quinta-feira, 29 de julho de 2010

QUINTAS - 21

Marciano Vasques


ARTESÃO 
DOS TECIDOS
HISTÓRICOS
 
 
 
A inspiração que vem do cotidiano é feita de pessoas que embalam cigarros nas indústrias de fumo, que permanecem em pé durante horas seguidas atrás de um balcão, que vendem balas nos vagões do metrô, água de coco nas praias brasileiras, que lêem os jornais pendurados nas bancas da cidade, que sentam nas escadarias do Teatro Municipal e que infestam o Viaduto do Chá lendo o futuro.
As pessoas apressadas que fingem que almoçam, que atravessam avenidas fora da faixa, que ainda engraxam sapatos na Praça da República, que trabalham em funilarias, em olarias e nas feiras.

Pessoas bondosas e ingênuas que estendem moedas para a mulher que distribui no metrô a foto de uma criança com um texto no verso afirmando que a pequena está com uma doença grave e necessitando de um determinado medicamento ou uma transfusão. A mulher que mostra a foto olha para todos com o olhar estacionado em uma aparente dor distante. Depois, ao sair do metrô encontra-se com as colegas, todas sorridentes e felizes por terem desempenhado cada qual bem o seu papel, algumas com crianças no colo. Crianças emprestadas, que, da mesma forma que a foto possivelmente retirada da internet, comovem os passageiros.

O passageiro que inocentemente dá moedas para a "pobre mãe" ajuda a enriquecer uma quadrilha, mas ele é motriz da história, com a sua força de trabalho. Construindo coisas sem conhecer o todo, falando estilhaços do que sobrou de sua alma no bar com a mesma convicção de um evangélico diante de uma platéia. Artesão, como os homens sem recursos no sistema financeiro, como os vidraceiros, os serralheiros, os que mostram receitas aos farmacêuticos...

Passeatas que cortavam cidades ao meio, gente que ocuparam terrenos, que ergueram acampamentos, que gritaram por postos de saúde, que assinaram manifestos, que lecionaram, intoxicaram a alma com o giz da ternura, com a cal da revolta, gente humilhada nas favelas, sangrando nas sessões de tortura, morrendo aos poucos nas filas hospitalares do sistema nacional de saúde.

Pessoas que timidamente procuraram as escolas para freqüentarem um curso de EJA, mulheres dançando forró nos bailes da periferia de São Paulo, nos bailes funks do Rio, nas gafieiras e no sambódromo.
Com um lápis entre os dedos, uma enxada nas mãos, recolhendo papelão e latinhas, respirando fumaça, alcoolizando o coração, acendendo velas e desfiando rezas e temores.
Em todos os lugares, nos centros educacionais unificados e nas escolas de lata, nas feiras e nos mercados, nos terminais de ônibus, nos portos e nas estações ferroviárias. Onde quer que seja, lá estão eles, cada qual contribuindo com a sua parte, com a sua reserva de forças, cada qual se proclamando um artesão dos tecidos históricos.
 

quarta-feira, 28 de julho de 2010

PÁGINA DO ILUSTRADOR - 6


PÁGINA DO ILUSTRADOR - 6

Danilo Marques

Neste mês, convidei vários ilustradores que participarão nas próximas edições, para esta estavam super ocupados, então fiz um convite ao Danilo Marques, que sempre gentil comigo, atendeu e está aqui, risos...

Ele vem apresentar "O menino maltrapilho e seu cãozinho de luxo", que será lançado na Bienal do Livro, no estande da Litteris Editora, escrito por Zezé Barcelos.
Para conhecer mais do trabalho da Zezé, clique:
http://www.zezebarcelos.recantodasletras.com.br/index.php

A história deste menino é muito bonita. Morador de rua, viveu um conto de fadas ao encontrar um lindo cãozinho da raça Colie solto pelas ruas, viveu inúmeras aventuras até que o cachorro encontra sua dona, uma mulher de bom poder aquisitivo que adota o menino como filho, tirando-o das ruas e dando a ele a vida que toda criança merece ter.

Os desenhos, seis ilustrações internas mais a capa, foram feitos a lápis de cor.

A capa (deixei sem cenário para dar bastante destaque nos personagens):
O reencontro com a dona do cãozinho:


Este é o desenho de capa antes de ser pintado:


Nesta cena, o menino leva o cachorro para debaixo do viaduto e o cobre com jornais.

Mais sobre o trabalho do meu amiííguu (he he he) Danilo Marques, no site http://www.danilomarques.com.br

Um grande abraço, Danilo Marques (ops, rs)

Para participar da página do ilustrador, basta mandar um e-mail com a proposta e as imagens para contato@danilomarques.com.br

terça-feira, 27 de julho de 2010

Convite virtual AEILIJ na Bienal do Livro 2010



Meus caros,
Estou postando o convite virtual da AEILIJ, pela primeira vez participando do estande coletivo da CBL, na Bienal do Livro de São Paulo. Essa é uma conquista a ser comemorada. Parabéns, AEILIJ!
Grande abraço a todos,
Regina Sormani

sábado, 24 de julho de 2010

PÉ DE MEIA LITERÁRIO 11


PÉ DE MEIA LITERÁRIO 11

Semana Literária nas unidades escolares do Colégio Objetivo

Há algum tempo frequento, como autor convidado, a Semana Literária das unidades escolares do Colégio Objetivo.

A rigor, nada de novo quando se trata de atividades escolares com leitores, escritores e mediadores de leitura (professores, coordenadores e bibliotecários). O novo está na insistência da continuidade do evento, na organização, na abrangência e na qualidade do trabalho feito nas escolas. E isso é muito bom e vem cheio de acertos.

A Semana Literária é realizada todo ano, no mês de maio, em todas as unidades escolares do Colégio Objetivo da Grande São Paulo. Simultaneamente diversas atividades são realizadas, desde a presença de escritores em entrevistas com os meninos e meninas leitores e leitoras até a exposição de seus trabalhos escolares, entre os quais alguns projetos interessantíssimos criados a partir da leitura dos livros. Registro, por exemplo, os trabalhos feitos a partir da leitura do meu livro Tantas Histórias Numa Caixa de Sapatos, que extrapolam o texto e navegam em águas gostosas da sensibilidade, da emoção, da construção de histórias de vidas, ainda que vidas de idades novas.

A organização é muito boa. Horários são respeitados, atividades são mantidas e levadas a termo dentro da programação pré-estabelecida. Nada mais saudável.

É visível, e merece registro, a constatação de que um ótimo trabalho de leitura foi feito com os alunos. As perguntas e o nível de participação dos leitores e das leitoras nas entrevistas são excelentes. Fica óbvio que a leitura foi feita, bem feita, rica, produtiva. E mais: não se restringe ao texto nem se esgota na breve passagem do autor pela escola.

O envolvimento dos educadores das unidades escolares é irrepreensível. Professores da sala, coordenadores e bibliotecária da unidade e geral estão sempre presentes, fazendo da presença do escritor na escola um evento de respeito. Todos gostamos dessa atenção recheada de carinho.

A Semana Literária não se esgota com a presença de escritores. Ilustradores e oficineiros também fazem parte do evento. Atividades de contação de histórias completam a programação.

Enfim, se a formação de leitores literários passa pelo trabalho nas escolas – e nós sabemos como a escola pode contribuir nessa questão – havemos que nos contentar com a qualidade do que é feito na Semana Literária das unidades escolares do Colégio Objetivo. Além do que, quem quiser tirar daí alguns ensinamentos para a sua prática, pegue uma caneta e anote as etapas de procedimento a seguir descritas: eleja uma coordenação, planeje as atividades, faça uma programação com as tarefas distribuídas, dê apoio e liberdade aos professores para realizarem o seu trabalho de leitura com os/as leitores/as, envolve toda a equipe escolar e a comunidade. Depois... é só correr para o abraço.

A Semana Literária do Colégio Objetivo é, sem dúvida, uma das atividades que contribuem para o nosso Pé de Meia Literário.

Sampa, julho de 2010

Edson Gabriel Garcia

Educador e Escritor

AEILIJ NA BIENAL


ASSOCIADO,
RESERVE JÁ O SEU HORÁRIO
NO ESTANDE AEI-LIJ NA BIENAL DO LIVRO


Planilha atualizada em 11/08 às 08:47

Prezados associados, a AEI-LIJ terá um espaço para que vocês possam apresentar seus trabalhos, lançar seus livros, contar histórias, expor trabalhos ou fazer outra performance dentro do que se propõe a arte de escrever e/ou ilustrar livros infantis e juvenis.


Para tanto, é necessário preenchermos os horários disponíveis na planilha.

Como proceder?
Veja a planilha (clicando na imagem), estude o melhor dia e horário para você.
Convide para o seu horário mais um ou dois colegas associados e envie seu pedido de reserva para o e-mail reservabienal@yahoo.com.br

Conforme confirmações de reservas a planilha no ar será regularmente atualizada.

Observação: Não poderá haver vendas no estande devido à necessidade de nota fiscal. A sugestão é:
Apresente os livros, conte histórias, e diga aos visitantes que o livro estará à venda no estande X e no estande Y... assim como se faz quando o livro é lançado numa livraria e o visitante busca o livro no caixa e volta para o autor autografar (Não é assim?)... Vai ser ótimo...
Vamos encher esta planilha?

quinta-feira, 22 de julho de 2010

QUINTAS - 20




Marciano Vasques
  

A MÚSICA NO CORAÇÃO DO TEMPO


 
Em 1971 Taiguara fez uma canção e por ela me apaixonei. Amanda ajudou a ilustrar a minha adolescência. Talvez não fosse eu já mais adolescente, mas ainda sentia as dores de sê-lo, que é aberto sempre estar para as dores do mundo receber.
Ouvi Amanda com Taiguara, com Antonio Marcos. É uma das canções responsáveis por um modo de ser de uma parte da juventude no início da década de setenta.
A Música realmente conduz as pessoas.
Ela é responsável por modelar, amortecer, entorpecer ou elevar as almas. A sua força é inconteste. E bem sempre souberam os exércitos e as religiões. E a música de letra reflete o coração do tempo. Nunca esqueci de Amanda, um jeito extraordinariamente poético de viver e sentir, que nos era por Taiguara oferecido na voz de um jovem cantor de São Miguel Paulista nos dias em que sobre as pessoas tinha o rádio uma força inimitável.
É compreensível que a canção que trouxe a poesia para a minha existência - a música de letra que esteve mais próxima da poesia - tenha sido a responsável pela adesão poética imediata ao trabalho de Caetano Veloso tempos depois. E os pioneiros, entre os quais Taiguara e Antonio Marcos, não podem ser desprezados.
No tempo em que ainda não havia uma separação tão abismal entre a poesia e a letra de música, e os versos tinham uma importância que parecia insuperável, os pioneiros, muitos deles posteriormente de brega ou coisa assim chamados, revelavam uma face em que as marcas no caminho talvez apagadas não pudessem ser.
Hoje canções como Balada de Agosto de Fagner e Zeca Baleiro ajudam a preservar no universo musical a necessidade da poesia.
Aplausos e compreensão merecem os cantores que edificam pontes entre as produções poéticas de qualidade intelectual e o popular. Muitos não têm consciência de sua própria importância, outros com habilidade entre universos diferentes trafegam, como Caetano, que é feliz na gangorra que construiu e vai e vem entre Guimarães Rosa e a mídia, da qual extrai mais do que o suficiente para a sua necessidade interior.
Enquanto observo a felicidade de algumas crianças da EMEF Jardim Vila Nova num entardecer chuvoso, penso no quanto a música foi, a partir de um momento, responsável pela construção do homem que sou...

terça-feira, 20 de julho de 2010

Canto & Encanto da Poesia -





Amigos,

Os versos que estou postando sobre o macaco, esse animal tão popular entre crianças e adultos, encontram-se no meu livro: "BICHINHOS DO ZOOLÓGICO" editado pelas Paulinas, agora em 11ª edição. As ilustrações são do Marchi.
Um beijo,

Regina Sormani


Macaco

Faço as minhas macaquices,
Eu sou mesmo genial.
Mas, não me dêem gulodices,
Senão depois passo mal!

Tenho um primo assanhado
Que se chama chipanzé.
É bom ficar avisado:
Nunca lhe dêem picolé!

sábado, 17 de julho de 2010

A CIDADE QUE FALOU COMIGO

Eu já viajei bastante por aí. Tive a possibilidade de me deparar com diferentes experiências e conhecer situações inusitadas. Com o tempo, fui adquirindo um hábito que, hoje, está totalmente cristalizado. Cheguei a pensar que fosse um problema, mas aprendi a administrá-lo. Não consigo viajar por viajar. Cada vez que isso acontece, preciso mergulhar nos hábitos locais, falar com as pessoas, ouvir a música regional e, graças à tecnologia, tirar centenas de fotos. Faço isso porque sei que vou encontrar alguma história por ali.

Foi assim que nasceu o meu primeiro livro individual: O OURO DO FANTASMA, que se passa na cidade de Tiradentes (MG). Um amigo me recomendou que eu fosse visitar a cidade, que pareceria um presépio. Penso que seja realmente uma das cidades mais bem conservadas, onde os aspectos históricos são percebidos pelos olhos, ouvidos e sentidos com os pés, no velho calçamento ainda preservado.

Então, para mim, Tiradentes é uma referência.

Nunca pensei que fosse encontrar algo tão autêntico em outro lugar, mas... encontrei e também foi a primeira cidade que falou comigo.

Trata-se da cidade de Goiás, antiga Goiás Velho, que fica no estado de mesmo nome e tem o título de patrimônio da humanidade concedido pela UNESCO.

É realmente muito especial. Para quem vive em cidades grandes seria fácil achá-la monótona, paradinha paradinha. Porém, para descobri-la, é necessário fazer tudo o que eu gosto de fazer. Tenho tantas histórias que até me perco!

Mas, por que eu ouvi a voz da cidade? Bem, isso aconteceu porque nela morou a poetisa Cora Coralina. Ao voltar para casa resolvi ler os livros dela e fui conhecendo as histórias das ruas por onde andei, do rio e até das pessoas que já não existem mais. Então, ao tomar contato com isso, foi como se eu estivesse ouvindo a voz mais profunda da alma da cidade, diferentemente de Tiradentes, da qual fui testemunha silenciosa e criei as pessoas e a minha própria história.

É por isso que sinto que Goiás falou comigo!


sexta-feira, 16 de julho de 2010

QUINTAS - 19

Marciano Vasques
  
 VIDA É ALGO MAIOR
 
  

Vida é feita de acúmulo cultural, resíduos poéticos que ferem como fiapos luminosos.

Terá a minha vindo do eucaliptal? Terá começado com o menino franzino que corria da chuva numa tarde que não partiu da minha memória?

Terá começado com a distinção do apito do trem na madrugada de febre?

Apito que devia ter sido recolhido e guardado  feito documento sonoro da memória do Brasil, como a voz de Catulo da Paixão Cearense, como as onomatopeias da infância. Há sons que só a criança ouve. Voa borboleta!

  E assim sou memória também. O olhar distante do meu pai, a sua impenetrável solidão. Que homem pode ter havido mais solitário em minha infância? Ele também era feito de memória. Memória que não cabia na casa, que se  estendia na varanda, se espichava na rua, desaparecia na poeira ou na neblina.       

Teci os caminhos, entrei neles com a teimosia encravada na alma, tal como o pássaro que fincou o espinho no peito, naquele conto que eu lia numa noite chuvosa.

Aprendizagem se faz na vida, recolhendo retalhos, rostos, restos, rastros, mágoas cerzidas. Há muito de Paulo Freire na vida de cada um, mesmo que ninguém repare. Precisaríamos de muita reparação.

No dia em que Patativa do Assaré partiu eu escrevia, penso que talvez tenha escrito todos os dias...

Como a vida é literária! A cada dia, a cada manhã, em todos os momentos...Na viela, nos varais, na velas, nos vilarejos...A literatura pulsa esperando ser recolhida.

Prestem atenção nas oportunidades que recusei, que joguei fora. Elas dizem muito sobre a pessoa que eu sou. Oportunidades que eu desprezei, das quais consegui me livrar, facilidades, ilusões. Como me orgulho disso!


Que vida!



sábado, 10 de julho de 2010

Vice-Versa de julho de 2010




Meus queridos amigos!

O Vice-Versa está completando dois anos promovendo a aproximação dos nossos associados. Durante esse tempo postamos 96 entrevistas reunindo vários autores ou seja: escritores e ilustradores da nossa associação e alguns convidados.
Neste mês, a ilustradora Thais Linhares (RJ)entrevista a escritora Flávia Côrtes(RJ) e vice-versa.
Parabéns a todos aqueles que participaram deste projeto! Obrigada!

Um abraço,
Regina Sormani





Thais Linhares



Flávia Côrtes perguntou à Thais:

1- Quando foi que você soube que seria ilustradora? Como tudo isso começou? Seu talento é inato ou é fruto de muito estudo e dedicação?

Sempre desenhei pra me expressar, e estudar foi por puro gosto. Desenho em qualquer canto "livre", e se estiver sem um caderno e um lápis no bolso eu me sinto desamparada. Talvez o talento tenha mais a ver com a facilidade pra comunicação visual. E o gosto, e oportunidade, leva a refinar o traço sem que isso seja um esforço, mas sobretudo um prazer.

O estudo nessa área envolve pesquisa visual (muito de história, culturas), treino com modelo vivo (e desenho ao ar livre), um tanto de psicologia das cores e símbolos, conhecimento de técnicas de representação, pintura e impressão – este sempre tendo de ser atualizado, em virtude das novas tecnologias.

A troca com outros colegas é outro grande aprendizado e incentivo. E hoje em dia é possível se sentir lado-a-lado com um artista de Dublin ou Tókio, como acontece no DeviantArt, ou Flickr... Essa possibilidade de conhecer os artistas do mundo todo (pelo menos os que têm acesso ao mundo digital) que a Internet nos presenteou, é fantástica. O ilustrador brasileiro tem crescido muito, tanto em qualidade quanto em consciência profissional, por conta desta troca de idéias.

2- Você também escreve. E muito bem. Quando sentiu essa necessidade?

Obrigada. É que tanto o desenho, quanto o texto vem de meu gosto pelas histórias. "Somente a história salva", ela reconecta emoção e realidade. A expressão é essencial a todo ser humano, seja através de arte própria ou fruída. Sempre gostei de escrever, mas ainda não dominava a técnica (e ainda estou a caminho disto). Parecido como ocorre com o desenho, é a maturidade que vai lhe fornecendo o meio e estilo próprios. Então, comecei de forma híbrida, primeiro escrevendo quadrinhos (onde se tem recursos muito interessantes, inclusive de ritmo de leitura visual na decupagem página a página), e depois com texto puro. No momento quero retornar a narrativa mais visual - culpa de meu ingresso recente no mundo dos roteiros de cinema e TV.

Sinto saudades dos quadrinhos, mas confesso que é uma forma tão complexa, que exige tanto estudo de composição, pesquisa... que também acho a mais cansativa de trabalhar. Acaba ficando só no campo das ideias.


3-Você se considera uma escritora que também ilustra ou uma ilustradora que também escreve? Ou isso não existe, as duas coisas podem se integrar perfeitamente?

Eita... difícil de responder. Como a maior parte do que produzi editorialmente é ilustração, coloco ela em primeiro lugar. Foi com ela que comprei minha casa e hoje pago o colégio de meus filhos. Não tenho outras formas de sustento que se comparem. A exceção são os roteiros que tenho desenvolvido pra TV. Mas o que ganho com eles ainda é bem menos do que com a ilustração editorial.

Porém, meus trabalhos mais queridos são os que escrevi e ilustrei - assim pude pensar de forma integrada. Neste ponto quero melhorar essa relação, usando texto a serviço da imagem e imagem a serviço do texto - sem redundâncias ou arestas. Se conseguir isso, então, as duas coisas irão de fato se integrar perfeitamente".

O estudo com a narrativa visual do cinema tem me ajudado tremendamente neste objetivo. Hoje mesmo, sentada na beira da Lagoa, me surpreendi escrevendo uma história já promovendo essa integração, onde ela se apresentava de maneira composta: parte visual e parte textual, sem que uma refletisse a outra. Funcionando como um corpo só. Foi gostoso perceber que isso começa a fluir naturalmente.
Quando vemos um livro bem ilustrado, é porque o texto e a imagem se complementam de forma harmônica.

4-Bons ventos me sopraram novidades vindo por aí. Conta pra gente...

Oras, tem o livro d"A Fada que acreditava em meninas", o seu livro, Flávia! Tem também um projeto com a escritora Gisele Endrigo, de contos de fadas, lindos e uma penca de textos só esperando a "massa crescer no forno", mas com esses vou com cuidado para não "solar". Nesses dois livros eu retorno com força total à artes com aquarelas, bem coloridas, num estilo próximo ao que usei a mais de uma década atrás, n"O Livro das Virtudes para Crianças" de Ana Maria Machado (ed. Nova Fronteira). Só que desta vez tenho comigo todo um estudo que irá dar maior densidade à arte: aquarela botânica, arte medieval... É, ilustrar é nunca para de investir em estudo. E por isso é que é tão gostoso.

Tenho feito coisas legais em cine-animação, entre roteiros, cenários e projetos. O curta que cenografei na Multirio , "O Saci" , da série "Juro que vi" acaba de ganhar um importante prêmio. Pintam convites diversos, mas pretendo não perder o foco em literatura, que é a minha maior paixão.

Alguns projetos editoriais, para jovens, também se preparam pra pular de meu bolso. Ainda bem que tenho esse super poder de clonagem que me permite fazer muitas coisas ao mesmo tempo (e dois filhos muito compreensivos com sua mãe workaholic).




Flávia Côrtes



Thais perguntou à Flávia:


1- Flávia, conta pra nós o que faz você querer escrever, e contar histórias!

Escrevo por dois grandes motivos. Primeiro para me expressar, para dividir com outras pessoas minhas ideias, impressões e reflexões. E segundo por necessidade. Adoro imaginar histórias e situações e elas vão crescendo dentro de mim, sem que eu possa evitá-las e até, muitas vezes, controlá-las. Já houve vezes em que ignoro uma história e ela não me deixa em paz, até que eu a escreva.

Mas claro que não é só isso. Uma história não cai do céu e é imprescindível todo um trabalho de elaboração do processo da escrita, das características de cada personagem, do ponto de vista narrativo e do desenvolvimento do texto.

Há uma fala do Oscar Wilde que resume bem isso: “Hoje trabalhei exaustivamente no texto, fiquei a manhã inteira para colocar uma vírgula, e a tarde inteira para tirá-la”.

Escrever, portanto, não é fácil, embora seja um processo muito prazeroso. E uma história precisa de muito mais do que isso para ser considerada pronta. Preciso me afastar do texto e deixá-lo um pouco de lado, por tempo indeterminado, e só retornar a ele quando já me sinto capaz de me distanciar de uma outra forma, a emocional. E aí sim, trabalhar exaustivamente na construção daquela narrativa. Cada palavra, cada vírgula, me tomam às vezes um dia inteiro. E até mais.


2- Quais suas principais influências e fontes de inspiração?

Sempre li muito, e desde muito cedo. Aprendi a ler antes de completar 5 anos e não parei mais. Na minha casa nunca houve distinção entre livros infantis e adultos e ninguém nunca me disse que ‘tal livro não era para mim’. Então eu lia de tudo, mas é claro que alguns autores me marcaram mais do que outros, como Monteiro Lobato, Ruth Rocha, Machado de Assis... Falo dos primeiros livros que li, porque acredito ter certas características destas leituras em minha escrita até hoje, como a irreverência, o questionamento, a desconstrução...

Minha maior inspiração são minhas filhas, de 9 e 13 anos, mas na verdade muitas coisas são capazes de me inspirar, uma paisagem que me chama atenção, pessoas (conhecidas ou não) que observo, uma conversa que ouço, um livro que leio, um filme que assisto, enfim, uma boa ideia pode surgir de qualquer lugar. E quando a história começa a crescer e a se definir dentro de mim, sinto que é chegada a hora de colocá-la no papel. Ou no computador.


3- Qual a história que você sonha um dia escrever, e porque ainda não fez?

Acho que a gente sempre traz uma grande história dentro de nós e tudo o que escrevemos é parte desse todo de alguma maneira. Sempre penso que meu melhor livro é o que estou escrevendo naquele momento, mas não é raro estar trabalhando em um texto e outro começar a surgir.

Tento ao máximo deixá-lo para o momento mais oportuno, mas nem sempre isso é possível. Algumas histórias crescem tanto que é preciso parar com a que eu já estava fazendo para deixar aquela outra fluir. Geralmente escrevo mais de um livro ao mesmo tempo e muitos projetos ainda estão por terminar.

Então, não sei se eu realmente sonho em escrever uma única e determinada história. Porque são tantas... Mas se é pra dizer um sonho, seria bom conseguir criar uma história onde os leitores mergulhassem intensamente, onde pudessem viver cada aventura que meus personagens vivessem e que fosse algo único e intenso. Isso sim, seria incrível.


4- O que faz uma escritora ser uma boa escritora?

Olha, essa é difícil. Ainda tenho muito chão pela frente. Mas posso responder como pesquisadora.

Muito se discute nos bancos acadêmicos sobre o que é e o que não é literário. Na minha opinião, a Literatura convida o leitor à reflexão e o leva a um mundo inteiramente novo, nem que seja por um mero detalhe, um ponto de vista. Uma história fechada demais, com todos os caminhos já traçados, as reflexões já prontas, dando margem à apenas uma interpretação, uma única verdade, não é Literatura. É notícia.

Sou formada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em Português e Literaturas, e me especializei em Literatura Infantil e Juvenil. Leio muito, procuro estar sempre atualizada com o que se produz por aí e me esforço muito para melhorar. Escrevo desde criança e acho que tenho alguma facilidade para criar e desenvolver histórias, mas isso não basta. A teoria é imprescindível a todo escritor.

Escrever bem é, portanto, ser capaz de criar uma história onde os leitores possam morar, como já dizia Lobato: “Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. (...) como morei no Robinson [Crusoé]’.

Bom, eu ainda não cheguei lá, mas o divertido mesmo é seguir tentando...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

QUINTAS - 19




Marciano Vasques
  

 A EXCLUSÃO DO PROFESSOR
 
 
O certificado de validade das idéias coletivas. Isso eu não tenho. Idéias próprias podem ser contestadas. A identificação é a do leitor. Eis uma idéia antiga, ainda em voga em muitas cabeças “pedagógicas”. O aluno é reflexo do professor. Sempre. Uma idéia antiga e incompatível, mas não ultrapassada. De qualquer forma pode ser considerada uma idéia coletiva. Muita gente acostumada a não pensar muito antes de falar afirma isso. O aluno é sempre reflexo do professor. O sempre não cabe aí. O aluno às vezes é reflexo do professor. Às vezes. Na filiação o mesmo pode ser dito. Filho de peixe às vezes peixinho é.
O professor, herói anônimo, acostumou-se a ser vítima de idéias preconceituosas ou descabidas.

É costume se dizer que o aluno bagunceiro é reflexo do professor. Essa afirmação está no inconsciente coletivo dos que medram em anseios ditatoriais. Defesa velada do tradicionalismo. Em bocas que em eventos da Educação costumam falar de construtivismo, citar Paulo Freire, Rubem Alves, e assim é.

O professor pode ser um ser poético, estar em estado de poesia, e os alunos continuam a bagunçar na aula. O professor “deixa tudo?”
Ele não consegue trabalhar, não consegue levar em frente o seu projeto de uma educação poética, por causa das circunstâncias. Seus sonhos tolhidos, arrancados, ele trucidado, como a cigarra da fábula, ou como Orfeu, e às vezes em plena sala de aula. E ainda leva a culpa. Até quanto suportará a postura de ser o culpado de tudo? Trucidado pelo desgoverno da sociedade atual, pela realidade brutal que estende seus tentáculos para dentro da sala de aula. Ele vive intensamente o desmonte da harmonia cultural...via televisão- e não apenas. As crianças vítimas do horário nobre são as que estão na sala de aula, diante de um professor, que por mais que possa ter um coração de giz poético, está indefeso e acuado, sem amparo, sem estrutura, e isso é assim em plena cidade educadora.
O que se chama de inclusão pode às vezes ser exclusão.

Manter alunos com problemas gravíssimos de aprendizado e até problemas mentais numa sala de aula de quarenta ou mais crianças ou adolescentes agitados e desorientados, impossibilitando o professor de agir educativamente, uma ação educativa verdadeira. Isso é inclusão?

Alunos na quarta serie que não sabem ler, que não conhecem as letras do alfabeto..., a incompreensão do ciclo, isso é inclusão? Esperar que o professor da quarta série reprove o aluno, pois na quarta ele será reprovado, isso é inclusão?

E o pobre professor nem sempre tem autonomia, por causa da necessidade de estatísticas, pois se ele não rende votos, estatísticas rendem. E elas contestam o direito do professor ser coerente e justo com o educando.
Se tudo isso é inclusão do aluno, com certeza é exclusão do professor, que certamente em algumas regiões do país já se sente excluído faz tempo.

Professor sempre é culpado pelo fracasso escolar. Já se ouviu muito isso. Não se deve tirar um milímetro sequer de culpa do profissional sem consciência educadora, mas ele é a minoria. Sendo assim, se o professor continuar com essa suposta humildade acabará virando minhoca.

A visibilidade eleitoral, a divulgação de feitos extraordinários, os gastos com construções, os tais gastos com educação, que, entre outras coisas, raramente passa pelo holerite do professor. Eis uma situação entristecedora.

Seria válido e interessante se ao educador fossem oferecidas as condições de trabalho (concretas, objetivas); mesmo que ele faça cursos, isso não é o suficiente. Ele é o profissional que não pode ficar apenas no plano da teoria.

Um vaso etrusco não modifica a natureza do excremento. Assim se diz. Uma ação enérgica e eficiente, verdadeiramente saudável, que produziria um resultado imediato e eficaz, tirando o professor de um sufoco extenuante, seria a redução da quantidade de alunos na sala de aula. As salas assim lotadas representam uma contradição com os discursos progressistas, que acabam reduzidos em poeira da retórica.

Se a lotação entretanto fosse uniforme, no mínimo o trabalho do professor seria gratificante, pois haveria uma situação decente do ponto de vista pedagógico, se me faço entender. Quero dizer que: se as classes fossem lotadas, mas todos os alunos pudessem acompanhar o desenvolvimento dos estudos, o professor conseguiria um resultado plenamente satisfatório. Mas...

Existem várias classes dentro de uma única, e a sala transforma-se numa espécie de depósito, sendo que o professor, equilibrista, precisa se desdobrar para conseguir dar um mínimo de sentido ao seu ideal.

Se isso é inclusão do aluno, com certeza é exclusão do professor.


terça-feira, 6 de julho de 2010

Canto & Encanto da Poesia- julho de 2010


Meus caros,

No Canto & Encanto de julho, estou postando uma poesia do meu livro Rebenta Pipoca, publicado pela Pioneira, cujos direitos retornaram à autora.

Beijos,
Regina Sormani



Ramalhete

Lindo brinco de princesa
Quem lhe deu tanta beleza?
E você, rainha rosa,
Violeta, flor bonita,
É de muitos favorita!
Altivo cravo, garboso,
Tem o cheiro mais cheiroso...
Diga, criança sabida,
Qual é sua flor preferida?

sexta-feira, 2 de julho de 2010

QUINTAS - 18

Marciano Vasques
  

O ESCRITOR E A LAGARTA


    Admirava uma lagarta comendo os verdes, quando fui perguntado sobre qual o mais importante filme do final do século. Respondi: “BUENA VISTA SOCIAL CLUB”.
  Filme de Wim Wenders, com a participação de lendários músicos de Cuba, entre os quais Rubén González, Compay Segundo, Ibrahim Ferrer e Omara Portuondo.
Não é bem um filme, é um documentário comovente.
Tocante do inicio ao fim, precisa ser assistido mais de uma vez por   militantes, sectários, amantes da arte. Ajuda a refletir. A mensagem precisa ser captada. Está no filme, mas precisa ser sentida.
Vejo um esportista do futebol conseguindo mais um patrocínio, que vai, entre outras coisas, engordar muito a sua renda. São agora vários patrocinadores, várias empresas. É muito dinheiro, não apenas para o moço. Deslumbrante ver as grandes empresas investindo no esporte, patrocinando um esportista, um ídolo.

Isso me fez pensar numa situação onírica, melhor dizendo, utópica, melhor ainda, bizarra: o escritor Fulano de tal conseguiu mais um patrocinador, breve estará lançando o seu novo livro. É o quinto patrocínio que o autor consegue.Também o poeta Sicrano de tal conseguiu novo patrocinador e estará participando de um congresso de literatura no exterior, no qual estará representando o Brasil. E ainda, o autor teatral Beltrano de tal conseguiu um novo patrocinador. Está preparando a montagem de seu novo texto, que será encenado em várias capitais do país.
Por enquanto ficaremos felizes vendo as grandes empresas patrocinarem apenas a distração do povo.

  Tempo atrás um jovem seqüestrou a esposa. Com uma faca na garganta dela, sete horas permaneceu. Exigiu a imprensa para expor a sua dor. Não suportava o sofrimento, ser traído arrebentava o seu coração, a indiferença da mulher o aniquilou por dentro, a sua possibilidade de ser feliz foi amputada com a zombaria que a esposa lhe impôs. A sua possível centelha de razão foi esmagada, esfarelada pelo desprezo do ser amado.Um homem pobre, infeliz, sem leitura.
A faca no pescoço foi a forma de mostrar o seu amor. Era só o que queria, mostrar o amor.Tragédia urbana, da periferia, daria um filme, uma peça de teatro, um romance, ou uma canção, como fez Gilberto Gil com “Domingo No Parque”. Gil é como Caetano, estrela imaculada que belas coisas faz.
Ponho-me a pensar. O que é um bom leitor? Penso que é aquele que tem em sua alma abundância de tolerância. Essa seria a matéria prima do bom leitor, tolerância. Em excesso.
Talvez ele seja o sujeito que aprendeu a dominar as gigantescas feras internas, com tolerância.Talvez se ponha a escavar o texto. Fazer com o texto o que brutalmente fizeram com a Serra Pelada.
E o que seria um bom escritor?
Penso que uma virtude do bom escritor é ter atenção para com a riqueza do coloquial.
Se ele despreza a riqueza do coloquial, falhou.

Como deve construir o seu texto?

Como uma lagarta.
O escritor tem parentesco com a lagarta, pois deve construir o seu texto como um casulo, que significa casa.
Assim como o seu texto deve ter um bom alicerce e também fortes e seguras colunas, deverá ser comparado ao casulo, que é construído em círculos, com os fios expelidos das entranhas.
O texto deve ser construído com a fineza do movimento circular do fio (fio que revela o caminho do labirinto) e o leitor, o grande escavador, terá diante de si a bela borboleta, a borboleta de vida eterna, que romperá o casulo, vitoriosa na sua metamorfose, após o período de intensa tolerância, a tolerância que é o brinde do leitor, a sua cortesia.
Sinestesia, o bom escritor valorizará as imagens sinestésicas da palavra, e a palavra dirá frio e dirá calor e ela, a palavra sinestésica do escritor contaminará a vida com luz.Com a sua palavra o escritor continuará o seu dizer. O seu dizer é poético, sinestésico.
O escritor erra, como todo ser humano, só os animais não erram, não têm o privilegio de errar.
E o erro é construtor, desde que acompanhado do pulo do gato.
Por isso a leveza, a sutileza e o silêncio são características essenciais do ser humano que busca o dom de ser felino. Se não for assim, se não tiver o pulo do gato, o erro não é construtor, não vale a pena.

O erro só vale a pena se for construtor, se for edificante. Se não edifica, melhor não existir. Quem desconhece o pulo do gato, melhor então ser como os outros animais, que não erram.
 Melhor seria o aprendizado sem erros, mas haveria de ser  uma quimera, uma fantasia.O que seria de um ser humano que nunca tivesse cometido um engano, e chegasse no alto da sua existência glorioso por nunca ter errado. Como imaginar uma criatura assim?
Quanto ao escritor, por sua condição de altamente produtivo e pela importância que tem nas sociedades humanas (se atualmente isso não é relevante, é porque as sociedades não são mentalmente saudáveis) adquiriu o direito saboroso do erro, pode errar quantas vezes for necessário, pois errando vai edificando e também fortalecendo o diálogo com o bom leitor.

O parentesco do escritor com a lagarta. Eis algo curioso. A lagarta comendo os verdes na sua preparação para o período de casulo pode ser comparada ao escritor se alimentando insaciavelmente com a vida, o seu alimento é a vida, e assim, depois, ele estará construindo o seu casulo, e a sua literatura terá lindas asas.