domingo, 6 de janeiro de 2013

Quem Conta Um Conto

Oi, pessoal, feliz 2013 para todos!

E para comemorar a chegada do novo ano, uma história linda do associado paulista, escritor Edson Gabriel Garcia.
Mergulhe nela e descubra de obde vinha aquele

BARULHINHO

– Putz, que saco!
Todo mundo concordou com a reclamação da Silvana. Tanto concordaram que nem sua mãe, sempre atenta e pronta para dar broncas por causa da linguagem pouco cuidada da filha, disse coisa alguma. Estavam todos, pai, mãe e as duas filhas, sentados no cômodo apertado em que ficava a televisão, aguardando o início do programa mais comentado dos últimos tempos, uma dessas porcarias quaisquer, um reality show de gosto duvidoso. Enfim, gostar ou não, perder tempo com bobagens, encantar-se diante das tolices da telinha, tudo isso é um problema de cada um e naquele momento a família Piedade dos Santos achava-se na bronca.  
– Será que vai demorar? – perguntou a mãe.
Nenhuma das respostas foi convincente, nem sábia, nem certeira. Apenas falas evasivas, solidárias entre si.
– Quem sabe? – disse o pai.
– Nunca se sabe! – disse a outra irmã.
– Na última vez, demorou muito... – disse a Silvana, sem muita certeza, pois não se lembrava.
O fato é que ficaram os quatro, por alguns instantes, sem saber o que fazer, o que falar, o que pensar. Na verdade, nos tempos atuais, nossa dependência da energia elétrica é tamanha que, quando ela falta, parece que a vida está a um passo do fim. A claridade artificial das lâmpadas some e todos os eletrodomésticos perdem sentido, o elevador para em um andar qualquer e, o mais complicado de tudo, a televisão, companheira de todos os solitários, emudece. E aí bate o desespero: ninguém sabe o que fazer, o assunto some, a conversa acaba, todo mundo fica sem ação.
– Putz! Que saco! – repetiu a Aninha, irmã da Silvana.
Saco cheio de silêncio. Sem energia elétrica, só sobrou um escuro esquisito e um silêncio meio estranho. O pai delas até arriscou puxar assunto, voltou longe na história, ficou lembrando episódios da primeira infância das meninas. Não agradou e ninguém se entusiasmou. A mãe tentou ajudar, fez gracinhas, contou duas piadas quase sem graça nenhuma e nem assim a conversa rolou. Sugeriu uma pipoquinha de micro-ondas, mas cadê micro-ondas... Os quatro ficaram, então, na pequena saleta, no escuro, sem assunto, aguardando a energia voltar para iluminar seus espíritos, aquecer sua conversa e trazer a vida de volta.
Mais de uma hora depois, dois tocos de velas quase no fim, e nada da energia elétrica. Como já passava das dez horas da noite, decidiram dormir. Cada qual foi para o quarto com a esperança distante de que no dia seguinte tudo voltaria ao normal. Eles se acomodaram em suas respectivas camas e um outro silêncio estranho tomou conta de tudo, logo após as últimas recomendações do pai sobre os perigos de incêndio e a necessidade de apagarem as velas.
Em pouco tempo não se ouvia quase nada entre as paredes. Aninha, como sempre, dormia depressa e deixava todo o sossego do mundo para a irmã. A Silvana acomodou-se na cama, puxou o cobertor até a metade do peito e ficou pensativa, esperando o sono chegar. Mas no meio do silêncio, um barulhinho diferente de todos os que ela conhecia começou a ocupar sua atenção.
Era um barulho desconhecido, parecia...
“Parece o barulho do apagador apagando a lousa”, pensou a Silvana. Não um apagador qualquer, não uma lousa qualquer, não uma aula qualquer. O barulho lembrava o ritmo calmo da professora de português, a Rosa Maria, depois de encher a lousa de exercícios chatos de gramática, procurando um espaço para escrever outra anotação, subindo e descendo o pequeno apagador... chuap... chuap...
Silvana descartou a possibilidade de ser o barulho do apagador da Rosa Maria, afinal já era bem tarde da noite e a escola, além de ficar meio distante, já estava fechadinha, fechadinha da silva. Então, Silvana aprumou as orelhas, tentou captar melhor o som para então identificá-lo. Parecia...
“Parece o barulho da Helô comendo seu lanche na hora do intervalo.” Ela sempre fazia um barulho esquisito mastigando o pão e o recheio, passando a língua na boca... slap... slap...
De novo, Silvana pensou bem e descartou essa possibilidade. O barulho da Helô era mais escandaloso e mais nojento. Além do que, a uma hora daquelas, ela já devia estar dormindo, dorminhoca como ela era.
Bem, se não era uma coisa nem outra, só podia ser... só podia ser...
 
“Só pode ser o meu pai lendo o jornal. Ele faz mais barulho mexendo, dobrando e virando as folhas do jornal do que a torcida do Corinthians em dia de jogo e vitória do timão” – pensou Silvana. Mas como seu pai poderia ler naquele escuro? Não era isso, não!
“Nem a Aninha andando pra lá e pra cá naquela sandália de couro velha irritante, croc... croc... croc. Ela está aqui do meu lado dormindo gostosamente. Nem o Zé Marcelo comendo batatinha frita, crec... crec... crec. Não há cheiro de batatinha no ar e o Zé Marcelo deve estar na casa dele a pelo menos uns dois quilômetros de distância. Nem a Solanginha apontando o lápis com aquele apontador de lâmina cega e gasta, gastando sem parar a madeira e o grafite do lápis, rac... rac... rac. Imagine, a Solanginha faz isso na aula de Educação Artística só pra irritar o professor Melo. Mas essa aula é às terças-feiras, nove horas da manhã, e hoje é quinta-feira, quase onze horas da noite. Também não é o Rodriguinho com aquele barulho insuportável estalando os dedos o tempo todo, plec... plec... plec. Ele não se atreveria a passar por aqui tarde da noite e fazer esse barulhinho perto de mim. Ele sabe que não suporto! Será o Rock, meu bichano invisível, avisando que vai sumir de vez? Ou será...”
 
Silvana soltou a imaginação, em busca de uma explicação para o barulho. Soltou as lembranças, o pensamento, o conhecimento. Foi longe e voltou, andou, andou e retornou. Só então, lá no guardadinho de sua memória ela achou ter localizado a origem do barulho.
“Mas será mesmo isso que estou pensando? Esse crac... crac... parece... Credo! Será?”
 
Aquele barulhinho no silêncio estranho e solitário do seu quarto parecia o barulho dos mortos-vivos mordendo, rasgando carne e quebrando os ossos dos vivos naquela série de sucesso de tevê...  
“Meu Deus, não pode ser! Isso só existe na imaginação doida dos escritores e roteiristas de televisão! Mas... o barulho é igualzinho, igualzinho!”
 
O barulho era idêntico. E foi ficando cada vez mais próximo dela. Cada vez mais. Silvana puxou o cobertor e cobriu a cabeça, apesar do escuro e do abafado da noite. Tudo foi ficando estranho, confuso, novos barulhos, a cabeça atrapalhada, ela suando, suando, o barulhinho chegando, cada vez mais. Então, no meio do desespero... ela acordou!
 
Era madrugada, todo mundo dormia e a energia elétrica havia voltado.
 
– Ufa! Ainda bem que a vida voltou ao normal – respirou aliviada, antes de dormir, feliz, outra vez.  

 Edson Gabriel Garcia
Sampa, calor dos bravos neste começo de 2013, entre contos e outras invenciones, sonhando com um mundo melhor.

Um comentário:

  1. Edson, meu caro amigo!
    Excelente como sempre.
    Abração!!!!
    Regina Sormani

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