar, basta ter a “boa vontade”. De posse desse querer, da consciência de que se quer o que é bom, basta então, agir em retidão, e viver intensamente, poder dormir num travesseiro de macela. Um travesseiro, eis a grande travessura dos que vivem o dia em sua pureza.
—Rospo, faz tempo não o convido, vamos tomar um licor de anis?... E... um sorvete de …
—Yupiiii!
—Não tem outra forma de dizer que aceita? Esse Yupiiii! é muito escandaloso. Todos estão nos olhando...
—Sapabela, como é bom conversar com você.
—Antídoto para enfrentar quadrilha que rouba o tempo, não é?



MV

sábado, 21 de julho de 2012

PÁGINA DO ROSPO — 10





NÃO SE TRATA DE NOSTALGIA



—Rospo, você é saudosista? É nostálgico? Vive em nostalgia?
—De modo algum...
—Mas vive valorizando as coisas boas do passado. Para você o passado é um lugar onde tudo era melhor, era encantador, e maravilhoso.
—Absolutamente não, Sapabela. Estou adorando essa sua provocação. Ocorre que recentemente alguém me disse algo assim, que não se trata de nostalgia: é que os referenciais ainda são muito bons.
—Sei, quando você fala de Taiguara, do “Espírito -que-anda”, do Fellini, da Gigliola...
—Gigliola ainda vive.
—Isso não importa aqui, pois a referência é a sua voz e as suas canções...
—Sei.
—Então, os referenciais ainda são bons?
—Os melhores, ainda. Então, não se trata de passado, de nostalgia, mesmo porque nesse caso o tempo é apenas uma ilusão, uma questão de ótica, compreende? Uma quimera.
—Quimera?
—Sim, Cronos não atua nessas recordações... Pois elas estão fora do tempo. Uma canção que nos conquistou pela sua beleza e pela sua mensagem, que nos foi capaz de invadir o nosso coração, não é de ontem, não pertence ao passado. Tem sapo que diz, de forma boba, que tal coisa é do passado. Isso é do Passado, e debocha, e alguns até leem livro de 2000 anos... O passado não existe para a Arte...
—Certamente. Mas disse algo curioso: que nem tudo no passado era ou foi encantador e maravilhoso...
—Bem sabe, amiga. Em termos mundiais, guerras, e em nosso brejo, muito sofrimento, a exploração dos operários, os preconceitos contra a sapa, as injustiças, tanta coisa...Mas tivemos a Arte, como sempre a teremos...
—E na sua infância, Rospo? Tudo uma maravilha...
—Sabe que não, Sapabela, mas tive os meus reforços, os meus apoios, os meus mecanismos de defesa interior...
—Sempre fala nisso. Mas já sei, o Flash Gordon o salvou...
—Não só ele... Mas, também o próprio contato com a natureza, as folhagens, o velho orvalho deslizando na lisa folha...
—Tem algo triste que o marcou profundamente? Que tenha causado uma profunda impressão em seu ser?
—Quando eu era um sapinho de seis anos, ou cinco... Vi uma cena que me influenciou para o resto de minha vida...
—Expressão esquisita essa, meu amigo! O “O resto de minha vida”...
—É, estranho... Pois é, algo me causou a mais viva impressão...
—Se não quiser falar...
—Vi um cavalo deitado no chão, sendo chicoteado até...
—Não precisa falar mais, Rospo. Pare! Não quero chorar. Mas é incrível essa coisa que você diz de que tinha os seus recursos...
—Maravilhosos, Sapabela. Uma contadora de histórias... Sim, tive uma em casa, os quintais, tudo contribuindo para a prolongação de meu trapiche interior... Para a proteção de minha infância...
—Rospo, podemos dizer que o que era bom ainda é bom, mesmo que a geração atual desconheça?...
—Em nossos dias tão refinados de informação, o desconhecimento é um assombro...
—Deveríamos voltar à época do espanto?
—Sim, espanto no sentido de encanto... Hoje, coisas extraordinária acontecem, mas o encanto não se mobiliza, não se torna forte, real, autêntico. Ele se dissolve no ar... Morre na praia do coração.
—Rospo, então vamos viver o presente intensamente, mas com as coisas que sempre nos comoveram...
—Esse é o caminho, e também compartilhando o que hoje se faz importante no coração...
—Considera que a Rede Social é mesmo a sinalização de um novo tempo?
—Claro, eu posso estar na Rede Social com os espíritos mais encantadores do mundo hoje...A Rede Social, eu já disse, depende de cada um.
—Disse bem. Rospo, a conversa está boa mas não está regada.
—Regada?
—É, um licorzinho, você sabe...
—Demorou!
—Não fez o Yupiiii!
—Não fiz?
—É... Consegue fazer baixinho?
—Yupiiii!
—Isso é baixinho, Rospo?

sábado, 14 de julho de 2012

PÁGINA DO ROSPO — 9




A BENZEDEIRA E O DOUTOR


—Rospo, veja! Erva Cidreira!
—É mesmo! Brotando no cimento, na beira da calçada.
—Isso faz pensar numa pergunta.
—Viva!
—Qual a diferença entre a benzedeira e o doutor?
—Não direi que um é representante da cultura popular e o outro, da cultura acadêmica, científica. Embora, naturalmente, pudesse até ser uma resposta. Mas você quer alguma coisa além, eu a conheço, Sapabela.
—Vá em frente, Rospo.
—A benzedeira era uma sapa que conhecia o segredo das ervas, das plantas, das raízes...Ou seja, era alguém integrada com a natureza, em sintonia com a harmonia das folhas, com os mistérios da natureza... Vivia numa comunhão absoluta com as forças ancestrais das seivas da terra.
—E o doutor?
—É aquele que é dotado de um diploma acadêmico, e que exerce o seu conhecimento nos parâmetros científicos.
—Ele rejeita a sabedoria popular dessas sapas?
—Não exatamente. Não creio nisso. Veja que lá na creche havia um pé de dipirona próximo ao portão.
—E o que tem isso a ver?
—O doutor até sabe que o conhecimento popular não deve ser desprezado. Mas ele segue firme na sua sabedoria científica, e é nela que a Ciência avança, a medicina evolui.
—Muito bem, mas tem uma coisa interessante, Rospo.
—Diga, minha amiga.
—Está no plano da oralidade, onde flui a comunicação de forma mais eficaz entre os sapos...
—Avance.
—Tanto a benzedeira quanto o doutor devem olhar em seu rosto e falar com você, se expressar.
Nem ela nem ele pode dar a sua receita sem ao menos dialogar. Não é possível supor que um ou o outro vá tratar de sua doença sem ao menos lhe dirigir a palavra. Acredito que o começo da cura está na palavra, nos olhos, e só depois no remédio receitado.
—Sapabela, o que está exatamente querendo dizer?
—Que tanto o doutor quanto a benzedeira acumulam e são detentores de um saber que o leigo não tem.
—E então?
—Tanto ela, a curandeira, quanto ele, o cientista, devem ser sempre solícitos. Devem olhar em seus olhos, e ofertar a palavra, edificar um diálogo...
—Continue.
—Não basta uma caneta e um papel para uma receita. A melhor receita começa no verbo, na alma aberta.


sábado, 7 de julho de 2012

PÁGINA DO ROSPO — 8


A ARTE NÃO SE COMPRA



—Estou muito feliz por você ter aceito o meu convite, Sapabela. Faz tempo não vinha ao museu.
—Eu também estou feliz, Rospo. Recentemente, me pus a pensar no preço que pagam por telas clássicas...
—Curioso isso, Sapabela.
—O que tem de curioso? Quem tem dinheiro pode adornar a sua morada com coleções de arte...
—Isso não me parece simples, de imediato.
—Rospo, eu o conheço. Diga o que está pensando.
—A arte não tem preço.

domingo, 1 de julho de 2012

PÁGINA DO ROSPO —7


DIÁLOGOS ANCESTRAIS



—Rospo, precisa ser um pouco vaidoso.
—
A vaidade deixo com exclusividade para você, Sapabela. Uma sapa vaidosa é tudo de bom.
—
Hoje, Rospo, o sapo também se preocupa com a aparência. Ele também se cuida.
—
?
—
Se ficou mudo é sinal de que vai pensar. Promete? Vai?

sábado, 23 de junho de 2012

PÁGINA DO ROSPO — 6




REMOVER SIM, REMOER NÃO!










Ao encontrar um amigo, Rospo observa seu semblante cabisbaixo e para romper a mudez arrisca um diálogo.
—O que está acontecendo, amigo?
—Tudo anda difícil. Não consigo nem pensar direito. São tantas as dificuldades...
—Sei, está remoendo.
—E deveria fazer outra coisa?
—Sim, tem sapo que neste mesmo instante está removendo.
—Remoendo, removendo. Aprecia brincar com as palavras, não é, meu amigo?
—Remover é mover novamente, mas também é um remo que movimenta o olhar. Remover pode ser remar a visão. Remover pode ser desentulhar a mente. 
—Lembra do que me disse em nosso último encontro?
—Perfeitamente. Nos despedimos sob José Ortega y Gasset...
—"Eu sou eu e minhas circunstâncias", vive a repetir isso, Rospo.
—Considero interessante. Mas compreendo também que a serenidade socrática nem sempre é possível. De qualquer forma, quero que saiba que entre se pôr a remoer e a remover, melhor sempre optar pela segunda.
—Falar sempre é mais fácil.
—Nem sempre. Às vezes, falar é o mais difícil.
—Rospo, passei a vida inteira ornando o meu ser, e agora, estou numa indecisão tremenda. Todo desesperado.
—Num certo momento, de nada adianta emplumar-se a alma, quer dizer, de nada adiantam solenidades. O que importa para o ser são os cuidados. Se você descuidou-se de si, não viverá o apogeu da alegria. 
—Rospo, seja mais claro. Excesso de leitura deu nisso?
—Ao contrário. A leitura torna o ser mais claro, mais objetivo, mais nítido...
—E por qual motivo então do lado de dentro do muro tantos se tornam cada vez mais labirínticos, mais complicados, com o pensamento mais rebuscado, mais enigmático? Seria excesso de prevenção? Seria uma espécie de égide? Um escudo usado para se preservar da "ganância" popular em se adentrar no mundo da Filosofia?
—Meu amigo, você está de bem com a vida, só não se deu conta. O que significa que está na hora de remover os entulhos que tanto o incomodam.
—Sabe, Rospo, talvez eu necessite do amparo da solidariedade dos amigos.
—Será que esse amparo, no seu caso, não seria por acaso, um sentimento gerador de pena comunitária? Às vezes a tristeza é tão atraente! Frequentemente o fracasso é regozijo da alma alheia. Deve ter reparado o quanto é difícil para a maioria aplaudir o sucesso de alguém próximo? Se você se mostrar remoído, certamente despertará paixões improdutivas...
—É muito para a minha cabeça, Rospo. Deixe-me aqui remoendo. Isso me causa um certo conforto.
—Pois então que continue a viver confortavelmente. Cá eu tentei removê-lo, mas parece que a argumentação está encontrando bloqueios sedimentados. Tchau, meu querido.

No caminho, Rospo encontra a velha amiga.
—Sabapela!
—Rospo! Agora meu coração sabadoficou.
—É?
—Não está vendo? Sabadofiquei-me. Veja como estou alegre.
—Para onde vai, amiga?
—Vou à padaria Rubi, comprar o pão nosso...
—Sorvete?
—Viva! O sábado começou! Venha comigo.
—Como estão as dificuldades, querida?
—Clamando para serem removidas, meu amigo.
—E como se faz isso, minha bela?
—Enfrentando-as;
—
Ás vezes as dificuldades são tão poderosas e imensas que parecem até deusas.
—
E daí? Sou uma titânide.
—Yupiiii!



MV



sexta-feira, 15 de junho de 2012

PÁGINA DO ROSPO — 5


    O CHAMAMENTO DA LITERATURA


—Rospo, estive pensando: o filósofo é um ser para a vida, não é?
—Sim, um ser para a felicidade.
—Como seria o mundo se Epicuro tivesse vencido, em vez de Platão?
—Boa pergunta, Sapabela.
—E a boa resposta, meu amigo?
—"Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e tempestades"
—Que mais, Rospo?
—"Não temos nada que temer aos deuses"
—"Qual é para você o filósofo da felicidade?
—Espinosa.
—Sofreu muito.
—Que encanto a sua vida!
—Acredita em outra possibilidade para a filosofia?
—Não. Só a felicidade. Se a filosofia não causar alegria no ser, não terá cumprido a sua essência. Os momentos de tristeza da humanidade foram momentos de afastamento da alegria da filosofia.
—A filosofia tem uma irmã?
—Tem. A literatura.
—É possível afirmar que a literatura é também alegria e felicidade?
—Sim.
—Mas tem literatura que nos leva à reflexão, e outras que abordam questões tristes...
—Por isso mesmo.
—Esmiuçando, por favor.
—O leitor apaixonado fica feliz diante da reflexão. Esse é o bem maior da literatura. Assim, dessa forma, veja só: mesmo quando a literatura expôr situações de tristezas e infortúnios da humanidade, estará regando o espírito do leitor.
—Gosta da palavra espírito, não é, Rospo?
—Sanchoniaton !
—Isso é uma gíria nova?
—O "espírito"  não tem aqui nenhuma conotação religiosa. É a palavra em seu sentido filosófico.
—Verdade que ganhou de presente de aniversário um livro de Goethe e  nunca leu?
—"Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister". Mas li pelo menos umas cem páginas.
—Pretende ler o livro inteiro, Rospo?
—Pretendo, Sapabela, só não sei quando.
—Sobre a literatura eu pensava que só a infantil fosse sinônimo de felicidade.
—Nada, menina!
—Nunca me chamou assim. Gostei.
—Eu também, Sapabela. Veja só: às vezes sinto uma felicidade estranha. Essa felicidade estranha é a literatura. Quando Montaigne falou que na biblioteca estão os melhores espíritos, os espíritos encantados da humanidade, ele se esqueceu de dizer que esses espíritos estão com você, em você quando subitamente sente uma vontade inexplicável de reler um livro.
—Umas das maiores tragédias da humanidade foi o incêndio que destruiu a biblioteca de Alexandrina. Como será no futuro, se as bibliotecas, dizem, serão todas virtuais? Estará preservado para sempre o tesouro infinito?: Mas fale da vontade inexplicável.

—Sim, repentinamente surge aquela vontade de reler um livro, de Jorge Amado, por exemplo, como Jubiabá...
—Felicidade pura.
—Ou "Memórias de minhas putas tristes", ou "Tia Júlia e o escrevinhador"...
—Como você explica isso?
—É o chamamento da literatura.
—Chamamento da literatura?
—Acredite! Quando você está em certas circunstâncias cotidianas a literatura a chama.
—A poesia sempre pisca pra mim.
—Pois é, esse chamamento é um mecanismo de defesa interior da mente, que busca, sempre, a felicidade.
—Rospo, e eu comecei falando de filosofia.
—Dessa irmandade não escapamos, Sapabela.
—Vamos ao nosso chocolate expresso?
—Sim, vamos, esse é o chamamento da amizade.
—Só me faz rir, Rospo.



MV



sexta-feira, 8 de junho de 2012

PÁGINA DO ROSPO — 4


FALANDO DE “RALACIONAMENTOS”



Rospo encontra uma amiga.
—Rospo, não consigo me entender com meu namorado.
—O que não acontece?
—Perguntou errado, Rospo. Deveria ser "o que acontece?".
—Pois que seja.
—Ele quer controlar a minha vida.

sábado, 10 de setembro de 2011

PÁGINA DO ROSPO — 3



A LUA E A SAPABELA








No brejo, Rospo, o sapo brejeiro, enamorado que só ele, tentava, com seus boleros de amor, conquistar a sempre tão distante e bela Lua.

Derramava ao luar a sua elegante voz.

Como se fosse o último romântico do século, tocava a sua viola e, bolerando, bolerando, declarava seu impossível amor pela insensível Lua, que no azul, distraída passeava.

Entre as folhagens, a Sapabela, entristecida, ouvia o sapo cantor e suspirava.

—“Que pena que ele só pensa na Lua. Se ao menos lembrasse que eu existo!”

E o sapo a cantar desabafava:

—“Não adianta! A lua nem ouve os meus boleros. Serei sempre um sapo solitário...”

E porque às vezes o amor está tão perto, mas a gente nem repara, o sapo continuava sonhando com a distante Lua, dedicando-lhe seus apaixonados boleros de amor, sem ao menos ouvir, atrás das folhagens, o palpitante coração da Sapabela.


MARCIANO VASQUES

sábado, 3 de setembro de 2011

PÁGINA DO ROSPO — 2



ROSPO E O CORAÇÃO

—Estão os três amigos numa festa, quando o Rospo faz uma inesperada declaração.

—Sapabela, eu a amo do fundo do meu coração!

—Rospo, que surpresa!

—Está errado, Rospo.

—O que está errado, Doutor Aparecido Palestra ?

—Dizer que ama alguém do fundo do coração, pois amamos com o cérebro. O coração é apenas um músculo. É com o cérebro que sentimos...

Como a Sapabela demonstra estar impressionada com a intervenção do amigo cientista, Rospo decide enfrentar a argumentação.

—Errado nada, meu caro Doutor! As palavras nascem em universos específicos. Nascido no trovadorismo, o “amor que vem do coração”, tornou-se um símbolo universal aceito por todos os povos e épocas.

—Que interessante, Rospo...

—Tem a ver com o pulsar da vida, Sapa.

—Fale mais.

—O coração, para a ciência, é apenas um órgão, mas no universo literário & poético é o símbolo universal do amor. Seria esquisito se o romantismo tivesse escolhido outro órgão. Creio que não soaria bem alguém dizer que ama alguém do fundo dos seus rins ou do fundo do seu fígado.

—Ou do fundo do seu cérebro!- arremata a Sapabela.

- E então, meu caro doutor Aparecido Palestra, satisfeito?

—Você tem razão, meu jovem amigo, eu sou especialista no universo cientifico, mas desconheço os motivos do universo poético.

—Mas eu fiquei curiosa com uma coisa, Rospo...

—O que foi, Sapabela?

—Que história é essa de “Amo você do fundo do meu coração!”?

—É...bem...er..hã...
— Explique, meu amigo, a palavra é toda sua.

—O coração está pulsando muito rápido, Doutor...
—Eis aí um momento em que os dois universos se cruzam.



MARCIANO VASQUES

sábado, 27 de agosto de 2011

PÁGINA DO ROSPO — 1

Agora os sábados ficarão mais divertidos por aqui. Ocorre que um certo sapo não me deixava em paz. "Eu quero! Eu quero! Eu quero estar no blog da AEILIJ de Sampa". Talvez por ele gostar de elogios, e aqui é o lugar certo. Receberá uma chuva de elogios. Falando em chuva, escolhi essa história para começar. E a Daniela Vasques é a ilustradora. Um beijo em todos, e obrigado Regina Sormani.
Marciano Vasques
                                       
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ROSPO E A CHUVA

Rospo está na casa da amiga Sapabela quando a chuva começa.

—Vou fazer pipoca e assistir à televisão.

—Boa idéia, Bela!

 —Que entusiasmo é esse, Rospo? E o seu compromisso? Pipoca e tevê só pra mim, que não tenho nada na agenda.

—Por acaso já olhou lá fora, amiga?

  —Sim, está chovendo. E daí?

—Você quer que eu saia na chuva?

—Eu não. O seu compromisso é quem quer. Aproveito para ensinar uma coisa...

  —Pronto. Filosofia em dia chuvoso.

—A chuva organiza o sucesso. Ela e o frio são os responsáveis e às vezes até determinam o êxito na vida de alguém.

  —Clima e sucesso. Só você, Sapabela.

  —Verdade! Alguém que não cumpre um compromisso por causa da chuva e adia uma decisão, não será vitorioso completo.

  —Está bem. Mas, você não pode me dar pelo menos um pouco de pipoca?

—Aceita primeiro um guarda-chuva?


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Até o próximo sábado!